A MAL AMADA

Marina era uma chef bem conhecida no mercado. Primeiro, porque adorava cozinhar. Sempre adorara. Desde pequenininha ficava muito tempo na cozinha ajudando sua mãe, preparando os ingredientes e, aos poucos, foi  fazendo seus próprios pratos. E, além disso, era muito curiosa. Gostava buscar novidades e aprender com outros chefs. Várias vezes passou férias em outros países para aprender sua culinária e seus costumes. Aos quarenta e cinco anos sentia que estava pronta para ter seu próprio restaurante. Começou a pensar no que seu restaurante se diferenciaria numa cidade com tantas opções de culinária.

Conversando com  amigas percebeu uma demanda bem escondida. Suas amigas gostavam de comer bem, mas tinham receio de engordar. Para não engordar acabavam optando pela comida “fit”, mas sentiam que não era uma comida que  atendia seus desejos. Então decidiu que iria servir comida muito saborosa, sem deixar de ser “ligth”. Além disso faria uma inovação revolucionária. Um restaurante voltado para o público feminino. Homem só entraria se acompanhando uma mulher. Equipe totalmente feminina: cozinheira, garçonetes, sommelière, manobristas e uma sala separada para as mães cuidarem das crianças ou deixá-las com babá, da casa ou próprias. Começou a montar seu cardápio, consultando vários endocrinologistas, nutricionistas, nutrólogos e outros chefs seus amigos. Enquanto isso, estava pensando que nome dar ao restaurante. O primeiro que ocorreu foi ELA’s, mas logo abandonou por causa da síndrome. Pensou em um nome que soasse igual, mas teve que desistir de HELLA’s porque já existia uma metalúrgica alemã, (do ramo automotivo) com esse nome. Que pena, ela pensou, seria um bom nome. De repente deu um estalo na sua cabeça e apareceu uma palavra que aprendera durante um estágio na California. É uma gíria americana  usada para dar ênfase; equivalente ao nosso “muito”, “realmente”, “muito mesmo”. O nome será Hella Delas. Muito delas mesmo!

Em seis meses achou um endereço adequado, contratou a cozinheira e testaram todas as receitas, mobiliou o Hella Delas e contratou o resto da equipe. Escolheu uma quinta-feira e convidou várias amigas para a primeira noite. Ouviu muitos elogios, sobre a ideia e sobre o cardápio. Convidou várias jornalistas que eram críticas gastronômicas para o almoço do sábado. Passou a sexta-feira fazendo ajustes sugeridos pelas amigas. Outra vez foi um sucesso! Em dois meses o restaurante era muito comentado e já era preciso fazer reserva. Tudo estava indo melhor do que imaginara. Até que…. Ana, sua melhor garçonete, pediu para falar com ela. Terminado o almoço foram para o escritório e Ana falou:

– Dona Marina, sinto muito, mas estou aqui para pedir minhas contas.

– O que aconteceu, Ana? Arrumou outro emprego? O salário está baixo? Alguém te maltratou?

– É essa última coisa. Eu não aguento mais as malcriações da Raquel.

– Nossa cozinheira Raquel? O que houve?

– Ela está sempre me ofendendo. Não posso falar nada que ela já vem de pau e pedra. Sempre brava. A senhora sabe, nós sempre contamos para a cozinheira as reações das clientes. “A comida está demorando”, “A comida está fria”, “Dá para pôr um pouco mais de sal?”, “Delícia de comida!” e assim por diante. Quando é queixa ela diz “Então venha você aqui cozinhar” ou “Fala para a moça ir comer no McDonalds, para ver o que é bom.” Eu procuro manter a calma, para não passar qualquer coisa negativa para as clientes. Mas agora cansei e quero sair antes que saia algum bate boca.

– Nossa! Ana. Isso é só com você?

– Não, dona Marina. Todas se queixam, mas evitam trazer para a senhora porque sabem que a senhora gosta dela.

– Eu gosto mesmo da Raquel, mas isso não quer dizer que ela pode destratar as colegas. Aliás, gosto de toda vocês. Por favor, não faça nada antes de eu conversar com a Raquel.

Marina chamou a Raquel logo após terminar os afazeres do almoço.

– Raquel, está tudo bem com você?

– Está sim dona  Marina.

– Você se dá bem com suas colegas?

Com essa pergunta, Raquel começou a chorar. Primeiro baixinho, depois soluçando. Marina esperou que ela se acalmasse. E perguntou:

– Raquel, pode me contar por que está chorando?

– Ah! Dona Marina, já sei que vou perder o emprego outra vez, por causa desse meu jeito.

– Que jeito, Raquel?

– Dona Marina, sei que sou explosiva, tento me controlar, mas tem dias que não consigo.

– O que acontece nesses dias?

Raquel começou a chorar novamente, bem forte. Demorou um pouco mais para parar. Depois de um tempo começou:

– É um problema que tenho e nunca contei para ninguém. Meu marido é alcoólatra. Às vezes ele passa do limite e bate em mim. Quase não durmo à noite e no dia seguinte estou um trapo. Explodo por qualquer coisinha.

– Você precisa de ajuda. E seu marido também. Vou te encaminhar para uma casa de atendimento a mulheres com problemas como o seu. Ali você terá atendimento profissional, com orientação sobre como se proteger e agir quando ele te bater.

Agora vá para casa e descanse. E quando você estiver num desses dias ruins, me avise para eu orientar o pessoal.

– Obrigado, dona Marina. Deus lhe pague.

No dia seguinte Marina reuniu toda a equipe e falou:

– Pessoal, a Raquel está passando por um problema sério na sua vida pessoal. Por isso ela fica irritada por qualquer coisa. Vocês podem ajudar, tendo paciência. Eu ajudá-la a resolver esse problema e logo ela estará bem.

