Pode parecer um título estranho, mas quero dizer que vou contar duas histórias em um único blog. E, ao final, você haverá de convir que era difícil contar a segunda sem contar a primeira. Como toda a inspiração ela veio inesperadamente quando conversava com minha prima Maria Cristina. Então, como manda o bom senso, vamos começar pela primeira.
Quando eu estava lá pelos meus dezessete anos fui passar o mês de janeiro na praia do José Menino, em Santos. A convite da família de um grande amigo de juventude. Já estava na praia quando presenciei uma cena inusitada. Um homem carregava uma senhora, que usava aqueles aparelhos para paralisia, com bota e armação de ferro. Junto vinham uma garota e um rapaz que regulavam de idade comigo. Via-se que era uma família. Estavam hospedados no mesmo prédio e acabamos naturalmente fazendo amizade. A senhora era dona Rosa Helena, o marido, seu Roque. Os filhos, Silvia Helena e João Carlos. Todo dia a cena se repetia. Seu Roque colocava dona Rosa Helena numa cadeira e, de vez em quando, a levava até a água. Aquela foi uma amizade maravilhosa, que subiu a serra e perdurou por muito tempo. Era uma família admirável, que lidava com muita naturalidade com as limitações da mãe. Eles moravam na divisa com São Caetano, perto de onde é hoje a favela de Heliópolis. Eu adorava ir lá e, muitas vezes ficar conversando com dona Rosa Helena. Numa dessas conversas ela me contou que estava noiva do seu Roque, quando teve poliomielite. Ainda no hospital ela liberou seu Roque do compromisso, mas ele disse que a aceitava como ela era. Ele construiu a casa em que moravam, com toda acessibilidade necessária para ela, numa época em que nem se falava disso.
Naturalmente fui a muitas festas lá. Como ainda éramos menores de idade a irmã mais velha do meu amigo é que nos levava e trazia numa perua Vemaguete. Você pode imaginar como eram maravilhosas essas festas. A dona Rosa Helena fazia um bolo como nunca vi igual. Era um bolo gelado, coberto com suspiro assado. Na primeira vez que vi esse bolo fiquei intrigado: “Dona Rosa, como a senhora consegue assar o suspiro sem derreter o bolo?”. “Muito simples – ela respondeu – eu faço o bolo, cubro com o suspiro e levo rapidamente ao forno bem quente. O suspiro doura e protege o bolo do calor. Aí, volta para geladeira”. E agora vem a história, de fato. Estávamos voltando de uma dessas festas quando a irmã do meu amigo comentou: “Como estava bom o strogonoff!” Eu fiquei curioso. “Mas não vi o strogonoff!” E ela falou: “Estava muito bom mesmo. Com arroz branco e batata palha”. Caí das nuvens. Eu tinha visto esse prato, mas achei uma carne estranha e não peguei… Naquela época esse prato era novidade e xodó de todos os jantares. Eu tinha loucura para experimentar e tinha perdido a oportunidade. Nesse aprendi uma lição: nunca dizer se gosto ou não de alguma coisa sem experimentar. Aliás, foi assim que aprendi a gostar de sashimi…
Escrito em 18/04/2021
