UMA REFLEXÃO
São 8 da noite na Av. Paulista. Uma chuva forte, de verão, me surpreende quando começo a voltar para casa. Dou-me o direito de, simplesmente, aceitar essa chuva, sentar-me na mureta do prédio em que estava e esperar que a chuva passe. Sinto-me estranhamente envolvido com o que se passa em torno de mim enquanto espero. A chuva continua caindo forte. Os carros continuam seu caminho pela rua molhada. As pessoas continuam passando pela calçada, tentando a impossível tarefa de não se molharem. Algumas param alguns segundos, indecisas, mas decidem continuar seu caminho. Eu me sinto bem comigo mesmo por ter escolhido esperar e ficar observando a cena. Começo a prestar atenção na chuva. São pingos d’água que batem com força no chão, formando pequenos e artísticos chafarizes. Cada pingo forma seu chafariz, mas todos os pingos e seus chafarizes é que fazem com que a chuva seja chuva e molhe o chão, os carros, os prédios e as pessoas. Um pingo sozinho passaria despercebido, não formaria seu micro chafariz e teria um efeito quase nulo e apenas instantâneo; não faria a chuva que molha. Fico pensando que os carros também têm a sina do pingo d’água. Um carro sozinho não é trânsito; não precisa de ruas largas, nem regras de trânsito. A existência de um único carro tem quase nenhum efeito sobre a cidade. Mas é necessário todos os carros da cidade para fazer o trânsito caótico, justificar toda a infraestrutura viária e tanta atividade econômica relacionada. As pessoas que seguem seu caminho, no meio dos carros e sob a chuva, têm muito de pingo d’água. É preciso que duas pessoas se juntem para fazer uma dupla ou um par, são precisas muitas pessoas para fazer um grupo, são precisas centenas para fazer uma multidão e milhares para fazer uma população. A cidade precisa de todas as pessoas que nela vivem para que possa ser uma cidade; com seus problemas e suas conveniências. As pessoas são como pingos d’água: duplas ou pares, grupos ou multidões, toda a população, só existem por que as pessoas existem. Mas as pessoas têm uma grande diferença dos pingos d’água. Elas existem e são importantes na sua individualidade. Elas podem escolher se existem sozinhas ou junto com outras. Mesmo sozinhas elas podem fazer com que seus chafarizes tenham algum impacto sobre outras pessoas. Ao contrário dos pingos de chuva, as pessoas são importantes pelo que são e não por estarem incluídas num conjunto ou num contexto.
Escrito em 16/03/2008
Publicado em 19/08/2021

A força de uma só pessoa, pode ser transformadora p o bem ou p o mal, no entanto, seguindo o seu raciocínio, se faz necessário milhares de pingos p preencherem uma represa seca ou causarem uma inundação catastrófica.
Sempre enxergo o copo meio cheio.