Escrito em 19/03/2026

ALESSANDRA E MIRTES

Alessandra era filha de um político de pouca projeção e de uma artista em crescimento no mercado de artes. Era o que os economistas chamam de “classe média alta”.  Apoiada nessa situação financeira, ela estudava numa das melhores escolas da cidade de São Paulo. Como a única exigência para vestimenta durante as aulas era o blusão com as cores e o nome da escola, Alessandra estava sempre com roupas de grife, perfume francês, cabelo muito bem cortado e penteado. Sua mochila se destacava entre tantas de alto padrão; sempre com material escolar muito bem cuidado e lanches que pareciam terem sido preparados por um chef . Como era de se esperar, estava sempre alegre e brincando com as colegas sobre tudo: as roupas, os lanches, os passeios no final de semana, as viagens de férias.

Como é comum em escolas desse padrão, havia um acordo com algumas ONG’s que davam assistência às pessoas menos favorecidas, economicamente, das periferias da cidade. Por esse acordo, eram concedidas todos os anos algumas bolsas de estudo, a custo zero para os estudantes. Mirtes era uma dessas bolsistas, na mesma escola que Alessandra. Uma das patroas da mãe gostava muito dela e indicou a Mirtes para bolsa  de uma dessas ONG’s. Filha única de uma mãe solo que ralava seis dias por semana fazendo faxinas em residências e escritórios. Ganhava o suficiente para comer, pagar aluguel, vez outra uma roupa nova e, quando possível algum pequeno luxo (geralmente um sorvete ou um chocolate). Nos intervalos das aulas ficava afastada dos colegas, comendo o lanche que sua mãe tinha preparado e tomando água do bebedouro.

Alessandra adorava zoar os colegas, mas desde que descobriu a Mirtes, o que ela mais gostava era zoar dela.

– Gente, olha só a saia dela, da butique Feira…

– Os sapatos parecem que já deram a volta ao mundo. E não adianta disfarçar com graxa.

Mas o que ela mais gostava de fazer era comentar sobre o lanche da Mirtes, desembrulhava e mostrava para todo:

– Pessoal, parece que hoje foi de dia de festa. Um ovo frito inteiro só para ela se esbaldar na nossa frente.

Um dia ela se superou, ao olhar pão:

– Gente, que é isso?! Parece uma nova sobremesa! O pão lambuzado com margarina e açúcar espalhado por cima.

Mirtes não falava nada. Simplesmente se calava, pegava o lanche e ia para o banheiro para chorar enquanto comia.

Certo dia, ao tirar o lanche das mãos da Mirtes, viu que era meio pãozinho já bem duro e embrulhado numa folha de caderno com alguma coisa escrita. Resolveu ler em voz alta, para todos ouvirem:

-Bom dia, Mirtes, minha filha. Hoje não esperei você para tomarmos café juntas. Porque esse pedaço de pão amanhecido era a única coisa que tinhamos para comer aqui em casa. Então sai sem comer. Amanhã devo receber o pagamento de um escritório que limpo e compro alguma coisa. Mamãe te ama. Beijo.

Alessandra mal conseguiu ler o bilhete até o fim; derramava grossas lágrimas e soluçava. Porque esse jeito dela era fruto da sua educação. Fazia uma semana que não via o pai e só via a mãe tarde da noite quase todos os dias. Quem fazia os lanches, arrumava suas roupas e penteava seu cabelo eram as empregadas e quem a levava para a escola era o motorista da família. Mas ela tinha um coração de ouro. Sentiu pena da Mirtes e de si mesma. Da Mirtes, pelas dificuldades financeiras. De si, porque gostaria de ter dos pais o mesmo carinho que a Mirtes recebe da mãe.

Todos ficaram em silêncio, emocionados. Alessandra abraçou Mirtes, abriu sua lancheira e deu seu lanche para ela. Mirtes cortou o lanche ao meio e ficou com metade. Alessandra, num misto de alegria e tristeza, foi até a cantina e trouxe um copo de suco para cada uma. Desse em dia em diante passaram a ficar juntas em todo o recreio e comendo os lanches, uma ao lado da outra. Quando Alessandra percebia que o lanche da Mirtes era muito pobre, dava para ela metade do seu.

Pouco tempo depois o pai da Alessandra foi cassado por corrupção. Passaram a contar só com a renda da mãe. E ela teve que sair da escola. Anos depois, Mirtes muito esforçada para dar melhores condições de vida para a mãe, entrou na faculdade de direito. Quando estava no segundo ano, foi participar da recepção aos calouros e lá reencontrou a Alessandra.

Escrito em 01/03/2026

FEMINICÍDIO

Estava na modorra (como disse Monteiro Lobato em “O Saci”) depois do almoço, lutando para manter os olhos abertos que teimavam em fechar. Numa dessas fechadas ouvi uma voz dentro da minha cabeça:

– Boa tarde, Paulo. Tá dormindo?

Era a Gui-Gui!

– Ei, Gui-Gui! Como você está? Por onde tem andado, minha amiga?

– Não tenho circulado muito por aí. Com as chuvas das últimas semanas tive que me proteger. Mal começava a escurecer eu já entrava numa casa e ia me esconder em algum cantinho alto para fugir da chuva e da possível inundação. Deu certo e vim te ver. Como você está?

– Estou bem, graças a Deus. Como você sabe, aqui raramente tem novidade. E quando tem é sempre mais do mesmo. É morador que chega, é morador que morre, é funcionária que sai, funcionária que chega. E assim vai indo  a “trepidante” rotina deste local. Desde nossa última conversa só escrevi um texto, mas não era uma história. Era uma ideia como seriam as UTI’s do futuro. Nem sei como tive essa ideia. Tomara que você tenha uma boa história para me contar.

– Não tenho uma história. Tenho uma dúvida que acho que você pode me explicar. Durante o tempo dentro das casas vi muito noticiário e uma palavra me chamou a atenção, pelo número de vezes que apareceu. O que é feminicídio?

