O REI ARTUR

Muita gente se surpreenderá com este texto. Mas eu precisava escrever para tirar a história de dentro de mim. Uma das minhas dificuldades é a timidez. Tenho certeza de que esta minha faceta foi prejudicial em minha vida, pessoal ou profissional. Tenho uma luta antiga e árdua para vencer esta limitação. Já progredi muito, mas ainda me considero longe do que gostaria. Até meus netos já comentaram que sou muito quieto, ao contrário do outro avô que é falante e brincalhão. Certamente a timidez me dificultou as relações, sejam afetivas ou profissionais. Sempre tive tendência para a inovação e para a liderança. Mas nunca para o protagonismo. Quase nunca deixei transparecer minha inibição.

Dei aulas, em cursos técnicos, em cursos de graduação e pós-graduação. Mas entrar na sala e me postar na frente de todos exigia de mim renovada superação. Quando acabava a aula eu ficava mais contente que os alunos (rsrs). Talvez por isso nunca desenvolvi uma carreira docente.

Dei muitos treinamentos, sozinho ou com meu parceiro e amigo Marcio Zenker. E ao fim de cada dia eu estava extenuado pelo esforço mental. Fiz muitas palestras que procurava evitar, mas nem sempre conseguia. Embora tenha trabalhado décadas com Desenvolvimento de Pessoal, na maior parte do tempo eu desempenhava o papel de planejador ou coordenador, poucas vezes como instrutor. Sem dúvida isso me impediu de despontar, como muitos consultores com quem trabalhei e dei suporte.

Fico pensando se minha timidez nasceu comigo ou foi desenvolvida. Sei que me lembro da minha inibição desde a infância. Por exemplo: no Colégio N.S. da Glória, onde estudei os primeiros oito anos de minha vida escolar, era preciso pagar uma mensalidade para jogar futebol durante os recreios. Minha mãe pagava, sei hoje que com muita dificuldade, pois sabia como eu adorava o futebol. Mas eu passava pelo acesso ao campo e ficava fora, atrás do gol, com vergonha de entrar. Mas o maior exemplo para minha timidez foi a história do Rei Artur.

Os maristas resolveram montar uma peça chamada “O Rei Artur”, a ser encenada no auditório, para todas as famílias. Não sei como fui escolhido para representar o Rei Artur, logicamente o papel principal. Logo nos primeiros ensaios, devido a minha dificuldade em me identificar com a personagem central, trocaram o artista e me puseram num papel secundário. Mesmo assim eu não conseguia ficar à vontade. Mas os irmãos gostavam de mim e queriam que eu participasse de alguma forma. Então tiveram a ideia de escrever um texto para ler na abertura do espetáculo. Eu ficaria na frente das cortinas, antes que abrissem, e leria o texto. Percebendo minha dificuldade, o texto passaria a ser lido “em off” como se diz hoje. Eu ficaria a trás da cortina, escondido do público, e diria o texto para um microfone. Fiquei todo gabola e fiz o que tinha que fazer, com o papel tremendo em minha mão.

Não se lamente. Escrever esse texto foi uma espécie de libertação. Foi bom para mim dividir estes sentimentos com o papel (na verdade com o computador…rs). Espero que seja útil para quem precisa superar alguma limitação.

PS. Hesitei muito em escrever e publicar este texto, mas agora estou tranquilo.

Escrito em 01/02/2021

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