ABRINDO O BAÚ

Há muitos e muitos anos (e põe ano nisso…) eu tinha como hobby a fotografia. Escrever era só um complemento. Resolvi fazer um pequeno texto para algumas fotos que achava terem um conteúdo significativo. Pensei em fazer um pequeno livro com essas fotos e esses textos. O título seria “Mensagem é meio e imagem”. Nunca passei dos manuscritos. Achei as folhas no baú em que andei mexendo outro dia. Decidi publicar na forma em que estão. Mas estou apanhando um pouco da tecnologia. Então vai aos poucos. É um material inédito. Até hoje só eu e a Fabiana, minha psicanalista, tínhamos visto este material. Então, prepare-se para ver um pouco da minha alma.

Publicado em 15/05/2021

 Escrito por volta de 1987.

ABRINDO O BAÚ

Há muitos e muitos anos (e põe ano nisso…) eu tinha como hobby a fotografia. Escrever era só um complemento. Resolvi fazer um pequeno texto para algumas fotos que achava terem um conteúdo significativo. Pensei em fazer um pequeno livro com essas fotos e esses textos. O título seria “Mensagem é meio e imagem”. Nunca passei dos manuscritos. Achei as folhas no baú em que andei mexendo outro dia. Decidi publicar na forma em que estão. Mas estou apanhando um pouco da tecnologia. Então vai aos poucos. É um material inédito. Até hoje só eu e a Fabiana, minha psicanalista, tínhamos visto este material. Então, prepare-se para ver um pouco da minha alma.

Publicado em 15/05/2021

Título

Escrito por volta de 1987

ESSÊNCIA

Resultado de imagem para Moluscos

Depois de 40 anos enclausurado, o molusco resolveu olhar para fora e abriu sua concha.

Abriu, olhou e se espantou

E o peixe viu e engoliu

E o pescador jogou a rede e pegou

E o freguês escolheu e comprou

E a mulher preparou e comeu

E a natureza, alheia a tudo isso, seu ciclo completou.

E agora, nas profundezas do imenso mar, um novo molusco começa a construir sua concha

Com certeza, este novo molusco não vai esperar tanto tempo para abrir sua concha.

Algo, em suas células, diz que, do lado de fora da concha, há um mundo. Diferente surpreendente e perigoso. Mas que vale a pena conhecer, pois os riscos, por maiores que sejam, não podem alterar sua essência!

Escrito em20/11/2005

Publicado em 13/05/2021

AVÔ PATERNO II

Como prometi no post anterior, aqui vai o trecho que copiei do diário do meu avô Firmino, conforme sugestão da minha avó Cecília.

“Mudei-me para São Paulo a fim de seguir o curso de Farmácia.

Tempo feliz e cheio de tristezas. Em 30 de março do mesmo ano, passei por uma fortíssima prova que muito tem me agoniado e de cuja dor profunda nasceu outra fase da minha vida na qual encontrarei acerrados abrolhos. A vida do homem é uma mudança pertinaz que só termina com a morte. O amor sincero que nasce da simpatia e transforma-se em veneração abranda os sofrimentos do homem, quando o encontramos em outrem mas, quando ele existe em nós e, por qualquer circunstância, falta no ente amado, é o agente mais teimoso e cruo que abriga a metamorfose da vida sempre para o mal. Os sofrimentos nunca se abrandam e essa veneração impossível, torna-se em desraiga-la do coração. Viver, amar, venerar, sofrer e morrer eis todo o quadro que o inexorável destino entregou-me como perfeita representação da minha vida. Nunca esqueçais sua palavra que é sagrada e cuja falta dela nos fará um cadáver moral. Calai teu parecer para não servires de galhofa ao mundo. Ocultai teu amor não deixando jamais que ele se expanda completo porque só vos trará acerbas dores, que são frutos das alegrias e júbilos de quem as causa. Fiel ao teu afeto, primeiro a morte te será suportável pois  imagem idolatrada sempre estará presente, porém, muda como uma estátua e fria como a morte. Assim podes não encontrar no anjo dileto essa afeição sincera, a angústia que daí provém será minorada em teu espírito pelo contrabalanço da sinceridade e constância. Amai esse anjo……., e morrei por ele.

Firmino Tamandaré de Toledo Jr. 31-01-1902”

Desse amor de Firmino e …… (Cecília) nasceu meu lado paterno da família.

Publicado em 12/05/2021

AVÔ PATERNO I

Quando eu era um jovenzinho adorava visitar minha avó paterna. Vovó Cecília era muito meiga e me tratava com muito carinho. Além de fazer meu prato predileto, cebolas recheadas, contava histórias da família. Do meu avô Firmino e o grande amor que os uniu, do meu pai, dos meus tios. Pelo que ela me contou, herdei do meu avô o gosto pela cozinha e a habilidade para escrever. Uma vez ela me mostrou com caderno com coisas escritas por ele. Fiquei tão encantado que copiei dois textos desse caderno. Ela me contava que ele era apaixonado por ela mas achava que ela não era tão apaixonada por ele, o que não era verdade. Copiei dois textos que falam sobre esse amor. Hoje publico uma poesia e, no próximo post, transcreverei um trecho do diário dele.

(adaptei a gramática para as regras atuais)

TEU RETRATO

Porte airoso qual princesa encantadora,

Olhar fascinante que me ilumina a vida

Anjo, se é que d’alguém és querida,

És mais por este que teu ser adora.

