O dia amanhecera garoento e com a temperatura um pouco mais baixa que o normal para dezembro. Nina e Zeca acordaram e trocaram algumas carícias antes de saírem da “cama”. Esta era algumas folhas de papelão para evitar o frio do chão. Levantaram-se e saíram para fora da “casa”. Era uma folha grande plástico amarrada numa árvore nos baixos da passarela que passa sobre o minhocão, formando como que uma cabaninha. Estava começando mais um dia de dura luta pela sobrevivência.
Nina atravessou a rua enquanto um senhor saia pela porta do prédio 23 da Rua Cardoso de Almeida. Nina se dirigiu a ele:
-Oi tio, bom dia. Pode me dar um dinheirinho para o café da manhã? Estou grávida e aquele é o meu marido, apontando para um homem na esquina que mexia numa dessas carrocinhas de coleta de papelão.
Por alguma razão, contrariando seu princípio de não dar esmola, este senhor deu-lhe o trocado que tinha na carteira. Foram cinco reais. Ela entrou no boteco ao lado, enquanto o senhor continuava seu caminho pensando qual a expectativa de uma moradora de rua grávida.
Enquanto isso o marido dela começava seu trabalho diário. Puxava a carroça enquanto procurava restos de papelão. Ele costumava achar bastante papelão resultado das embalagens descartadas pelos comerciantes. Até já sabia quais eram as ruas mais promissoras. Porém, com a pandemia e a mudança dos hábitos de consumo, sua tarefa ficou mais difícil e trabalhosa. Muitas vezes, ao final de um dia inteiro de trabalho, ele não conseguia juntar papelão suficiente para vender e ganhar o dinheiro para o jantar. O almoço dependia da caridade de donos de bares e restaurantes. Muitas vezes ele deixava de almoçar para poder comprar o jantar.
Enquanto isso Nina, perambulava pelas redondezas fazendo pequenos favores em troca de uns trocados. Ajudar uma idosa a atravessar a rua, ajudar uma pessoa a carregar sacolas de compras, etc. Fazia isso com um sorriso no rosto e tratando as pessoas com muita alegria. Nem sempre ela conseguia juntar mais que suficiente para um pão com manteiga e um café com leite. Mas ela continuava a busca do seu sustento, enquanto aguardava a volta do Zeca e torcia para que ele tivesse tido um bom dia.
Quando o sol já estava se pondo ela estava na porta de casa esperando pela chegada do Zeca. Dali a pouco ele chegava. Tinha sido um dia ótimo! Ele trazia trinta reais no bolso. O suficiente para o jantar de hoje e para o dia seguinte, caso o resultado do trabalho não fosse tão. Entraram no boteco e pediram uma quentinha com um comercial. Custava dezessete reais mas o dono fez por dez e ainda colocou um ovo a mais. Foram para a porta da sua casa e comeram seu banquete.
Da janela do seu apartamento aquele mesmo senhor obsevava atentamente a cena quando foi surpreendido por algo inesperado. Terminada a refeição, o casal se abraçou e se beijou com muito carinho. Daquele modo que só pessoas de bem com a vida conseguem. E entraram ma casa como estivessem entrando num motel de luxo. E o senhor pensou “como as pessoas podem ser felizes com tão pouco…?”.
Escrito em 25/01/2021