– Gui-Gui, esta é uma palavra nova para um problema muito antigo da Humanidade. Na verdade, um problema quase tão antigo quanto a própria Humanidade. Vou te resumir o que entendo do assunto.

Tudo começou  na Idade da Pedra. Os seres humanos, recém alçados ao status de animais inteligentes, foram morar nas cavernas para se protegerem do mau tempo e dos animais. Para ter o que comer, bastava andar um pouco em volta da caverna e recolher folhas, raízes e frutas. De quando em vez se deparavam com animais de pequeno porte e os usavam como alimento. Com o crescimento da população tiveram que procurar mais longe, tanto plantas como animais. Logo perceberam que o que conseguiam era pouco. E tiveram que ir mais longe e caçar mais animais, de maior porte. E aí, tudo começou. Quem seria mais indicado para sair da caverna e buscar alimento? As mulheres eram de porte menor, tinham que parir e cuidar das crianças; então foram os homens encarregados de buscar alimento, em excursões que podiam demorar semanas. Com o tempo, por diversas razões, em cada família o homem assumiu a figura do provedor e a mulher foi relegada a uma posição secundária.

Desde então, de forma escancarada ou disfarçada, a mulher foi considerada como alguém frágil e dependente do homem. Conforme a época essa dependência tem sido justificada de diversas formas. “A mulher é fisicamente mais frágil. A mulher tem que cumprir seu dever matrimonial de procriar e obedecer ao homem. A mulher não é tão inteligente quanto o homem. A mulher tem que ser a doçura da sociedade. A mulher é boa escrava”. Se você mergulhar no estudo da sociologia de cada época, em cada uma vai encontrar uma forma de justificar esse papel reservado às mulheres. A única dessas justificativas parcialmente verdadeira é que a mulher é, fisicamente, mais frágil que o homem. Ou, se se mostrassem fortes, eram tidas como bruxas ou eram martirizadas e canonizadas como santas. Hoje sabemos que isso não justifica o preconceito às mulheres. Depois volto a isso.

Nos últimos séculos, eu diria nos dois ou três últimos, essa posição das  mulheres tem mudado, passo a passo. Inicialmente, pequenos  passos; mas a cada passo o próximo era mais firme e a figura da mulher vem se alterando com maior velocidade e consistência. Por exemplo, só em 1918 as mulheres passaram a ter direito ao voto na Inglaterra, mas só as proprietárias… Só em 1983 a Nova Zelândia se tornou o primeiro país do mundo a reconhecer o direito das mulheres ao voto. No Brasil, depois de meio século de luta das mulheres, seu direito a voto foi reconhecido só em 1932!! De lá para cá têm se aberto muitas portas para as mulheres. Na política, nos cargos mais altos das empresas, em atividades tidas com exclusividade masculina como, por exemplo, motorista de caminhão e até soldadora. Nos esportes vem o melhor exemplo de que as mulheres podem superar seu menor porte físico. Vemos isso em todos os esportes, mas acho halterofilismo mais exemplar. Claro que uma mulher não vai levantar 510 kg, mas pode levantar 265 kg… (São recordes reais).

Mas ainda há aspectos negativos da discriminação das mulheres. É uma batalha que todos devemos enfrentar no dia a dia, na educação, na política, na justiça. E, finalmente chegamos à sua palavra. FEMINICÍDIO é quando uma mulher é morta por ser mulher. Exemplifico: se uma mulher é morta num assalto, é homicídio; se é morta pelo ex-companheiro por terminar a relação é Feminicídio. E eu sou capaz de apostar que esse crime é muito antigo, pelo jeito que as mulheres sempre foram tratadas. Então, por que só agora se fala nisso? Primeiro porque essa distinção entre esses tipos de crime é recente. E também só recentemente as mulheres têm tido coragem para denunciar. Sabe-se lá quantas mulheres sofreram feminicídio além de diversas formas de violência, na maior parte das vezes dentro das próprias casas.

Então, amiga Gui-Gui, é um longo caminho a percorrer. O importante é que os primeiros passos já estão sendo dados.

– Nossa, Paulo! Que história triste. Você tem ideia do que pode ser feito?

– Bem, a primeira ideia de combater preconceitos é começar em casa, onde de verdade os preconceitos são aprendidos. Criar meninos que tratem bem as  meninas e meninas que se sintam em igualdade com os meninos. Criar meninos e meninas que tratem bem quem for diferente, na cor, no sexo, na religião, no país ou região de origem, etc.

– Obrigado, Paulo. Vivendo e aprendendo… Já vou indo para aproveitar que hoje não está com cara de chuva

Escrito em 16/03/2026

PÁSCOA, DO QUE SE TRATA?

Depois do almoço. Nada interessante na TV. Escolho um canal de música e fico olhando para o teto e pensando nas alternativas para o visual do blog e que textos republicar enquanto não me vier inspiração para novos textos. De repente, ouço uma vozinha dentro da minha cabeça:

– Como é a aparência da Terra, vista da Lua?

– Gui-Gui, é você!! Quanto tempo! Por onde você tem andado, minha amiga? Está me trazendo novas ideias para o blog?

– Pois é, Paulo, eu estava te observando a há algum tempo e me pareceu que você estava “no mundo da Lua”… De verdade, não tenho nenhuma história por enquanto. Mas tem duas coisas que estão me intrigando. Tenho visto em muitos lugares a palavra páscoa e quase sempre falando sobre ovos de chocolate. Que é páscoa  e essa história de ovos de chocolate? Só conheço ovo de galinha…

– A Páscoa é, originalmente, uma das maiores tradições religiosas para judeus e cristãos. E ovos de chocolate é uma iguaria que se presenteia e se come nesta época. Vou começar pela Páscoa, mas já te aviso que é um assunto controverso e complexo. Não sei muito sobre a Páscoa, mas vou pedir ajuda para minha amiga mais recente, a IA.