Mirando tua imagem pedi piedade

Para mim, que vivo em pleno desespero;

De ti bondosa, santa, sempre o espero

Porém, na mais dorida e justa ansiedade.

Estático, triste com teu retrato à mão

Quis mitigar a intensa saudade, em vão,

E então vendo-te linda eu delirando,

Tive ímpetos e terríveis desejos

De dar-te uma multidão de beijos,

Oh! meu amor por quem vivo suspirando.

Firmino Tamandaré de Toledo Jr.

Março de 1901, Ipanema

Publicado em 11/05/2021

ARQUEOLOGIA DE TEXTOS

Há alguns dias minha irmã Maria Sylvia, mexendo nos seus guardados, encontrou uma poesia que escrevi em seu álbum. Tinha esquecido dessas quadrinhas que eu julgava ser minha primeira e única incursão no campo poético. Achei que tinha uma cópia e fui procurar no meu próprio baú. Não achei o original, mas achei uma quantidade de textos que escrevi ao longo da minha vida. Fiquei agradavelmente surpreso com alguns textos que me trouxeram doces recordações. Outros me emocionaram profundamente. Aos poucos vou publicar esses textos. Começo pela primeira poesia, que escrevi aos quinze anos.  

Felicidade

PC Toledo Jr

Se conheceres quem fez o firmamento…

Se conheceres quem fez o mar…

Poderás então procurar, no pensamento

A mulher ideal para amar…

        …e então pedirás felicidade.

Quando conheceres  mulher ideal para amar…

Quando conheceres a companhia querida…

Então poderás, para sempre, contar

Com incentivo na luta aguerrida…

        …e ainda pedirás felicidade.

Quando tiveres incentivo na luta aguerrida…

Quando conheceres o teu par…

Poderás então superar a batalha da vida

E afinal cansado parar…

        e então compreenderás o quanto foste feliz!…

A Maria Sylvia uma lembrança do irmão

Paulo Celso de Toledo Jr.

12-10-62

Publicado em 10/05/2021

EM UM INSTANTE

Estava almoçando quando ouvi uma forte brecada, seguido de um barulho de trombada. Fui até a janela e vi a cena. Uma camionete com o pisca alerta ligado, uma moto no chão e o motoqueiro caído no asfalto. Ele tentava se levantar mas foi deitado por aquele que parecia ser o motorista do furgãozinho. Como aqui há um tráfego intenso de motociclistas, logo já havia uma meia dúzia deles em torno do acidentado (eles são muito solidários), mantendo-o deitado.  O trânsito ficou totalmente travado por que era a saída do minhocão em direção à Água Branca. Depois de uns dez minutos chegou o resgate do Corpo de Bombeiros. Não dava para ver direito, mas parece que o imobilizaram antes de o colocarem na maca para colocá-lo na ambulância. A CET chegou e desviou o transito. Em menos de uma hora tudo estava normalizado.

Será? Fiquei pensando quanto esse acidente afetaria a vida do motociclista. Ele poderia estar trabalhando, como a maioria dos motociclistas. Então, mesmo sem gravidade, ele teria que ficar parado alguns dias, esperando os ferimentos serem curados e a moto ser consertada. Se é que ele tivesse dinheiro para o conserto. Se fosse empregado, perderia dias de trabalho. Menos, ou nenhuma renda Se fosse casado, faltaria dinheiro em casa. Se tivesse filhos, talvez ficasse uns dias sem se alimentar para dar comida aos filhos. Em um instante sua vida pode ter mudado drasticamente.

E o motorista da camionete, como iria seguir sua vida? Certamente estava trabalhando. Como ele estava socorrendo o motociclista, fiquei com a sensação de que não era culpado pelo acidente. Mas certamente foi afetado pelo acontecido. Não é nada agradável atingir uma moto e ver o motociclista ser arremessado ao chão. Pelo menos esse dia seria perdido para o trabalho. Será que ele teria como ajudar no conserto da moto? Ao menos psicologicamente, sua produtividade e seu sono seriam impactados negativamente por uns dias.

Então fiquei pensando em como, num instante, sem qualquer aviso, coisas acontecem coisas que mudam nossas vidas. Um acidente, uma notícia, um diagnóstico. O nascimento de um filho ou uma neta, o sucesso quando tudo parecia perdido, um prêmio inesperado. Todos tivemos instantes em que nossa vida mudou, sem que esperássemos. Por isso, temos não só viver cada dia como se não houvesse o dia seguinte, mas cada instante como se não houvesse o próximo.

Escrito em 06/05/2021

POR EMPRÉSTIMO Nº3

Mais uma vez, sem inspiração, lanço mão de texto de autor que eu gosto. Tenho um álbum duplo dele, com ele mesmo declamando. Maravilhoso! Infelizmente a agulha do meu toca-discos foi danificada na mudança e ainda não tive coragem de ir até a rua Santa Ifigênia para comprar outra. Então, posto o texto que puxei da internet. Espero que aprecie.

Amor e Seu Tempo

Carlos Drummond de Andrade

Amor é privilégio de maduros
Estendidos na mais estreita cama,
Que se torna a mais larga e mais relvosa,
Roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
O prêmio subterrâneo e coruscante,
Leitura de relâmpago cifrado,
Que, decifrado, nada mais existe

Valendo a pena e o preço do terrestre,
Salvo o minuto de ouro no relógio
Minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
Depois de se arquivar toda a ciência
Herdada, ouvida. Amor começa tarde

Publicado em 03/05/2021