NICANOR

Era um início de noite morno, bem típico do final da primavera. Eu acabara de sair do escritório e caminhava pela Av. Paulista, ao final de mais um dia de trabalho. Estava imerso em pensamentos e na penumbra causada pelo racionamento de energia elétrica. De repente, ouvi uma voz estridente, dizendo bem, alto:

– Eu já trabalhei aí! Eu já trabalhei aí…

Olhei para a direção do som e vi, emergindo das sombras, a figura de um homem barbudo e maltrapilho que, com um sorriso nos lábios e o braço esticado, insistia:

– Eu já trabalhei aí!

Segui a direção daquele indicador estendido e vi que apontava para o Conjunto Nacional com todas as suas lojas, cinemas e escritórios.

Por alguma razão, na minha cabeça veio a lembrança de uma pessoa que eu conhecera há anos e que, por coincidência, trabalhava numa empresa instalada no 10º andar do Conjunto Nacional. Chamava-se Nicanor e estava começando sua carreira como analista de cargos e salários.

Nós nos vimos pela primeira vez ao participarmos de um curso bem em moda na época: “Como Administrar Salários em Ambiente de Alta Inflação”. Passamos a trocar informações sobre o assunto, discutir idéias sobre problemas comuns e até fomos juntos a alguns jogos de futebol. Nicanor era ótima companhia, sempre alegre e fazendo piadas com tudo e de todos. Num desses encontros, veio a clássica pergunta:

– Nicanor, prazer em te ver! Como vão as coisas no trabalho?

E, pela primeira vez, percebi nele um lampejo de preocupação:

– Vai tudo bem, tudo muito bom. – Como ele gostava de falar – A empresa cresceu bastante. Tanto que foi comprada por uma multinacional que queria entrar no mercado brasileiro. Há muito trabalho para fazer! Tudo agora tem que seguir o modelo da matriz. Mas a grande dificuldade, mesmo, é que quase tudo é em Inglês…

Passarem-se alguns meses e eu liguei para ele:

– Oi, Nicanor! Que tal assistirmos à final da Copa Libertadores? Tenho certeza que nosso tricolor vai papar essa mais uma vez.

– Desculpe, não vai dar. Tenho que trabalhar esta noite toda. Lidar com formulários em Inglês é difícil e demorado. Afinal, você sabe: em Inglês eu só sei falar “hambúrguer” e “coca-cola”…

– Então, por que você não vai estudar Inglês?

– Já pensei, mas está difícil. Os cursos são caros e a empresa não ajuda. Meu salário está “meio congelado”, pois apenas o pessoal mais jovem, que sabe Inglês, tem conseguido alguma promoção. E, ainda por cima, tenho que ensinar a eles tudo sobre salários já que são novos e só conhecem as coisas por teoria.

– Nicanor, entendo sua dificuldade. Mas, insisto: procure estudar. Sua experiência e seu conhecimento, se aliados ao domínio da língua inglesa, podem representar grandes oportunidades de crescimento profissional.

Quase um ano se passou sem nos falarmos novamente. Um dia, soube de uma boa vaga no mercado e resolvi indicar o Nicanor. Liguei para a empresa e recebi uma resposta que parecia vir de um robô, lendo a inscrição de uma lápide gelada:

– Ele não trabalha mais na empresa.

– Quando ele saiu?

– Já faz algum tempo.

– Você pode me informar o endereço, um telefone para contato?

– Senhor, não estou autorizado a fornecer este tipo de informação.

Tentei localizá-lo, mas ninguém tinha a menor idéia de onde o Nicanor tinha ido parar. Com o tempo, isso acabou ficando em alguma gaveta empoeirada, com outras lembranças da vida.

Estava imerso nessas recordações, quando aquela voz me arrastou novamente para a realidade:

– Eu já trabalhei aí!…

Prestei mais atenção ao mendigo. Alguma coisa me dava a sensação de que ele estava falando a verdade. A roupa, embora remendada, não era suja e parecia já ter vivido situações melhores. Assentava-se razoavelmente bem em seu usuário, talvez só um pouquinho folgada.  O jeito de falar…

Não sei… Fiquei cismado… Poderia ser o Nicanor, afinal?