A origem da Páscoa está na Bíblia, que significa “livrinhos”, indicando que é um conjunto de livros escritos por cerca de 40 escritores ao longo de 1.600 anos. É composta por 66 livros (para os protestantes) e 73 livros (católicos). É também conhecida como “Sagradas Escrituras”. É dividida em Antigo Testamento, que narra a criação do Mundo, a história dos israelitas, leis e profetas. E o Novo Testamento, composto de 27 livros escritos no primeiro século d.C. divididos em Evangelhos, Atos dos Apóstolos, Epistolas e Apocalipse. Foca no cumprimento das profecias do Antigo Testamento, na vida, ensinamentos, morte e ressurreição de Jesus Cristo e o início da igreja cristã. Esse é o cenário para o surgimento da palavra Páscoa.

No Antigo Testamento, um dos principais livros, se não o principal, é o Êxodo. Aqui é narrada a saída dos hebreus do Egito, onde eram escravos, liderados por Moisés. As passagens mais conhecidas desse livro são a travessia do Mar Vermelho e a entrega das Tábuas da Lei a Moisés no Monte Sinai. Ao iniciarem essa caminhada, Moisés criou um ritual para comemorar essa passagem para a Terra Prometida. Esta é razão da Páscoa dos judeus, Pessach, palavra que significa “passagem” ou “passar por cima”.

Já a Páscoa a que estamos acostumados no Brasil e países cristãos, tem origem no Novo Testamento e é a celebração da ressurreição de Cristo, após sua morte na cruz na Sexta-Feira Santa, simbolizando a vitória da vida sobre a morte, a libertação do pecado e a promessa da vida eterna. É a festa mais importante do cristianismo, representando uma passagem da morte para a vida (lembrou da Pessach?). Aqui vale dizer a diferença fundamental entre a Páscoa dos judeus e dos cristãos. Os judeus não reconhecem o caráter divino de Jesus e o classificam como um grande profeta; ainda aguardam a chegada do Messias. Eles dizem que não encontraram o corpo de Jesus na sua tumba não porque havia ressuscitado, mas porque os discípulos o roubaram. Bem, isso é uma questão de Fé. É isso que aprendi sobre a Páscoa.

– Nossa! Paulo, que coisa complicada… Acho que vou precisar um tempo para assimilar tudo isso. Se é que vou… Espero que a resposta sobre ovo de chocolate seja mais simples.

– Muito, mas muito mesmo, mais simples. O ovo está ligado ao conceito de nascimento e fertilidade. Como a tradição cristã remete a Páscoa à ressurreição de Jesus, nada mais natural para associar essa vida nova ao ovo. E, por tabela, também associamos a Páscoa ao coelho, um dos animais mais férteis da natureza. Persas, egípcios, gregos e romanos trocavam ovos no começo da primavera, simbolizando o despertar da natureza. Decoravam ovos de  galinha ou de avestruz e trocavam presentes desejando boa colheita. Esse costume foi incorporado pelo cristianismo, pintando os ovos de vermelho, para simbolizar o sangue de Cristo.  As primeiras notícias de ovos de chocolate aparecem na França, no século XVIII. Hoje Gui-Gui, infelizmente, essas tradições foram um pouco deturpadas pelo interesse comercial. Datas de cunho religioso, como Natal, têm sido transformadas em oportunidades comerciais.

– Paulo, essa história do ovo de chocolate eu entendi bem melhor. E um ovo de chocolate é caro?

– Muito, Gui-Gui. Além do preço do chocolate mesmo, dar forma de ovo e oferecer inúmeras alternativas encarece muito o produto. Algumas pessoas estão focando no chocolate em si e oferecendo barras de chocolate como presente.

– Foi muito bom saber essas coisas. Agora vou indo antes que chova. Acho que dessa vez não vou demorar muito, porque já tenho uma ideia a verificar. Beijinhos.

Escrito em 31/03/2026

GUI-GUI CURIOSA

– Bom dia, Paulo.

– Nossa!, Gui-Gui, você falou que não ia demorar muito dessa vez porque já estava com uma ideia na cabeça, mas não achei que você voltaria tão cedo.

– É verdade, mas o motivo da minha volta não é por causa da nova ideia. Fiquei muito curiosa sobre coisas que você me falou sobre a Páscoa. Você disse que “originalmente” a Páscoa era uma data religiosa. E enfatizou o “originalmente”. O que significa isso?

– Lembra que falei que a  Bíblia era um livro sagrado, também chamado de Sagradas Escrituras? “Sagrado” refere-se algo digno de veneração, respeito profundo ou dedicado a uma divindade. A Páscoa celebra fatos narrados na Bíblia e, por isso, é considerada um evento religioso. Quando eu digo originalmente é porque são cerimônias que lembram passagens da Bíblia. No caso dos cristãos, o que se comemora vem do Novo Testamento e se refere à Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.

– E por que Ele morreu?

– As profecias do Velho Testamentos falavam da chegada à Terra de um Messias, que viria para tirar o pecado do mundo. Então ele já esperado, não só pelo povo como pelos poderosos e falsos líderes, pois temiam perder o controle da população. E realmente, aos 30 anos, e durante os três últimos anos de vida, Jesus percorreu várias cidades com uma mensagem de amor, valorização do ser humano, uma vida de acordo as leis de Deus e não submissão a falsos líderes e governantes cruéis. Durante três anos ele falou para multidões cada vez maiores. Fez diversos milagres para demonstrar seu poder divino. Alguns começaram a chamá-lo de  Rei dos Judeus e ele sempre dizia que seu reino não era deste mundo.

– Mas, então, por que ele, que era uma pessoa tão boa, morreu tão jovem?

