Ele mal podia esperar que os ponteiros do relógio formassem uma reta indicando as 6 da tarde. Era sexta-feira e ele havia aprendido rapidinho como são as happy hours das sextas-feiras em São Paulo. Desde que chegara, já há seis meses, do Rio Grande do Norte para estudar medicina na UNIFESP, ele aprendera a esperar e valorizar esse momento. Já saia de manhã do apartamento-república na R. Dr. Bacelar pronto para só voltar para lá na madrugado do sábado. Logo se enturmou com outros “estudantes-migrantes”, especialmente os do Norte/Nordeste que se apoiavam muito na ambientação à essa cidade que tanto acolhe como ameaça. O lugar que ele mais gostava de frequentar era o Genuíno, em frente à ESPM, na Vila Mariana. Ali ele passava horas conversando, comendo batata frita e tomando chopp. Enrolando até que a batata ficasse murcha e o chopp, choco. Era preciso esticar a grana, que vinha – contadissima – de Caicó. Valia a pena, pois o papo era imperdível e a turma muito alegre. Mas, nesse dia ia ser diferente. A “comunidade potiguar” ia se reunir no Genial, da Vila Madalena. Ele achou interessante variar de Mariana para Madalena e conhecer mais novos amigos e amigas.
Quando chegaram a conversa e o chopp já corriam soltos. Começaram as apresentações e ele não aguentava esperar a vez de se apresentar àquela loirinha miúda, sentada do outro lado da mesa e com a única cadeira vazia ao seu lado. Finalmente chegou a hora. Ela estendeu a mão e falou:
– Prazer. Meu nome é Wanderlise, mas os amigos me chamam de Wan.
Ele ficou indeciso. Tão indeciso que nem percebeu que a conversa parou e todos olhavam para eles. Com medo que pensasse que estava brincando, se apresentou:
– O prazer é meu… É… quer dizer… desculpe… isto é… meu nome é Wanderlei, mas os amigos me chamam de Wan…
Foi uma gargalhada geral. A turma já esperava por esse momento, pois, conhecendo os dois, sabiam que isso ia acontecer. Eles ficaram se olhando meio constrangidos enquanto as risadas iam arrefecendo. Olharam-se detida e profundamente e uma centelha invisível percorreu o éter entre os dois olhos. Ele logo se recuperou e tomou a iniciativa:
– Estudo Medicina na UNIFESP. Mora na Vila Mariana, desde que cheguei de Caicó há seis meses.
Aquela centelha não lhes permitiu perceber que a conversa estava suspensa outra vez. Agora foi a vez de ela hesitar:
– Faço Arquitetura na FAU. Moro aqui mesmo na Vila Madalena há um ano, desde que cheguei… bem… de… Caicó…
Nova explosão de risadas brindou a formação, planejada, do casal Wan-Wan. Além das coincidências de nome e origem, logo eles foram descobrindo uma longa série de interesses comuns. Passaram a se encontrar para, juntos, explorar tudo que a cidade lhes proporcionava em termos de cultura, lazer e diversão. Era um tal de passear nos parques: Ibirapuera, Aclimação, Burle Marx, Villa Lobos, Jardim da Luz e até na USP. Iam ao cinema, teatro, exposições, shows, museus. Carne de sol (“importada” de Caicó, a melhor que existe) com forró no Andrade, leitão pururuca, pizza no Castelões, cantinas na 13 de Maio. Tudo eles fizeram juntos durante os meses seguintes. Até que a Wan tomou uma decisão muito séria.
Ela morava sozinha, recatadíssima e solteiríssima, num pequeno apartamento na Vila Madalena. Desde que chegara a São Paulo vinha se protegendo da cidade que ameaça. Em seu apê só entrava homem que fosse para consertar alguma coisa e seu irmão, quando a vinha visitar. Era invicta de outras visitas masculinas. Mas achou que já era tempo de convidar o Wan para conhecer seu pedaço. Estava segura de que seu conterrâneo ia saber se comportar. Afinal, nesses meses em que haviam convivido ele nunca havia ultrapassado os limites invisíveis e desconhecidos que ela se havia proposto. Um dia, enquanto aguardavam para assistir ao filme “O segredo dos seus olhos”, ela tomou coragem e falou:
– Wan, você gostaria de jantar no meu apartamento no próximo sábado?
Pronto! Os dados haviam sido lançados. Ele, sem pensar duas vezes, aceitou:
– Wan, vai ser ótimo! Obrigado pelo convite. Qual seu endereço? E a que horas devo chegar?
Ela deu as informações, o filme começou e o coração deles já batia mais forte. O filme terminou, era domingo à noite e cada um foi para seu lado, depois de um beijo já bem menos formal que até então. Mas a semana foi de preparativos e expectativas. Wan resolveu caprichar no seu gosto pela cozinha e preparar um risoto de carne de sol na moranga, regado a manteiga de garrafa. Como sobremesa, queijo de coalho frito acompanhado de mel de engenho. Iam matar muita saudade do Rio Grande de Norte. Wan, até comprou uma roupa nova para impressionar a moça.
Já eram as 20 horas do sábado, o jantar estava praticamente pronto, mas nada do Wan. Logo o telefone dela tocou:
– Wan, sou eu, o Wan. Desculpe, estou um pouco atrasado, mas me perdi. Você pode ajudar?
– Ora, não se preocupe. A Vila Madalena é assim mesmo. É muito fácil se perder. Diga-me onde você está e eu te digo como chegar.
– Ah, sim… Estou aqui na Rua Ar…
Ele nem bem acabou de falar o nome da rua onde estava e ela desligou o telefone, furiosa. Wan tentou bastante tempo falar com ela, mas o telefone simplesmente não respondia. Ele não conseguia imaginar o que acontecera, até que percebeu que o problema fora com o nome da rua. Ele só consentiu em falar com ela novamente depois de 15 dias, quando os amigos conseguiram mostrar a ela a foto que o Wan tirou da placa da rua onde estava quando ligou para ela no sábado à noite. Hoje eles riem muito cada vez que ele mostra a ela a foto armazenada no celular:

Escrito em 14/04/2010
Publicado em 21/08/2021
Republicado em 22/04/2026
