Então, aqui estamos para a segunda e última parte das minhas pequenas aventuras em Pariquera-açu.
A segunda vez que meu avô me levou para Pariquera (já tinha intimidade com a cidade…) ele tinha achado uma pensão bem familiar e lá ficamos. A dona da pensão tinha um filho, Candinho, talvez uns dois ou três anos mais velho do que eu; logo ficamos amigos. Com ele aprendi como um “esperto” da cidade grande pode ser ludibriado por um “caipira” do interior. Ele me mostrou um pequeno vidro com uma cobrinha dentro, imersa no álcool. Eu fiquei simplesmente encantado, pois nunca tinha visto uma cobra fora do zoológico ou do Butantan. E tão de perto. Fiz de tudo para que ele me desse essa cobra de presente. Ele regateou até o dia em que vínhamos embora. Então ele “não resistiu” e propôs a troca por uma lanterna novinha que eu tinha ganho da minha mãe. Antes que ele mudasse de ideia aceitei a troca! Para resumir: quando cheguei em casa minha mãe ficou furiosa:
– Além de ficar sem a lanterna quero saber o que vai fazer com essa cobra.
Aí me dei conta da bobagem que tinha feito. Não me lembro que fim levou a cobra. Anos mais tarde o Candinho veio para São Paulo e foi trabalhar no extinto Banco Bandeirantes, onde já trabalhava minha irmã Maria Zélia.
A terceira vez que meu avô me levou, meus primos Nelson Junior e Antonio Carlos (Tonino) também foram. Ele nos considerava seus sucessores na fábrica de adubo, o que nossas mães nem queriam ouvir falar.
Um dia ele nos levou para conhecer Cananéia. Pouco depois de estarmos naquela estrada de terra vimos à nossa frente um casal numa Lambretta (hoje seria uma scooter). Meu avô decidiu não ultrapassá-los para que não “comessem poeira”. Pouco mais tarde vimos a Lambretta parada. Meu avô parou:
– Precisam de ajuda?
– Não, obrigado. Ela só foi urinar ali.
Meu avô saiu depressa, porque naquela época não se falava “essas coisas” na frente de crianças… Chegando a Cananéia ele resolveu nos mostrar a Ilha Comprida. O acesso era por balsa. Na volta, quando faltava só um pouquinho para a balsa atracar o Junior começou a pular da balsa para o atracadouro e do atracadouro para a balsa. Meu avô gritava para ele não fazer isso, mas ele não atendia. Quando faltavam poucos centímetros para a balsa atracar o Junior pulou, a balsa inesperadamente bateu no atracadouro e voltou. Por muito pouco meu primo não caiu no vão que se formou. Faltou pouco para meu avô lhe dar uma surra.
Tínhamos permissão ir e voltar à pé do sitio. Eram uns dois quilômetros da cidade. Achávamos o máximo andar cumprimentando pessoas que nunca tínhamos visto:
– “…dia”.
– “…dia”.
Logo na entrada do sítio ficava a casa do caseiro e alguns casebres dos colonos, com suas hortas de subsistência. Aí começava um leve declive que terminava num riacho. Depois desse riacho ficava o bananal, e as bananas eram embaladas para exportação. Depois do bananal havia uma colina não muito alta onde meu avô plantava café, para fugir das geadas. Para atravessar o riacho a “ponte” era um tronco de árvore, sobre o qual a gente tinha que se equilibrar. Um dia meu avô caiu e ralou a perna. Foi um susto!
À beira desse riacho aprendemos a fumar. Adivinha quem foi o “professor”? Isso, o Candinho!! Ele comprou um maço de EF, um cigarro com filtro, que era mais barato que um sem filtro. Fomos para a beira d’água e começamos a queimar os cigarros. Depois que acabamos, nos demos conta que iríamos chegar em casa fedendo a cigarro. Mas o Candinho sabia como resolver o problema. Pegou uma folha bem larga que havia ali e fez um cone no qual bebemos água e o cheiro saiu. Sábio conhecimento interiorano! Com isso ficamos mais tempo e já começava escurecer quando íamos voltar. Nisso o Junior disse que tinha torcido o pé e não aguentaria ir até a pensão. Então eu e o Tonino fomos sozinhos pedir para o meu avô buscar o Junior. Ele ficou preocupado e logo saímos em busca dele. Estávamos quase chegando quando vimos meu primo caminhando normalmente pela estrada, ao lado de um transeunte. O medo de ficar sozinho tinha sido maior que o de caminhar à noite…
Não sei por que esta foi a última vez que fui a Pariquera…
Escrito em 28/01/2021