– Pois é Gui-Gui. Ele morreu porque os poderosos se sentiram ameaçados. Levantaram mentiras sobre ele e, por causa delas, foi preso, torturado e condenado à morte por crucificação, que era a pena aplicada a ladrões e assassinos. Essa é a parte da Paixão de Jesus. Depois vem a Morte dele, pregado na cruz. E, para terminar, a Ressurreição três dias após sua morte. Isso tudo foi possível porque Jesus era Filho do Deus Pai e veio para vencer o pecado e a morte. Esse acontecimento é mais importante para os cristãos.

– Nossa! Que história triste, mas com um final feliz. E você disse também que essa celebração virou uma data comercial. Você sabe como era antes?

– Não só lembro como vivi o fim do caráter religioso da Páscoa. Mas, graças a Deus, tem muita gente que ainda considera a Páscoa uma festa religiosa. São doces lembranças da minha infância e juventude. A Semana Santa começava no Domingo de Ramos, lembrando entrada de Jesus em Jerusalém com o povo estendo ramos pelo seu caminho. A gente ia para as missas com um ramo de alguma planta. O padre benzia os ramos e eles eram levados e deixados a secar. Quando desabava uma tempestade pavorosa com ventos e raios, as pessoas queimavam esses ramos pedindo a proteção de Santa Barbara.

Na Quinta Feira Santa passávamos algum tempo na igreja acompanhando duas cerimônias. O Lavapés, lembrando a ocasião em que Jesus lavou os pés dos apóstolos. E a Via Sacra, relembrando 14 etapas da Paixão, Morte e Ressureição de Jesus, desde seu julgamento e condenação até sua Ressureição. Eram 14 imagens distribuídas pela igreja. Os fiéis e o padre iam de estação em estação; em cada uma era lida uma descrição da estação, feitas algumas orações e o padre fala algumas palavras.

Na Sexta Feira Santa não havia nenhuma cerimônia na igreja. Íamos na igreja para passar em frente da imagem do Senhor Morto. Se me lembro bem, havia duas procissões. Uma era a chamada a Procissão do Encontro. Na verdade eram duas procissões que saiam em sentidos opostos. Uma levava um andor com a imagem de Nossa Senhora (das Dores?) e a outra com a imagem de Jesus levando a cruz; as procissões se encontravam numa pracinha perto da minha casa. Ficávamos em frente de casa assistindo a procissão passar e algumas vezes a seguíamos por um tempo. Lembro bem que minha avó Cecília, mãe do meu pai, ficava em casa para acompanhar também a Procissão de Enterro, às 21h. Como observado fielmente, era dia de jejum e abstinência. Não havia jantar; fazíamos um lanche, só café com leite e pão com manteiga. Na Procissão do Enterro a banda vinha tocando músicas fúnebres; um andor trazia o caixão de Jesus. Atrás vinha uma mulher toda de roxo, com um véu também roxo. Era a Verônica. De tempos em tempos ela subia num banquinho e cantava uma canção bem triste, enquanto desenrolava uma espécie de papiro. Na enorme casa ao lado da nossa eles montavam um altar e esse era um dos lugares onde ela cantava e eu ficava muito impressionado.

Uma coisa que lembrei depois de terminar de contar e voltei para contar uma curiosidade. Na Sexta Feira Santa as rádios só tocavam música orquestrada. E a rádio Panamericana (atual Jovem Pan) apresentava um programa chamado O Sermão da Montanha. Era também só música suaves e sem propaganda. E de vez em quando vinha algum religioso falar: padre, pastor, rabino, etc.

Sábado a única coisa que acontecia era a Malhação de Judas onde era feitos bonecos de pano simbolizando o traidor. O boneco era malhado e, ao fim,  punham fogo. Mas isso acontecia bem longe da igreja.

E, enfim, Procissão da Ressurreição, que era anunciada às 5h da manhã com rojões e a banda tocando músicas muito alegres. Nesse dia tínhamos o almoço de Páscoa, com alguma comida especial. É isso que me lembro. Não tenho lembrança de ovo de chocolate.

– Que pena que tudo isso se perdeu. Foi bom que você aproveitou.

– Sim, Gui-Gui. Pena que meus filhos já não viveram tudo isso. Mas foi muito gostoso lembrar de tudo isso para te contar.

– Obrigada, Paulo. Agora já vou indo, antes que escureça. Até a volta.

– Até.

Escrito em 04/04/2026

QUE MUNDO É ESSE?

Jorge começou a mexer bastante os olhos, sem abrir as pálpebras. Na fase denominada REM (Random eyes movement. Movimento randômico dos olhos). Evento que se manifesta quando estamos sonhando, no final do sono normal. Nesse momento há intenso movimento dos olhos, acompanhando o que se passa no sonho, e sinaliza grande atividade do cérebro. Nesse momento sentiu como se alguém o estivesse balançando. Abriu os olhos lentamente e não sabia onde estava. Era uma sala grande e ele estava numa cama, em frente a uma janela e o que parecia ser uma enorme tela de televisão. Do seu lado esquerdo havia uma espécie de um painel, cheio de portas e luzes. Quando acabou de abrir os olhos, sentiu alguma coisa enfiada na sua boca. Nesse instante uma daquelas portas se abriu, de dentro saiu como um braço mecânico que foi se esticando em direção a ele ao mesmo tempo que ouvia uma voz que dizia: “Tussa, tussa, tussa”. Na segunda vez que tossiu aquele braço puxou como que uma mangueira da sua boca. Ele entendeu logo que estava sendo desintubado. A voz falou novamente:

–  “Olá. Jorge. Que bom quem você acordou. Sua Marina, a enfermeira de plantão, neste turno. Eu te vejo e você pode me ver nessa tela a sua frente. Você está numa UeTI, que significa Unidade eletrônica de Terapia Intensiva. Durma mais um pouco e mais tarde volto te ver. Até já.”.

