CALEJADO
O dicionário nos ensina que calo é um espessamento da pele, causado pelo atrito continuado com instrumento de trabalho, sapato apertado ou com o solo. O que o dicionário não explica é que a pele forma o calo para proteger a parte debaixo da derme. A título de exemplo, pensemos num martelo. Se você usar um martelo para pregar alguns pregos e pendurar quadros, é bem capaz que você fique com bolhas nas mãos. Você para de usar o martelo, a bolha incomoda mas, depois de um tempo, desparece. Mas um marceneiro não pode se dar a esse luxo. Ele aguenta firme, sente um imenso desconforto, mas aos poucos forma-se um calo e nem se lembra mais como isso começou. Diz-se que é um marceneiro calejado, experiente.
A língua portuguesa estendeu esse conceito para a nossa vida. Dizer que uma pessoa é calejada, é dizer que tem calos formados na alma e na mente. Mas qual é o atrito que gera calos na alma? É o atrito com as nossas emoções, especialmente as doloridas. As perdas irreversíveis. De um filho, uma mãe, um pai, um irmão, um primo, uma esposa ou um marido, uma amiga. No começo a perda dói. Mas não podemos evitar. Cuidamos da bolha até que ela sare e venha outra por cima. Aos poucos vai se formando um calo, para nos proteger dos próximos atritos. E assim, tornar-nos capazes de continuar vivendo. A impressão, preocupante, é que já não sentimos esse atrito. Mas, na verdade, sentimos o atrito, mas estamos calejados. Por baixo do calo sentimos a dor. Mas aprendemos a suportar.
Senti isso quando perdi, no intervalo de uma semana, o queridíssimo primo João Carlos e minha amiga Vera Regina. Chorei pelos olhos, mas chorei muito mais por baixo do calo. Hoje minha cunhada, de 84 anos, está internada com suspeita de COVID 19. Minha terapeuta perguntou se eu precisava de uma sessão extra. Mas eu disse que não. Estou calejado.
Escrito em 27/03/2021
