IRMÃOS

Eu queria ter escrito este texto ontem, mas acho não teria conseguido ir até o fim. Ontem, quinta-feira, perdi um irmão. Não de sangue, mas de alma.

Explico. Nunca tive irmãos de verdade. Fui o quinto filho, primeiro homem depois de quatro irmãs. Meu pai morreu pouco depois de eu fazer um ano. Nunca soube se ele tinha planos para mais um filho. O fato é que eu fui o fim da fila. Como diziam alguns amigos das minhas irmãs eu era “bendito és tu entre as mulheres…”. Mas eu tive três irmãos de alma.

O primeiro foi, e é, meu primo Nelson (Junior, na família). Morávamos na mesma calçada e por isso, estávamos sempre juntos. Como dois verdadeiros irmãos, brigávamos muito, mas sempre acabávamos por ficar juntos. Junto com a maturidade ficamos bons amigos. Ele se mudou para Curitiba e faz anos que não nos vemos.

O segundo foi o Márcio, filho da minha adorada madrinha Wilma. Eles moravam em Santos e minha madrinha sempre me levava para passar as férias na casa dela. Às vezes eu ficava os três meses das férias. Com isso passei a me enturmar com a turma dele e da irmã Mirian. Eu até flertava com as irmãs das namoradas dele, ou com as amigas da mesma rua. Depois que ele começou a trabalhar eu continuei indo e ficando com a turma dele. Quando ele entrou na faculdade de Administração e trabalhava um Rudge Ramos ficou um tempo morando em minha casa. Por tudo isso, sempre considerei Santos como minha segunda cidade. Cada um acabou tomando seu caminho. Só voltei a intensificar meu contato com ele quando teve um câncer e sua esposa Zildinha também teve a mesma doença e acabou partindo antes dele. Sempre que eu estava em Santos passava as tardes com ele, conversando e tomando sorvete, que ele adorava. Infelizmente ele também partiu, há muito tempo.

E tive o João Carlos, filho de um irmão do meu pai, tio Carlos (“tio Careca”). No começo morávamos bem perto. Ele morava na mesma casa que minha avó Cecília e nos víamos várias vezes por semana. Depois ele se mudou para o Jabaquara, muito próximo da Igreja de São Judas. Numa rua que nem era calçada e do outro lado da rua era uma chácara. Já não nos víamos tanto, mas a distância não afetou nossa ligação aprendemos a usar o bonde para nos visitarmos. E assim a vida ia seguindo, com visitas e aniversários. Até que eu comecei a jogar futebol de salão toda sexta-feira à noite, no Jardim da Aclimação. Ele veio um dia ver e gostou do ambiente. Passou a vir às sextas-feiras, sempre que possível. Foi quando minha turma pôs nele o apelido de Caravelle. Porque ele vinha do Jabaquara e dizia: “Vim pousar na casa do meu primo”. Passamos tantos fins de semana juntos, que nem sei quantos. No sábado e domingo jogávamos futebol, ping-pong, pebolim; e ficávamos de papo com a turma do larguinho (Praça N.S. da Conceição). E fazíamos pequenas travessuras. Nossa predileta era à noite. Ficávamos no escurinho do quarto ouvindo programas de terror. Aí já não conseguíamos dormir e ficávamos conversando, até que minha mãe vinha acabar com a brincadeira.

Depois que casamos ficamos um pouco distantes, mas de vez em quando ainda íamos ver um bom jogo do São Paulo. Por coincidência, ambos fomos trabalhar na área de RH. Encontramo-nos algumas vezes em eventos profissionais. Muito mais tarde, quando ele estava há algum desempregado, aceitou um cargo de RH no Projeto Jarí, uma mega fábrica de celulose, do milionário americano Daniel Ludwig, no interior do Pará. Era o final dos anos 1970. Desde então só estive com ele em duas ocasiões. Quando a mãe dele, minha tia Vivinha, morreu. E há alguns, quando veio passar o fim de ano em Santos, com sua irmã Vera Lucia. Fui passar o dia com eles e conheci sua esposa Leila e seu filho paraense Eurico. Desde então estreitamos nossos laços, pela internet. Trocávamos, mensagens pelo whatsapp, Facebook e instagram. Dia de jogo do São Paulo, torcíamos juntos. Ele lá e eu cá, ficávamos trocando mensagens o tempo todo, comentando os principais lances. Parecia que estávamos sentados no mesmo sofá. No domingo, dia 13 de março, ele completou 73 anos. Fizemos uma chamada de vídeo. Ele não estava se sentindo bem, com dor de garganta e febre. Achou que era reação da vacina, que havia tomado poucos dias antes. Mas não era, infelizmente. O coronavirus chegou antes da vacina… Foi internado no dia 17 e faleceu no dia 18 com COVID-19. O que me consola é que todas as reações a sua partida, que li, ou senti, foram de elogio.

Esta foi a forma que escolhi para homenagear esse primo que eu chamava de irmão/primo. Vai em paz João e até um dia. Você deixou marcas importantes por onde passou.

Escrito em 19/03/2021

8 respostas para “IRMÃOS

  1. Ahhh como não se emocionar lendo esse texto. Você e suas irmãs foram muito especiais durante os anos finais dos meus pais. Quanto amor e carinho vocês tiveram com eles e conosco (eu, meus irmãos, minha avó …) Tenho certeza que meu pai também tinha você como irmão e adorou passar as tardes conversando e tomando sorvete. Muito obrigada sempre, por tudo.

    1. Oi, Gra, obrigado. Eles merecerem toda a nossa atenção. Minha irmã, Maria Rita, era muito amiga da sua avó. Seu pai e sua mãe eram de uma convivência deliciosa. Beijos.

    2. Oi, Gra, obrigado. minha irmã, Maria Rita, era muito amiga da sua avó. E a companhia do seu e da sua mãe era muito agradável.

  2. Primo querido, só hoje tive coragem de ler,ele te amava como um irmão.
    Eu e Eurico Neto também te amamos,obrigada por tudo.

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