Ele estava tentando entender como tinha vindo parar ali. E o que era uma UeTI? Tudo que se lembrava era que estava parado com sua moto no sinal, ouviu uma sirene da polícia tocando atrás dele e uma sensação como se estivesse voando. Quando teria sido isso? Ontem? Anteontem? Será que estava sozinho na moto? Isso ele iria descobrir aos poucos. A imagem da Marina apareceu outra vez na tela.

– “Tô de volta. Daqui a pouco o Dr. Alberto, médico do plantão, vem conversar com você. Enquanto isso vou medir seus sinais vitais e fazer alguns exames de sangue e urina. Nesse painel ao lado  da cama vão aparecer várias luzes, se diversas cores. Algumas ficam acesas alguns segundos e apagam. Outras piscarão em intervalos diferentes e uma ficará o tempo todo acesa.”

– Mas não tem agulha? O que você medirá?

– “Será medida a pressão, oxigenação, temperatura. Farei hemograma completo, alguns exames de sague específicos, urina, antibiograma, eletrocardiograma e eletroencefalograma.”

– Nossa! E quantos dias demora para sair os resultados?

Marina sorriu e informou:

– “Estamos  falando de minutos, não dias…rsrs. Os exames mais demorados ficam prontos em 20 minutos. Quando o Dr. Alberto vier conversar com você já terá os resultados no tablet. Tchau, nos vemos mais tarde”.

A tela fechou e Jorge começou a ficar preocupado. “Essa modernização da UTI (ou UeTI??) não dá para ser feita de um dia para o outro… Ou será que estou sonhando sob efeito de anestesia?”. Enquanto ele pensava, as luzes que a Marina prometera começaram a pipocar do enorme painel ao lado da cama. A única coisa que ela não falara é que certas luzes, as que ficavam mais tempo acesas, causavam um leve aquecimento do local sobre o qual incidiam. Começou a tentar entender o que se passava, mas não lhe ocorria nenhuma ideia. Aos poucos as luzes foram se apagando e uma suave música preencheu a sala. A iluminação diminuiu um pouco, a tela abriu e apareceu um jovem vestido de azul. Ele imaginou que fosse o dr. Alberto.

– “Bom dia, Jorge. Sou o Dr. Alberto. Vou cuidar de você neste turno, junto com a enfermeira Marina. Vamos conversar bastante, pois acho que você deve estar cheio de perguntas, né? Vamos começar pelos seus exames e temperatura, normais. Hemograma muito bom, com pequena queda dos glóbulos vermelhos, dentro do esperado no seu caso. Nada que um tratamento simples não corrija. Você não tem nenhuma infecção, nem no sangue e nem na urina. Eletrocardiograma normal. Tem ainda marcas de cicatrização no cérebro e na coluna cervical. Tudo em função do acidente e devem desaparecer com o tempo. Enfim, pronto para a alta. Vamos começar com suas perguntas.”

– Realmente, dr. Alberto, estou achando tanta coisa estranha. Não sei como vim parar aqui. Só lembro de sentir um impacto por trás da minha motocicleta. É por isso que estou aqui no que a Marina disse ser uma UeTI? Até o nome do lugar me parece estranho. Há quanto tempo estou aqui?

– “Com minhas respostas você vai entender por que e há quanto tempo está aqui, numa Unidade eletrônica de Terapia Intensiva. O ‘e’ foi acrescentado porque a grande maioria das ações são tomadas com auxílio de diversas tecnologias eletrônicas. Se você tiver interesse, podemos voltar ao assunto mais tarde.

Sim, você está aqui por causa de um acidente de trânsito. Você estava com a sua moto, parado no semáforo. Estava havendo uma perseguição de ladrões, pela polícia. A viatura policial acionou a sirene quando chegaram ao cruzamento e os ladrões tentaram fugir, furando o sinal vermelho. E atingiram sua moto por trás, em alta velocidade. Você foi arremessado a 50m de distância, caiu de cabeça no chão e o capacete te salvou da morte instantânea. Mas a pressão do próprio capacete causou um grande estrago no seu cérebro e na sua coluna. Você veio direto para a UTI, e entrou em coma. Na época não tínhamos como tratar essas lesões que, felizmente, não eram mortais. Decidimos mantê-lo em coma induzido até acharmos uma solução”

– Pera aí, dr. Alberto… O que o senhor quis dizer com ‘naquela época’?

– “Prepare-se, Jorge. Ach0 que esta será sua maior surpresa de hoje. No mês passado completaram-se dez anos desde que deu entrada na UTI”.

Jorge ficou mudo durante vários minutos. De olhos fechados, pensando: ‘Como, dez anos?!?! Eu pensava que tivesse sido ontem… Posso entender por que acho tudo tão estranho. Na época do acidente o mundo estava passando por grandes transformações, especialmente no campo das tecnologias de informação, na medicina, no uso da energia limpa. Imagino que em dez anos deve ter havido um progresso incrível…’. Quando começou a se recuperar da surpresa, sua pergunta foi:

– Mas, dr. Alberto, como pude ficar aqui por mais de dez anos, sem sequer acordar?

– “Jorge, quando você sofreu o acidente sabiam os médicos que o atenderam que suas lesões não eram fatais, mas na época não havia como tratá-las. Como havia desenvolvimentos rápidos em várias áreas da ciência, inclusive na medicina, resolveram deixá-lo em coma induzido até que houvesse alguma forma de pelo menos atenuar os efeitos das lesões. Um grande ramo da medicina em desenvolvimento, batizada como biomedicina, unia recursos da eletrônica com a biologia unindo conhecimentos da eletrônica com a biologia. Daí surgiram várias novas formas de diagnóstico e tratamento de doenças. A partir do desenvolvimento desses, processos foi criado um novo modelo para as UTI’s, com o acrescimento de ‘e’ para designar uma UTI com recursos da eletrônica. Todas essas luzes que você viu são fruto dessa noiva tecnologia. São equipamentos que acessam vários pontos do corpo, sem tocá-lo. Eliminamos, dessa forma, as desagradáveis agulhas, os fios que eram uma ameaça para o sistema imunológico, foi drasticamente reduzido o tempo de coleta das amostras e o tempo para apuração dos resultados. Assim, em poucos minutos o médico olha os resultados e pode até pedir a verificação de algum resultado ou pedir um exame complementar. E, imediatamente, determinar o processo terapêutico adequado.