Fácil: é só perguntar para ele! Mas, nesses segundos de indecisão, e ele já havia se dissolvido na escuridão e na multidão que voltava para casa ou ia para seus cursos noturnos.

Agora, relembrando a voz e a maneira como repetia – “Eu já trabalhei aí” – tenho quase certeza de que era mesmo o Nicanor. Isto porque a sensação é que a frase repetida insistentemente não era uma queixa. Parecia mais uma piada:

– Eu já trabalhei aí! Me empurraram para a loucura corporativa… Mas eu escolhi a loucura da rua, a loucura da liberdade…

 Escrito em 18/01/2007

Publicado em 05/08/2021

Abobrinhas… de verdade…

Lá estava eu em Middletown, Ohio, num ano que não tenho certeza qual, no final dos anos 70 do século XX. Como diz o nome, uma cidade de 40 mil habitantes, no meio do caminho entre Cincinnati e Dayton. Quarenta milhas para cá, quarenta milhas para lá. Nessa cidadezinha minúscula estava sede da Armco Steel Corporation, nessa época a terceira maior siderúrgica dos Estados Unidos e, portanto uma das maiores do mundo. Eu trabalhava na Armco do Brasil e essa é a explicação da minha presença ali.

Eu gostava de ir para lá. Não que tivesse ido tantas vezes. Acho que foram três ou quatro vezes. Mas era um lugar gostoso. Ficava hospedado no Hotel      Manchester Inn, que era propriedade da Armco. Aliás, a cidade toda vivia em função da maior usina de aço e do escritório central do grupo. Ou a pessoa trabalhava na empresa ou tinha um parente próximo que trabalhava lá. Viver alguns dias numa localidade como essa trazia algumas vantagens. Uma, era que não havia a agitação das cidades maiores. Outra, era que dava para entender melhor como funciona a verdadeira vida familiar dos americanos. E quando queríamos uma compra com mais opções, ou um restaurante mais sofisticado, ou teatro, era só pegar o carro e andar 40 milhas pela rodovia I75, para cá ou para lá.

O que de mais curioso tinha a vida em Middletown era o convívio dos estrangeiros visitantes com os colegas que trabalhavam na sede da empresa. As pessoas de lá, especialmente as da Armco International, estavam habituadas a viajar pelo mundo, conhecer grandes cidades, falar com pessoas de culturas diversificadas. Enfim, tinham uma tendência para hábitos cosmopolitas. Pode-se imaginar como esses colegas se sentiam quando estavam confinados ao trabalho no escritório local. Ficavam sedentos pelo contato com os visitantes. Lembro-me de várias histórias até engraçadas de colegas que iam muito a Middletown, que tentavam se esquivar de alguns convites sociais, para descansar um pouco, mas nunca conseguiam. Sempre eram dadas dicas aos que viajavam para lá pela primeira vez, sobre como agradar o pessoal local.

Eu nunca tive problemas com os convites. Fui ao teatro, fui a churrascos, fui a restaurantes exóticos, assisti peça de teatro na escola dos filhos de um amigo. Sempre fui muito bem tratado e aproveitei cada momento. Na verdade, pensando bem, tive um pequeno contratempo num desses convites.

Um colega que visitara o Brasil há pouco tempo e que eu mal conhecera, porque trabalhava em Finanças e eu em Informática, fez questão que eu fosse jantar um dia com ele e a esposa, na casa deles. Eles eram jovens como eu, com pouco tempo de casados e sem filhos ainda. Era muito importante para eles receberem alguém do Brasil, um país expressivo no portfolio da Armco, onde teve início a operação internacional da empresa lá pelos idos de 1920. No dia combinado ele (infelizmente o tempo apagou o nome deles da minha memória) me apanhou no hotel e fomos para lá. Era uma daquelas casas de classe média do interior americano, que costumamos ver em filmes. Casa de madeira, no meio de um terreno, sem muros, com aquela caixa de correio com a bandeirola, chaminé, etc., etc.

