INVEJA BOBA

Chamo de inveja boba aquela inveja positiva (quando queremos ter alguma qualidade parecida com a pessoa invejada) e boba por que não sabemos o sentimento da pessoa invejada. É o que vou contar a seguir.

No início dos anos 1960 fui ao casamento de uma prima, em Pindamonhangaba. Não pergunte qual prima; é pedir demais para minha memória. Bem, o casamento foi comemorado com uma festa-baile no Clube Literário. Eu estava por volta dos meus catorze anos e só havia uma menina na mesma faixa etária. Era a Vera Regina. Logo fizemos amizade e dançamos um pouco. Não sei se era parente pelo lado do meu pai ou se eram amigos antigos da família. O fato é que os pais dela, Cloé e Bruno, estavam lá. No dia seguinte, ao nos despedirmos para a volta a São Paulo, os pais me convidaram para ir à casa deles, na rua Albion, na Lapa. Depois de um tempo peguei um ônibus e fui. Foi o começo de uma gostosa amizade. Não, nunca rolou um namoro. Era pura amizade. Tínhamos intermináveis conversas e eu admirava muito o jeito dela falar. Quando fez 15 anos o pai editou um livro com as poesias dela. Intitulado “Minha Lira aos Quinze Anos!”. Fiquei maravilhado! Como eu gostaria de escrever poesias assim (aqui aparece minha Inveja Boba). Tenho esse livro até hoje, com dedicatória para minha mãe, datada de 1964. E nas minhas inúmeras mudanças sempre me lembro da Vera Regina, ao embalar meus livros.

Um pouco mais tarde ela começou a namorar o Douglas, com quem viria se casar. Eu comecei a fazer engenharia em São Bernardo do Campo. Assim cada um fez seu caminho. Passaram-se mais de trinta anos. Há cerca de uns dez anos fui ao coquetel de lançamento do livro do meu primo Armando. E adivinha quem aparece por lá? Isso mesmo. A Vera Regina e o Douglas! Foi um encontro como se tivéssemos nos despedindo no dia anterior. Como toda boa amizade. A conversa estava bem animada, quando me lembrei do livro e disse:

– Vera, ainda tenho seu livro.

E ela respondeu:

– Paulo, nem me fale desse livro… Foi ideia do meu pai, para me fazer uma surpresa. Mas eu detestei ter minhas poesias divulgadas. Era como expor meu intimo ao mundo. Nem posso ouvir falar sobre ele.

Fiquei muito surpreso e encerrei o assunto por ali mesmo. Esta é minha Inveja Boba. Ter inveja de alguma qualidade de uma pessoa sem saber se ela está satisfeita com isso. Realmente, ainda tenho o livro, que peguei para arrumar minha estante depois da minha última mudança. Talvez um dia desses eu publique uma poesia dela. Lembrei desta história e senti saudade da Vera Regina.

Escrito em 25/03/2021

5 respostas para “INVEJA BOBA

  1. Minha inveja “boa” sempre foi querer buscar o benchmark dos meus superiores!

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