GUI-GUI CURIOSA

– Bom dia, Paulo.

– Nossa!, Gui-Gui, você falou que não ia demorar muito dessa vez porque já estava com uma ideia na cabeça, mas não achei que você voltaria tão cedo.

– É verdade, mas o motivo da minha volta não é por causa da nova ideia. Fiquei muito curiosa sobre coisas que você me falou sobre a Páscoa. Você disse que “originalmente” a Páscoa era uma data religiosa. E enfatizou o “originalmente”. O que significa isso?

– Lembra que falei que a  Bíblia era um livro sagrado, também chamado de Sagradas Escrituras? “Sagrado” refere-se algo digno de veneração, respeito profundo ou dedicado a uma divindade. A Páscoa celebra fatos narrados na Bíblia e, por isso, é considerada um evento religioso. Quando eu digo originalmente é porque são cerimônias que lembram passagens da Bíblia. No caso dos cristãos, o que se comemora vem do Novo Testamento e se refere à Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.

– E por que Ele morreu?

– As profecias do Velho Testamentos falavam da chegada à Terra de um Messias, que viria para tirar o pecado do mundo. Então ele já esperado, não só pelo povo como pelos poderosos e falsos líderes, pois temiam perder o controle da população. E realmente, aos 30 anos, e durante os três últimos anos de vida, Jesus percorreu várias cidades com uma mensagem de amor, valorização do ser humano, uma vida de acordo as leis de Deus e não submissão a falsos líderes e governantes cruéis. Durante três anos ele falou para multidões cada vez maiores. Fez diversos milagres para demonstrar seu poder divino. Alguns começaram a chamá-lo de  Rei dos Judeus e ele sempre dizia que seu reino não era deste mundo.

– Mas, então, por que ele, que era uma pessoa tão boa, morreu tão jovem?

– Pois é Gui-Gui. Ele morreu porque os poderosos se sentiram ameaçados. Levantaram mentiras sobre ele e, por causa delas, foi preso, torturado e condenado à morte por crucificação, que era a pena aplicada a ladrões e assassinos. Essa é a parte da Paixão de Jesus. Depois vem a Morte dele, pregado na cruz. E, para terminar, a Ressurreição três dias após sua morte. Isso tudo foi possível porque Jesus era Filho do Deus Pai e veio para vencer o pecado e a morte. Esse acontecimento é mais importante para os cristãos.

– Nossa! Que história triste, mas com um final feliz. E você disse também que essa celebração virou uma data comercial. Você sabe como era antes?

– Não só lembro como vivi o fim do caráter religioso da Páscoa. Mas, graças a Deus, tem muita gente que ainda considera a Páscoa uma festa religiosa. São doces lembranças da minha infância e juventude. A Semana Santa começava no Domingo de Ramos, lembrando entrada de Jesus em Jerusalém com o povo estendo ramos pelo seu caminho. A gente ia para as missas com um ramo de alguma planta. O padre benzia os ramos e eles eram levados e deixados a secar. Quando desabava uma tempestade pavorosa com ventos e raios, as pessoas queimavam esses ramos pedindo a proteção de Santa Barbara.

Na Quinta Feira Santa passávamos algum tempo na igreja acompanhando duas cerimônias. O Lavapés, lembrando a ocasião em que Jesus lavou os pés dos apóstolos. E a Via Sacra, relembrando 14 etapas da Paixão, Morte e Ressureição de Jesus, desde seu julgamento e condenação até sua Ressureição. Eram 14 imagens distribuídas pela igreja. Os fiéis e o padre iam de estação em estação; em cada uma era lida uma descrição da estação, feitas algumas orações e o padre fala algumas palavras.

Na Sexta Feira Santa não havia nenhuma cerimônia na igreja. Íamos na igreja para passar em frente da imagem do Senhor Morto. Se me lembro bem, havia duas procissões. Uma era a chamada a Procissão do Encontro. Na verdade eram duas procissões que saiam em sentidos opostos. Uma levava um andor com a imagem de Nossa Senhora (das Dores?) e a outra com a imagem de Jesus levando a cruz; as procissões se encontravam numa pracinha perto da minha casa. Ficávamos em frente de casa assistindo a procissão passar e algumas vezes a seguíamos por um tempo. Lembro bem que minha avó Cecília, mãe do meu pai, ficava em casa para acompanhar também a Procissão de Enterro, às 21h. Como observado fielmente, era dia de jejum e abstinência. Não havia jantar; fazíamos um lanche, só café com leite e pão com manteiga. Na Procissão do Enterro a banda vinha tocando músicas fúnebres; um andor trazia o caixão de Jesus. Atrás vinha uma mulher toda de roxo, com um véu também roxo. Era a Verônica. De tempos em tempos ela subia num banquinho e cantava uma canção bem triste, enquanto desenrolava uma espécie de papiro. Na enorme casa ao lado da nossa eles montavam um altar e esse era um dos lugares onde ela cantava e eu ficava muito impressionado.

Uma coisa que lembrei depois de terminar de contar e voltei para contar uma curiosidade. Na Sexta Feira Santa as rádios só tocavam música orquestrada. E a rádio Panamericana (atual Jovem Pan) apresentava um programa chamado O Sermão da Montanha. Era também só música suaves e sem propaganda. E de vez em quando vinha algum religioso falar: padre, pastor, rabino, etc.

Sábado a única coisa que acontecia era a Malhação de Judas onde era feitos bonecos de pano simbolizando o traidor. O boneco era malhado e, ao fim,  punham fogo. Mas isso acontecia bem longe da igreja.

E, enfim, Procissão da Ressurreição, que era anunciada às 5h da manhã com rojões e a banda tocando músicas muito alegres. Nesse dia tínhamos o almoço de Páscoa, com alguma comida especial. É isso que me lembro. Não tenho lembrança de ovo de chocolate.

– Que pena que tudo isso se perdeu. Foi bom que você aproveitou.

– Sim, Gui-Gui. Pena que meus filhos já não viveram tudo isso. Mas foi muito gostoso lembrar de tudo isso para te contar.

– Obrigada, Paulo. Agora já vou indo, antes que escureça. Até a volta.

– Até.

Escrito em 04/04/2026

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