Conversamos animadamente sobre o Brasil, a vida em Middletown, nossas famílias, nossos hábitos, nossos gostos. A esposa do meu amigo gostava de cozinhar, coisa rara para americanas já naquela época. Contou-me sobre alguns pratos que gostava de preparar. Falou de sua permanente busca por novas receitas. Perguntou se eu já havia comido as famosíssimas “Manchester Inn Spare Ribs”. Depois de elogiar muito esse prato, contou que eram uma exclusividade do Chef da cozinha do hotel e a preparação era um grande segredo. Depois de muita insistência dela o Chef concordou em lhe dar a receita, com a condição de que ela jamais a usasse no estado de Ohio. Numa deferência especial ela copiou a receita e me entregou após eu jurar que jamais a usaria nos Estados Unidos. Tenho esse papel até hoje e é um dos pratos de maior sucesso entre meus convidados para almoçar (é impossível comer no jantar…).

Mas, então, qual foi o problema? Pois é, a coisa ficou feia quando ela falou “Bem, vamos começar com um drink e alguns petiscos”. Ela veio com um copo, gelo e uma garrafa de Johnny Walker rótulo preto. Eu conhecia muito pouco de bebidas nessa época, mas o suficiente para saber que era um bom whisky. Estava tudo bem até que ela trouxe o que comer para acompanhar a bebida. “Trata-se da minha grande especialidade” disse ela. Só por causa desta receita, que troquei pela dele, é que o Chef da Manchester Inn me deu a das costeletas. E ela trouxe uma bandeja com torradas e um pote com um tipo de chutney, que parecia feito de lascas de abacate. Peguei uma torrada, um bom bocado daquele chutney e coloquei na boca. Não sei como não cuspi tudo aquilo no lindo tapete da sala de visitas. Não era abacate. Era abobrinha!

Abobrinha, na época, era a única coisa que não comia, de nenhuma forma. Minha mãe tinha passado a vida inteira tentando me fazer comer abobrinha. Ela disfarçava de todas as formas, mas eu sempre descobria antes de levar à boca. Quando casei, a Heleninha já sabia da história e nunca tentou de impingir essa comida “asquerosa”.  Era uma luta entre mim e qualquer pessoa que tentasse me fazer comer aquele abominável legume. Não sei que tipo de trauma ocasionou isso tudo. Eu mesmo não entendia a razão dessa ojeriza. Afinal, eu comia qualquer coisa: fígado, miolo, jiló e até rim; chá de boldo e óleo de fígado de bacalhau eu tirava e letra. Mas não comia abobrinha… E lá estava eu com um monte de abobrinha na boca, um copo de whisky na mão e o casal olhando atentamente para ver como eu avaliava aquela sua obra prima. Já eu, considerava se seria mais fácil simular um ataque cardíaco, um engasgamento fulminante ou simplesmente devolver o bocado e dizer que eu tinha alergia por abobrinha. Sei que não fiz nada disso. Tomei um longo gole de whisky para empurrar tudo aquilo goela abaixo, esperando que o gosto do malte e o álcool sobrepujassem aquele repugnante gosto de abobrinha. O primeiro bocado desceu. Eu respirei aliviado até olhar para autora do “crime” que olhava fixamente para mim e perguntou “E então?”. Representando o heroísmo de 90 milhões de pessoas que moravam no Brasil naquela época eu respondi “Maravilhoso!”. E poucas vezes me arrependi tanto por ter sido tão bem educado. Ela empurrou o pote de abobrinha para mais perto de mim e disse “Vá em frente. Sirva-s à vontade…”. Só me lembro, daí por diante, é que descobri como comer abobrinha ao “molho”, muito molho, de whisky. Não me recordo o que foi servido no jantar, nem se houve sobremesa. Tudo que me recordo daquela noite vai só até o momento do pesadelo da abobrinha.

Hoje tudo isso me parece muito engraçado e inexplicável. Pois agora não só como e aprecio muito a abobrinha e todas as receitas em que ela entra, como também preparo algumas versões de pratos com ela. Pena que não me lembro como era aquele chutney de abobrinha, que deveria ter sido tão especial.

Escrito e m26 /09/2008

Publicado em 02/08/2021