Já contei em outro texto que a FEI havia se mudado para São Bernardo do Campo quando fui aprovado no vestibular, em 1966. Então quando as aulas começaram tudo era meio precário. Estudávamos no meio das obras. O projeto era caro e era necessário que os empresários fizessem doações. Cada modalidade de engenharia pedia para empresários de seu segmento. Os alunos de Engenharia Automobilística visitavam as fabricantes de automóveis e autopeças. A minha turma visitava as metalúrgicas. Lembro-me de ter ido à Metal Leve e à Termomecânica, sendo que esta doou a construção de um galpão metálico inteiro, soldado com material produzido pela empresa.
Entre esses percalços estavam os laboratórios. Muitos funcionavam em instalações cedidas gentilmente por empresas e escolas. Era o caso do meu laboratório preferido, o de Mecânica dos Fluidos, matéria carinhosamente chamada de MecFlu. Desde o colegial sempre tive uma inclinação especial pela Física. Mais do que pela Matemática e pela Química. Esse laboratório funcionava nas instalações da Escola Técnica Industrial Lauro Gomes (ETILG), que ficava no centro de São Bernardo, uma tanto longe do campus. Para otimizar o deslocamento as aulas eram programadas para meio período. De manhã ou à tarde. Lembro que a Heleninha, na época minha namorada, me chamava às vezes de Etilg… Nesse laboratório havia um auxiliar que tomava conta dos equipamentos. Infelizmente não consegui lembrar o nome dele. Vou chamá-lo de Toninho, pois tinha cara de ser Toninho. O Toninho era de uma paciência incrível com seus “meninos”. Quando inundávamos o laboratório, ele enxugava sem reclamar. Quando estragávamos os líquidos com o corante errado, ele trocava sem se queixar. Todos gostávamos muito dele. Frequentei o laboratório de MecFlu quando estava no terceiro ano, em 1968. Até eu me formar, em 1970, o laboratório ainda estava lá e eu nunca mais vi o Toninho. Muitos anos mais tarde, precisei do meu histórico escolar para matrícula na pós-graduação da FGV. Fui atrás desse documento; peguei um ônibus e pedi ao cobrador que me avisasse para eu descer na FEI. Quando ele disse “É aqui”, quase morri de susto. A entrada era numa avenida super movimentada, no meio de um bairro muito populoso. Nada daquele fim de mundo que estava na minha lembrança. Comecei a andar por lá, no meio de edifícios que eu nem sabia o que eram. Reconheci um edifício de dois andares onde, na minha época, ficavam a Diretoria, a Administração, as salas de aula e os anfiteatros. Anfiteatros eram usados para aulas comuns a todas as modalidades como, por exemplo, Cálculo. Suportavam até 200 alunos. Eram realmente grandes. Dando a volta no prédio vi que aproveitaram a área embaixo dos anfiteatros para instalar os laboratórios. Fui andando até que achei uma porta com a placa LABORATÓRIO DE MECÂNICA DOS FLUIDOS. Experimentei e ela estava aberta. Comecei a olhar os equipamentos, quase todos novos, mas alguns ainda do meu tempo. Quando ouvi:
– Posso ajudar?
Virei e dei de cara com ele, o Toninho! Meu coração pulou e meu cérebro me levou para 1968.
– Toninho, que surpresa! Depois todos esses anos você ainda está por aqui?!!
Ainda bem que não falei mais nada. Ele completou minha agradável surpresa:
– Só que fiz Engenharia e agora sou Professor de Laboratório de MecFlu.
Escrito em 20/09/2021

Está história tem um Final Feliz REAL!!! Viva Toninho e Viva o ensino Universal e Livre!! …….e gratuito!!!
Viva!!
Imagino a alegria. Eu que nem o conheci.me emocionei. Um vencedor, como tantos brasileiros anônimos
Eu fiquei emocionado e surpreso em encontrar o Toninho como professor responsável pelo laboratório. Um exemplo real de que quando se luta por um ideal podemos, sim, ser bem sucedidos.