DOCES TARDES DE DOMINGO

Entre 1965 e 1968 a antiga TV Record levou ao ar, nas tardes de domingo, o programa Jovem Guarda. Foi um desses tiros no escuro que acabam por matar o elefante. Criado às pressas para substituir o futebol, cuja transmissão havia sido proibida pela Federação Paulista de Futebol. Tornou-se a expressão de uma nova tendência da música e do comportamento dos jovens. Foram convidados para apresentar: Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Cely Campello. A Cely não aceitou porque tinha decidido casar e abandonar a carreira. Fiquei muito triste porque era “gamado” nela, como se dizia na época. Entrou a Vanderleia, apelidada de “Ternurinha”. Mas as doces lembranças vão muito além do programa. Foi uma época muito intensa da minha vida. Entre outras coisas, entrei no curso de Engenharia em 1966. Mas o que acontecia em torno do programa marcou a minha vida e a de muita gente.

Eu assistia ao programa na casa do tio Armando e da tia Eunice. Só há pouco tempo descobri que ele não era meu tio e, sim, primo do meu avô Bindo. Portanto meu primo de terceiro grau. Eles tinham três filhas que, afinal eram minhas primas mesmo. Maria Inês, Maria Lucia e Maria Cecília, por ordem de nascimento. Não recordo como nem porque passamos a assistir a Jovem Guarda na casa da tia Eunice. Íamos eu, meu primo Nelson, meu quase primo Carlos Antonio e um agregado da turma, o José Antonio. Sentávamos distribuídos entre o sofá e o chão. Tio Armando numa poltrona e a tia Eunice na outra. Ela participava ativamente da plateia e ele ficava alheio, lendo o Estadão. Nos intervalos do programa invariavelmente a Tia Eunice servia um cafezinho na copa, muitas das vezes acompanhado por um bolo. Durante os três anos de vida do programa era essa a rotina de todos. Geralmente depois do programa ficávamos até a noite, jogando jogos de carta. Uma vez a Maria Inês estava se preparando para fazer um programa de intercâmbio nos Estados Unidos e a tia Eunice foi com ela ao Juizado de Menores para autorizar a viagem. Na volta ela falou para prestarmos atenção no próximo programa porque elas encontraram, no juizado, uma senhora autorizando a filha, menor, a se apresentar. O nome dela era Silvinha. Quem é da época há de se lembrar que a Silvinha fez sucesso e acabou se casando com o Eduardo Araújo, outro cantor da Jovem Guarda. Dessa convivência só resultou um namoro. Do Nelson com a Maria Lucia e acabaram se casando mais tarde, quando ele já estava em Portugal fazendo curso de Engenharia. Maria Inês, por causa do intercâmbio, conheceu um rapaz e começaram a namorar. Estive com ele algumas vezes na casa do tio Armando, jantando e “fazendo sala”. Depois de um tempo ele ganhou uma bolsa em Harvard e propôs a ela que se casassem e fossem juntos. Ela não aceitou e ele foi sozinho. Quando voltou ele se tornou um dos principais jornalistas de Economia. Encontrei com ele algumas vezes e sempre nos tratávamos como se fossemos primos…

Um parágrafo especial para o tio Armando. Ele foi muito especial na minha vida. Era um homem com formação diferenciada para a época. Formado em Direito e Economia. De uma sabedoria e pragmatismo invejáveis. Pela casa em que moravam e a escola em que as meninas estudavam, diria que era da classe média alta. Mas nunca teve carro e ia trabalhar de ônibus. Nunca soube onde ele trabalhava. Ele não falava. A única coisa que me contou, ao falar sobre a vaidade, foi que redigiu todos os discursos de um deputado na Constituinte de 1946. Depois de promulgada a Constituição, esse deputado, que ele se recusou a dizer o nome, lhe enviou um livro com o título “Discursos proferidos pelo Deputado xxx durante a Constituinte de 1946”. O Deputado teve o desplante de escrever uma dedicatória para ele sem sequer mencionar a autoria dos discursos. Como eu disse, ele era sábio. Na época mais quente da guerra fria, um dia ele me disse: “Você só pode escolher se vai ser jantado com molho russo ou molho americano”. E quando eu estava prestes a me formar, um dia ele me deu conselho que me arrependo de não ter seguido: “Entre no Rotary ou no Lions, ou algo assim. Porque para falar mal de você qualquer um fala. Mas para falar bem tem que ser você mesmo”. Voltando as tardes de domingo. Naquela época não era raro ficarmos sem energia elétrica. Quando isso acontecia na hora do programa, ele dobrava o jornal e dizia que era o melhor que podia acontecer, pois agora podíamos conversar. E conversava com aqueles jovens sobre o que lera no jornal. Tenho certeza que todos bebíamos da sua erudição.

Que saudade das doces tardes de domingo…

Escrito em 24/08/2021

2 respostas para “DOCES TARDES DE DOMINGO

  1. Nossa, Paulo, que maravha! Doces lembranças. Fico emocionada por você se referir aos meus pais com tanto carinho. Obrigada, um beijo carinhoso!

    1. Minha querida prima. Esse carinho é muito autêntico. Uma retribuição ao carinho que sempre tiveram por mim. Realmente me sentia bem na sua casa. Beijão.

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