Para o seu caso estava em andamento uma promissora pesquisa conduzida pela dra. Tatiana Sampaio, uma cientista brasileira, que focava lesões na medula espinhal. Logo no começo do seu coma ela começou os testes, em humanos, de um medicamento que atuasse nas lesões da espinha. Os resultados desses testes foram muito animadores, com resultados melhores que os esperados. Entramos em contato com ela e falamos sobre o seu caso. Ela disse que estava planejando o tratamento de lesões cerebrais e logo começaria esse estudo. Depois de alguns anos, como é comum em pesquisa, ela chegou a um medicamento que tinha potencial para trazer bons resultados. Começou os testes em animais, que deram resultados promissores. E a ANVISA autorizou o início dos testes em humanos. Conhecendo seu caso, perguntou se você poderia ser voluntário. A família concordou e os testes começaram. Em poucas semanas você, mesmo em leve coma, começou a mexer as pernas e responder a estímulos por voz. Resolvemos tirá-lo do coma para continuar os testes com mais efetividade. E aqui estamos nós.

Agora vou deixá-lo descansar porque já foi muita coisa para hoje. Logo chegará sua refeição já contendo os medicamentos prescritos. Na tela serão exibidos filmes relaxantes para ajudá-lo a dormir. Quando você dormir, a tela se desligará automaticamente. Boa noite”.

Jorge realmente estava absorvendo todas essas novidades. Na tela começaram a aparecer cenas da natureza, matas, rios, animais, mar, pôr do sol, com uma música de fundo bem suave. Aos poucos foi relaxando. Escutou a porta se abrindo e entrou um robô humanoide com uma bandeja na mão onde havia dois copos com uma espécie de mingau. Tomou devagar os dois copos e os devolveu à bandeja. Imediatamente o robô saiu do quarto. A luz diminuiu, música baixou e uma voz suave disse “Boa noite, Jorge. Até amanhã”. Aos poucos foi fechando os olhos e dormiu. Assim que dormiu a tela se apagou e música parou.  No dia seguinte a música começou a tocar e foi aumentando até Jorge abrir os olhos. Logo veio o robô com a bandeja com dois copos, mas com sabores diferentes da véspera; e agora também havia duas bolachas de água e sal. Assim que comeu tudo o robô se retirou e o dr. Alberto apareceu na tela novamente.

– “Bom dia, Jorge. Como está se sentindo? Hoje temos mais tempo para suas perguntas. Vamos lá.”.

– Bom dia, dr. Alberto. Dormi bem e estou, sim, muito curioso. Minha primeira pergunta é: por quanto tempo ainda ficarei aqui na UeTI?

– “Você está se recuperando muito bem. Melhor ainda que o esperado. Se não houver alguma surpresa, amanhã você vai para casa.”.

– Nossa, dr. Alberto! Eu estava me preparando para ficar aqui mais algumas semanas. Posso ir para casa amanhã!? Como pode ser isso depois de 10 anos internado?

– “Esta é uma das boas surpresas que você terá. O tempo de internação hospitalar, incluindo as antigas UTI’s, era muito grande e o risco de contrair infecções era muito grande. Todos trabalhamos duro para diminuir esse tempo ao mínimo. Foi um trabalho conjunto da medicina tradicional, da biomedicina e da IA. Com isso conseguimos reduzir o tempo médio de internação, acelerando a recuperação e permitindo a continuidade dos tratamentos com recursos facilmente disponíveis na residência. Na UTI, o tempo médio de internação era de 36 horas. Hoje, nas UeTI’s, esse tempo médio de permanência é de 24 horas. No seu caso, ultrapassamos essa média, como já esperado. Você vai para casa amanhã. E seguirá sua recuperação assistido por sua esposa, com monitoramento da IA”.

– Nossa, que maravilha! Que mundo é esse que vou encontrar?!?! Mas isso não será um fardo para  minha esposa? Essa IA, que estava no começo da implantação, hoje já consegue monitorar os pacientes em casa?

– “Jorge, você vai ter muitas surpresas, a maioria boas. Vai levar um tempo até que você se acostume com ‘esse mundo’. Lembra a trabalheira que você teve para consertar os efeitos de compras fraudulentas no seu cartão de crédito?. Ou quando invadiram os computadores da empresa dos seu irmão, pedindo resgate para liberar os arquivos? Já faz algum tempo que isso não existe mais. Num trabalho cooperativo entre as principais universidades do mundo e centros de pesquisa, foi desenvolvida uma IA antihacker, mais conhecida como IA² que protege qualquer computador, ou qualquer sistema de tratamento de dados, da invasão de hackers, com 100% de eficiência. Hoje é impossível hackear qualquer dispositivo protegido pela IA². Com certeza você vai demorar um pouco para se acostumar com o mundo depois de 10 anos ‘desligado’           . Tenho certeza  de que você logo se acostumará. Te desejo boa recuperação. Alguém da Clínica Médica vai te acompanhar à distância. Boa recuperação para você.”

Assim que o médico se despediu, a tela começou a mostrar telejornais, para ele ir tomando contato com o  mundo que ia encontrar no dia seguinte.

