São sete horas da manhã. Já está quente, afinal é fim de fevereiro. Estou fazendo minha caminhada habitual, numa praça da Vila Madalena. Ela é inclinada, como tudo parece ser por aqui. Já faz um ano que estou morando neste bairro e não me lembro de ter visto pelo menos 50 metros de rua plana. Com isso, o exercício é praticamente compulsório. Cansativo, mas bom para a saúde… Enquanto caminho, absorto nesse esforço para achar o lado positivo deste sobe e desce, percebo à minha frente uma mulher passeando com seu cachorrinho. Ela está vestida com uma dessas calças bem justinhas, que vão até pouco abaixo dos joelhos. A parte de cima é uma espécie de camiseta, ambas fazendo claramente um conjunto bem fashion. As cores e “justeza” da roupa não deixam passar despercebida a real necessidade que a Mariana tem de fazer exercício. Sim, eu a “batizei” como Mariana. Nem sei por que. Mas, resumindo, mesmo com um pequeno sobrepeso ela parece ser uma mulher interessante, do ponto de vista que a observo. Talvez na faixa de seus 45 anos. Enquanto vou criando essas informações sobre a Mariana, ouço que ela chama:
– Marieta! Marieta!
Olho para os lados, buscando ver de onde vem essa amiga por quem ela chama. Não consigo ver ninguém. Será que ela fala sozinha? E ela chama outra vez:
– Marieta, vem!
E a Marieta vem. Correndo e abanando o rabinho. Então, não era cachorrinho. É uma cachorrinha. Mas não é uma cachorrinha qualquer, pois a Mariana fala novamente com ela:
– Vem com a mamãe, Marieta!
Isso leva meus pensamentos para coisas mais sérias do que simplesmente criar a história de Mariana. Como aumentou a quantidade de animais de estimação! Há quase uma pet shop em cada quarteirão. Já há salão de beleza para cães e gatos, hotéis, restaurantes e até psicólogos… E, o que mais me intriga: por que essa forma de tratar os bichinhos (e mesmo os bicharrões) como filhos, netos e sobrinhos. Será que Darwin deixou escapar alguma coisa? Esse carinho pelos bichos, essa personificação de um parentesco impossível, tem que ter uma razão. Do tipo que “só Freud explica”. Será expressão de carência afetiva? Será a busca de uma relação de dedicação sem cobrança? Ou será mais um exemplo do individualismo, do egocentrismo, da falta de comprometimento, comportamentos tão comuns destes tempos que estamos vivendo? Bem, pelo menos nesse momento que estou descrevendo, uma possível resposta logo se apresentou. Como é comum nas praças desta cidade monstruosa, um morador de rua começou a levantar seu acampamento noturno. Bem à frente do caminho de Mariana e Marieta. Mariana prendeu Marieta na coleira, pegou-a em seus braços, desviou seu caminho para longe daquele maltrapilho, fedorento e faminto. E acelerou sua volta para casa, onde Marieta receberia água fresca, a ração balanceada e iria dormir em sua cestinha almofadada. Esse animalzinho receberia, em momentos, mais do que aquele ser humano miserável teria em todo seu dia de marginalidade social.
Escrito em 04/03/2008
PS. Esta minha opinião é muito antiga e não mudei até hoje. Antes que me entendam mal: adoro animais de estimação. Já tive gatos e cachorros. Só não tenho hoje porque não tenho espaço nem condição para cuidar.
Publicado em 09/10/2021

Profunda reflexão. Concordo com você. Acho que os seres humanos estao se entendendo menos. Dai é melhor ter um animal para companhia…. Eles não contestam…
É isso, minha amiga. Se que desagradei muita gente, mas é o que penso.