MORREU SIDNEY POITIER

Essa notícia triste chegou no fim da manhã de hoje E com ela uma onda de sensações. Eu era fã, muito fã dele. O primeiro artista negro a receber o Oscar. Foi um pioneiro também na luta contra o racismo. Foi exemplo para tantos. Os três filmes que sempre estiveram em minhas recordações foram Ao Mestre com Carinho, Adivinhe Quem Vem Para Jantar e No Calor da Noite. Os três abordavam de forma distinta o preconceito racial. Para quem nunca assistiu vai aqui um micro resumo, sem spoiler. No primeiro ele é um professor negro que chega para dar aula numa escola de brancos problemáticos. No segundo, era namorado de uma moça branca que o convida para jantar em sua casa e apresentá-lo aos pais. No terceiro, para mim o melhor dos três, ele é um detetive que está na estação de trem de uma pequena cidade, aguardando a conexão. Nesse tempo acontece um crime na cidade e ele passa a ser suspeito, só por ser negro. Filmes imperdíveis!

Mas, como eu disse, a notícia me trouxe várias sensações. A primeira é que gosto de cinema desde a minha adolescência. Naquela época havia poucos bons cinemas no centro da cidade. Os melhores eram os de bairro. Mais ou menos perto de mim havia vários. O mais perto era o cine Climax, aonde mais eu ia, sempre que possível. Duas coisas me marcaram nesse cinema. A primeira foi reativa ao costume da época de exibir um noticiário antes de começar a sessão. Pois bem, apareci num desses noticiários. Foi assim. O jornal A Gazeta Esportiva (fundada por Cásper Líbero, idealizador da corrida de São Silvestre) organizou um torneio de futebol de salão (hoje conhecido como Futsal) e convidou o time onde eu jogava para representá-la. Eu era o goleiro e capitão. O noticiário falava sobre o torneio e fizeram uma filmagem da solenidade inaugural e, acredite, eu apareci puxando a fila do time da Gazeta… A segunda lembrança é de muito tempo depois. Eu já estava casado. Tinha dois filhos e morava na mesma calçada do Clímax. Ele tinha ficado fechado um tempo. Foi reformado e fizeram uma sessão inaugural convidando todos os vizinhos. Fui com a Heleninha, mas o filme mal começou e a plateia começou a vaiar e se levantar para embora. Eles estavam projetando um filme pornô, japonês, que seria indecente mesmo para os padrões atuais.

Mas, voltando aos cinemas de bairro. Na Av. Liberdade havia o Leblon. Muitos domingos meu tio Nelson levava a garotada para assistir aos festivais. Meus prediletos eram O Gordo e Magro, Tom & Jerry e Supermouse. Havia o cine Itapura, no Glicério. Os cines Lins e Riviera, na Av. Lins de Vasconcelos. Acho que tinha o cine Cruzeiro no Largo Ana Rosa. E tantos outros que as pessoas dessa época podem se lembrar.

Pois agora vem a outra sensação que me veio à mente. Os cinemas todos de bairro já enfrentavam uma certa decadência, que culminou, aos poucos em seu desaparecimento. Foi quando um exibidor começou a construir salas mais modernas. Era a rede Bruni. Fizeram o Cine Bruni Ópera, Rua José Getúlio. Inauguraram justamente com o filme No Calor da Noite. Logo fui assistir e fiquei encantado com as atuações do Sidney Poitier e do Rod Steiger. Pois aqui vai a ironia. Poucos dias depois o Cine Ópera, durante uma madrugada, foi destruído por um incêndio. Só ficou o anúncio do filme, na fachada que sobrou: No Calor da Noite… Nunca foi reconstruído.

 Escrito em 07/01/2022

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