Escrito em 10, 11 e 12/03/2026 (com ajuda da IA)

WAN-WAN E O MAL ENTENDIDO

Ele mal podia esperar que os ponteiros do relógio formassem uma reta indicando as 6 da tarde. Era sexta-feira e ele havia aprendido rapidinho como são as happy hours das sextas-feiras em São Paulo. Desde que chegara, já há seis meses, do Rio Grande do Norte para estudar medicina na UNIFESP, ele aprendera a esperar e valorizar esse momento. Já saia de manhã do apartamento-república na R. Dr. Bacelar pronto para só voltar para lá na madrugado do sábado. Logo se enturmou com outros “estudantes-migrantes”, especialmente os do Norte/Nordeste que se apoiavam muito na ambientação à essa cidade que tanto acolhe como ameaça. O lugar que ele mais gostava de frequentar era o Genuíno, em frente à ESPM, na Vila Mariana. Ali ele passava horas conversando, comendo batata frita e tomando chopp. Enrolando até que a batata ficasse murcha e o chopp, choco. Era preciso esticar a grana, que vinha – contadissima – de Caicó. Valia a pena, pois o papo era imperdível e a turma muito alegre. Mas, nesse dia ia ser diferente. A “comunidade potiguar” ia se reunir no Genial, da Vila Madalena. Ele achou interessante variar de Mariana para Madalena e conhecer mais novos amigos e amigas.

Quando chegaram a conversa e o chopp já corriam soltos. Começaram as apresentações e ele não aguentava esperar a vez de se apresentar àquela loirinha miúda, sentada do outro lado da mesa e com a única cadeira vazia ao seu lado. Finalmente chegou a hora. Ela estendeu a mão e falou:

– Prazer. Meu nome é Wanderlise, mas os amigos me chamam de Wan.

Ele ficou indeciso. Tão indeciso que nem percebeu que a conversa parou e todos olhavam para eles. Com medo que pensasse que estava brincando, se apresentou:

– O prazer é meu… É… quer dizer… desculpe… isto é… meu nome é Wanderlei, mas os amigos me chamam de Wan…

Foi uma gargalhada geral. A turma já esperava por esse momento, pois, conhecendo os dois, sabiam que isso ia acontecer. Eles ficaram se olhando meio constrangidos enquanto as risadas iam arrefecendo. Olharam-se detida e profundamente e uma centelha invisível percorreu o éter entre os dois olhos. Ele logo se recuperou e tomou a iniciativa:

– Estudo Medicina na UNIFESP. Mora na Vila Mariana, desde que cheguei de Caicó há seis meses.

Aquela centelha não lhes permitiu perceber que a conversa estava suspensa outra vez. Agora foi a vez de ela hesitar:

– Faço Arquitetura na FAU. Moro aqui mesmo na Vila Madalena há um ano, desde que cheguei… bem… de… Caicó…

Nova explosão de risadas brindou a formação, planejada, do casal Wan-Wan. Além das coincidências de nome e origem, logo eles foram descobrindo uma longa série de interesses comuns. Passaram a se encontrar para, juntos, explorar tudo que a cidade lhes proporcionava em termos de cultura, lazer e diversão. Era um tal de passear nos parques: Ibirapuera, Aclimação, Burle Marx, Villa Lobos, Jardim da Luz e até na USP. Iam ao cinema, teatro, exposições, shows, museus. Carne de sol (“importada” de Caicó, a melhor que existe) com forró no Andrade, leitão pururuca, pizza no Castelões, cantinas na 13 de Maio. Tudo eles fizeram juntos durante os meses seguintes. Até que a Wan tomou uma decisão muito séria.

Ela morava sozinha, recatadíssima e solteiríssima, num pequeno apartamento na Vila Madalena. Desde que chegara a São Paulo vinha se protegendo da cidade que ameaça. Em seu apê só entrava homem que fosse para consertar alguma coisa e seu irmão, quando a vinha visitar. Era invicta de outras visitas masculinas. Mas achou que já era tempo de convidar o Wan para conhecer seu pedaço. Estava segura de que seu conterrâneo ia saber se comportar. Afinal, nesses meses em que haviam convivido ele nunca havia ultrapassado os limites invisíveis e desconhecidos que ela se havia proposto. Um dia, enquanto aguardavam para assistir ao filme “O segredo dos seus olhos”, ela tomou coragem e falou:

– Wan, você gostaria de jantar no meu apartamento no próximo sábado?

Pronto! Os dados haviam sido lançados. Ele, sem pensar duas vezes, aceitou:

– Wan, vai ser ótimo! Obrigado pelo convite. Qual seu endereço? E a que horas devo chegar?

Ela deu as informações, o filme começou e o coração deles já batia mais forte. O filme terminou, era domingo à noite e cada um foi para seu lado, depois de um beijo já bem menos formal que até então. Mas a semana foi de preparativos e expectativas. Wan resolveu caprichar no seu gosto pela cozinha e preparar um risoto de carne de sol na moranga, regado a manteiga de garrafa. Como sobremesa, queijo de coalho frito acompanhado de mel de engenho. Iam matar muita saudade do Rio Grande de Norte. Wan, até comprou uma roupa nova para impressionar a moça.

Já eram as 20 horas do sábado, o jantar estava praticamente pronto, mas nada do Wan. Logo o telefone dela tocou:

– Wan, sou eu, o Wan. Desculpe, estou um pouco atrasado, mas me perdi. Você pode ajudar?

– Ora, não se preocupe. A Vila Madalena é assim mesmo. É muito fácil se perder. Diga-me onde você está e eu te digo como chegar.

– Ah, sim… Estou aqui na Rua Ar…

Ele nem bem acabou de falar o nome da rua onde estava e ela desligou o telefone, furiosa. Wan tentou bastante tempo falar com ela, mas o telefone simplesmente não respondia. Ele não conseguia imaginar o que acontecera, até que percebeu que o problema fora com o nome da rua. Ele só consentiu em falar com ela novamente depois de 15 dias, quando os amigos conseguiram mostrar a ela a foto que o Wan tirou da placa da rua onde estava quando ligou para ela no sábado à noite. Hoje eles riem muito cada vez que ele mostra a ela a foto armazenada no celular:

Escrito em 14/04/2010

Publicado em 21/08/2021

Republicado em 22/04/2026