CAPIVARI

Hoje, enquanto eu esperava pacientemente (até porque não tinha outra alternativa…) a consulta com a cirurgiã que vai operar minha catarata, me veio a ideia de escrever, de vez em quando, minhas memórias da infância e juventude. Então aqui vai a primeira dessas lembranças.

Quando eu era um menino, meu avô Bindo tinha uma fábrica de adubo na cidade de Capivari. Ficava um pouco fora da cidade. Chegava-se ao terreno da fábrica por uma rua de terra que passava por uma ponte de madeira. Em frente ao enorme portão de entrada o tráfego (quase nenhum) tinha que dobrar à direita e passar por cima da estrada de ferro e assim entrar na estrada que ia para outra cidade. Antes desse portão, do lado esquerdo, havia com correr de cinco ou seis casinhas geminadas que eram a residência de vários operários da fábrica e suas famílias. Era o costume dos industriais da época. Passando o portão, ao lado esquerdo ficava o escritório e ao lado uma casa muito grande que abrigava os diretores e suas famílias em férias. Para nós, crianças, era o sitio de Capivari onde passávamos muitas férias. Eram muitas coisas diferentes do que estávamos acostumados na cidade grande. Tudo era diferente.

Por aquela rua de terra e na estrada passavam caminhões carregados de cana de açúcar para um engenho da região. Quando os caminhões tinham que parar, para esperar o trem passar, pedíamos cana e o pessoal do caminhão nos jogava algumas. Eram cortadas pelos nós, descascadas e cortadas em palitos, que íamos chupando e mascando. Por esse mesmo caminho passavam boiadas tocadas por vaqueiros a cavalo. Vez por outra um boi escapava e entrava pelo portão. Ficávamos apavorados, corríamos para casa e nos escondíamos até que os vaqueiros entrassem e tocassem o boi de volta.

Esse portão foi palco de algo que não me esqueço: meu primeiro e único banho de lama. Na época da seca a prefeitura fazia circular pela cidade um caminhão pipa com um chuveirinho atrás, para molhar as ruas e diminuir a poeira. Não sei por que cargas d’água um dia esse caminhão parou bem do lado do portão e ficou escorrendo água até formar uma poça de lama. Eu e meus primos, com autorização das mães, entramos nessa lama, só de cueca, e nos esbaldamos em rolar na lama.

Como falei, a estrada de ferro passava ao lado da fábrica. A locomotiva era Maria-fumaça e fazia ligação com a capital. Eu adorava quando o trem passava à noite e podíamos ver as fagulhas saindo da chaminé. Esse trem também era motivo de outra aventura. A fábrica contava com um desvio ferroviário para carga e descarga. Eu adorava ver a locomotiva manobrar, entrando de ré deixando vagões com matéria primas (geralmente ossos de boi ou um produto em pó que vinha do Chile) ou levando vagões com sacos de cimento.

Pois foi exatamente aí que aconteceu o que vou contar. Uma vez meu tio Jairo, irmão caçula da minha mãe, que morava na casa e tomava conta da fábrica, levou eu e meus primos Antonio Carlos (Tonino) e Junior (Nelson) para lá. Tio Jairo era muito brincalhão e punha apelido em todos os sobrinhos. O meu era Paulo Salsa… Durante a viagem ele dizia que estávamos no caminho certo porque sentia um cheiro de papel amassado; depois, que estávamos bem perto porque dava para sentir cheiro de papel rasgado… Então, um dia eu e meus primos entramos no depósito onda havia sido descarregada uma verdadeira montanha daquele produto em pó, que parecia areia. Não deu outra. Passamos a subir no monte e vínhamos escorregando ladeira abaixo. Tínhamos inventado a diversão das dunas do Rio Grande do Norte! Mas alguns operários viram o que estávamos fazendo e foram avisar meu tio. Ele veio muito bravo e nos tirou imediatamente dali e nos mandou tomar banho. E ameaçou: “Isso é adubo! Agora vocês vão ter que cortar a unha três vezes por dia…”. Confesso que passei vários dias observando o que estava acontecendo com a minha unha.

Escrito em 21/01/2021

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *