Você já sentou numa roda de chopp com vários piadistas no grupo? É muito divertido. Funciona assim: alguém começa contando uma piada; aí outra pessoa diz “isso me faz lembrar daquela que…”. Assim você pode passar várias horas tomando chopp e ouvindo piadas. Foi mais ou menos o que me aconteceu ontem quando eu escrevia sobre Capivari. Então me lembrei da história a seguir.
Primeiro tenho que explicar aos mais novos que naquela época era muito complicado usar o telefone. De Capivari para São Paulo era preciso pedir a uma telefonista local. Ela então dava uma previsão de quando a ligação seria feita. Geralmente era preciso esperar dois a três dias!… E era preciso ficar de plantão no dia e hora marcados, se não sua ligação voltava ao fim da fila. Mais para a frente você vai entender o por quê desta explicação aparentemente fora do contexto.
Minha mãe era uma excelente cozinheira, como boa Mamma de descendência italiana. Ela fazia um pé de moleque como não se faz mais. Eu tirava a casca dos amendoins que ela mesma torrava. Era um trabalho de muita paciência. Valia a pena pelo resultado. Mas o primeiro pé de moleque foi inesquecível. E foi em… Capivari. Minha mãe e minhas tias Alzirinha e Jandira resolveram fazer pé de moleque. Algo que nunca tinham feito. O pé de moleque é feito numa panela e despejado numa superfície lisa para endurecer e depois ser quebrado. Bem, neste caso, elas julgaram que já era hora de despejar. Viraram a panela e… nada. Aquela massa se recusou a sair da panela. Por mais que fosse puxada, nada! Então a panela foi para cima da mesa e nós fomos autorizados a pegar com uma colher. Chegamos a quebrar o cabo de algumas colheres. Quando conseguíamos um bocadinho ficávamos vários minutos mascando aquele grude até que se derretesse na boca. Agora entra a história do telefone. Durante uma sessão coletiva de degustação imperava o silêncio de todos enquanto esperavam o pé de moleque derreter na boca. Nessa hora tocou o telefone. Era o dia D, hora H (rsrs) para uma ligação de São Paulo. Era meu tio Bindo respondendo ao pedido de ligação. Foi um Deus nos acuda para cuspir o que tínhamos na boca e atender ao telefone.
Mas se você acha que a história acabou assim, está muito enganado (ou enganada). Aquelas mulheres eram determinadas! Resolveram fazer nova receita, ajustando o que tinha dado errado. Na hora de virar a panela, vitória! Aquele melado todo escorreu e se espalhou sobre a mesa de madeira da cozinha. Ainda faltava esperar esfriar para quebrar em pequenos pedaços e irmos saboreando aos poucos. O doce esfriou e chegou a hora de terminar. Tentamos levantar com as mãos e nada aconteceu. Tentamos enfiar por uma faca por baixo daquela rocha e… nada! Tentamos o batedor de carnes e só conseguimos tirar umas míseras lasquinhas. Para resumir, era preciso recuperar a mesa da cozinha. Qual foi a solução? Cada vez que chovia a mesa era levada para fora e ficava na chuva. Depois nós íamos lamber o pouco que a chuva tinha derretido. Não me lembro de quanto tempo demorou para a mesa ficar livre do pé de moleque. Mas seguramente não foram poucos dias.
Escrito em 22/01/2021
