7 – Demorei um pouco para saber o nome dela. Sabia que era minha vizinha de andar porque, enquanto eu estava no quarto, ouvia-a chamando as cuidadoras o tempo todo. E elas, sabendo como ela era, respondiam; “Já vou, Dê”. Via de regra ela pedia que a tirassem de lá. Depois de algum tempo uma cuidadora a levava para o térreo. Era uma operação meio delicada. A cuidadora dava as duas mãos para ela e ia caminhando de costas. Ela dava passinhos miúdos e ia meio que sendo puxada. No térreo a colocavam em algum assento disponível. Numa dessas ela sentou ao meu lado. Conversamos bastante, assuntos diversos, que não registrei. Pareceu-me lúcida, mas não conseguia alimentar-se sozinha; alguma cuidadora tinha que dar-lhe a comida na boca. Durante nossa conversa contou que está aqui há três anos. Depois a Marly me confirmou. A Marly me contou que ela tem um namorado, no 3º andar. Já os vi juntos algumas vezes e já vi esse senhor passando pela minha porta para visitá-la. Na véspera do Dia dos Namorados, calhou que eu almocei com esse senhor (cujo nome esqueci de perguntar). Ele tinha um pacote para dar de presente para a Dê, mas disse que só ela achava que eram namorados… Outra vez não tive coragem de perguntar por que morava no Residencial. Será que um dia terei? Acho que os motivos não devem ser nada agradáveis…
8 – Alguns dos/das hóspedes têm manias diversas como sentar sempre no mesmo lugar, pegar papel toalha para usar como guardanapo etc. Hoje almocei com uma senhorinha que está sempre em companhia de outra. Acho que elas moram no mesmo quarto, mas pouco se falam. Enquanto esperávamos o prato, ela ficou tirando sujeira imaginária da toalha. Pegava alguma fagulha inexistente, com as pontas dos dedos e “jogava no chão”. Ou varria, com a mão aberta, a suposta sujeira, também para o chão. Compartilhei a mesa com elas várias vezes e era sempre o mesmo ritual.
9 – Hoje jantei com a Serafina. Baiana conversadeira, de Salvador (isso é pleonasmo?…rs.). Contou que tem cinco filhos, cinco netos e três bisnetos. Contou muitas coisas da vida dela, mas foram tantas coisas que não consegui guardar. Num determinado momento ela usou o termo “frege” para significar confusão. Cai na gargalhada e perguntou do que eu estava rindo. Respondi:
– Porque minha avó materna usava essa mesma expressão e eu nunca mais havia ouvido alguém falar “frege”.
Ela me disse que essa expressão é muito usada na Bahia. Conversamos sobre Salvador, as comidas baianas, os locais de turismo e eu relembrei a primeira vez que fui para lá a passeio e outras tantas vezes a trabalho. Acho que ambos gostamos das reminiscências. Foi a primeira pessoa com quem consegui estabelecer um diálogo mais longo. Ela tem mais problemas de mobilidade e um pouco de limitação cognitiva. Sentei com ela à mesa várias vezes, mas nem sempre conversamos tanto como essa primeira vez.
Escrito em 03 e 04/2023
