Amanhã vou fazer cirurgia da catarata. Significa que as minhas lentes de fábrica se desgastaram com o tempo e precisam ser trocadas para não me atrapalhar a visão Quanta coisa elas viram ao longo da minha vida… Algumas lembro com saudade, outras gostaria de esquecer. A lente será nova, mas impressões serão para sempre. Coisas que elas viram:
… o quintal da casa da minha mãe, com as galinhas e a horta; eventualmente um peru, patos e coelhos.
… as mães sentadas na porta das casas, vendo as crianças brincando de amarelinha, pega-pega, esconde-esconde, barra manteiga e tantas outras.
… os tipos da rua, como homem que comprava roupa velha e vinha gritando, com forte sotaque “Roba velha, roba velha” e eu ficava com medo que ele levasse minha mãe…. E o homem das cabras, que eu ficava esperando sentadinho na porta de casa para tomar um copo de leite de cabra tirado na hora.
… o futebol na rua, onde passavam poucos carros.
… no caminho da escola, a saída dos operários da Ramenzoni indo almoçar em casa, todos de chapéu.
… o ônibus para voltar para casa, vindo do Colégio do Carmo e esperando o embarque das meninas do Colégio São José.
… meu nome na lista de aprovados na FEI e na Mauá.
… meu nome no convite de formatura e, logo depois, no convite de casamento.
… o registro de nascimento do Mauro, da Camila e do Edgar.
… o corpo do Mauro no caixão, morto aos 17 anos num acidente de carro em São José do Rio Preto.
… os nomes da Camila e do Edgar nos convites de formatura; ela em Odontologia e ele em Direito.
… a imagem da primeira neta, Sophia.
… a imagem dos primeiros tempos, difíceis, do neto Pietro.
… o teto da UTI em três das minhas cirurgias.
… o velório da Viviane.
Tantas lembranças…! Vão-se as lentes, mas ficam as recordações. Graças a Deus são mais das boas do que das tristes. Mas todas fazem parte da minha vida. Paro por aqui, para não encher volumes e mais volumes. De vez em quando, se alguma surgir mais forte, faço um texto para ela.
Escrito em 16/02/2021
