Estou lendo o livro “Escravidão” de Laurentino Gomes. É o primeiro volume de uma trilogia que deve ser publicada ao longo deste ano. Gosto muito dos livros dele, porque aborda temas históricos usando profunda e ampla pesquisa, usando linguagem atrativa. Ao contrário de muitos autores herméticos e de difícil compreensão para leigos.
Estou chocado com o que estou aprendendo. Que a escravidão não começou mo século XV. Já existe desde a Grécia e Roma. Possivelmente até muito antes. Que a escravidão não se limita aos países do Novo Mundo. Países da Europa e Ásia também têm ou tiveram escravos. Que não só negros foram escravizados. Muçulmanos, asiáticos e até mesmo europeus já foram escravizados. Que do século XV ao final do século XIX o tráfico de escravos foi um dos melhores negócios do mundo, envolvendo comerciantes de mão de obra escrava, donos de enormes frotas de navios negreiros, governos europeus e reis africanos. Ao contrário do que eu pensava, eram os próprios africanos que arrebanhavam e vendiam escravos. Havia regulamentação desse mercado e a própria Igreja apoiava e traficava escravos.
Eu lia as informações friamente, como se fossem meramente uma coleção de dados estatísticos. Como que anestesiado. Até que cheguei ao ponto em que o autor descreve os escravos como moeda de troca, tantos escravos por um barril de cachaça do Brasil. Dízimos pagos com escravos, sendo alguns utilizados para trabalho das ordens religiosas (especialmente os Jesuítas, para minha decepção) e outros eram uma poupança para quando fosse necessário comprar alguma coisa. No preço final dos escravos já estava incluída uma previsão de perdas. Por morte, no transporte do interior para o litoral para serem vendidos aos capitães dos navios negreiros, durante a navegação ou nos depósitos em que ficavam “estocados” enquanto aguardavam, às vezes por meses, para embarque. Certos escravos eram descritos como “peças da Índia”. Por séculos, milhões e milhões de africanos foram escravizados.
Então me dei conta que a escravidão era considerada como “um dado do problema”, não um problema em si. As pessoas não tinham qualquer veleidade em ter escravos. Não só na lavoura como nas cidades. Acabei de reler vários contos de Machado de Assis, do século XIX. Todas as casas tinham “negros” para todos os serviços: lavar, cozinhar, arrumar a casa, fazer limpeza, levar recados, etc. (E olha que ele mesmo era da raça negra!).
Extinta a escravidão explícita, herdamos escravidão implícita: o preconceito. E, embora os negros sejam face mais visível, não é a única. Tendemos a aceitar, mesmo que inconscientemente, alguns fatos/rótulos como “naturais”. O nordestino preguiçoso, o baiano que só quer fazer festa, o português que é padeiro, o japonês pasteleiro, o chinês da lavanderia. Pode pensar em muitos etc. etc. E as cidades, especialmente as grandes, têm uma multidão de Pessoas cuja condição de vida é similar ou pior que a dos escravos. Os negros escravos, como força de trabalho, tinham que ser abrigados, vestidos e alimentados. Os “escravos” modernos, dos quais muitas vezes nem nos damos conta, são os invisíveis. São os moradores rua… Eles não têm onde morar, diariamente têm que batalhar por comida e quando ficam doentes dependem de almas caridosas para chamar auxílio (no mais das vezes, a polícia ou os bombeiros). Não podemos fazer muito, e há gente, graças a Deus, que faz. Como o Padre Júlio Lancellotti. O que podemos fazer é ter compaixão por eles. Prestar atenção por que estão nos pedindo alguma coisa. Se é um morador habitual da sua vizinhança, cumprimente-o (a) quando passar; depois de um tempo pode ser que ambos se sintam familiarizados um com o outro. Você pode perguntar algumas coisas (“melhorou do resfriado?”, “como vai seu filho?”, “já comeu hoje?”). E talvez você descubra que pode dar alguma coisa antes que seja solicitada. Talvez atenção seja o que mais precisam.
Escrito em 05/02/2021
