Hoje me senti à vontade para voltar a escrever. Desde que operei o fêmur, há pouco mais de um ano, deixei de me sentar à varanda para levar aquele papo. Inicialmente tinha uma “justificativa” física. Era difícil sentar para escrever preso a uma cadeira de rodas. Quando passei a usar o andador, tinha a desculpa de que no quarto não havia internet e era difícil me concentrar na escrita quando estava na área comum do Residencial. E, afinal, minha preguiça para encontrar novas estórias para contar. Tentei fazer, como sempre fiz: montar o esboço do texto na minha mente e digitar desenvolvendo essa ideia. Deus é testemunha de que tentei. Mas esbarrei na dificuldade de encontrar fatos da minha vida que pudessem ser um bom tema para o Papo na Varanda. E não encontrei (pelo menos até agora). Resolvi produzir um texto de ficção com alguns tons da minha realidade: isto se chama ficção. E assim nasceu a Viagem de Trem. Mas ainda não tinha disposição para digitar. Aquele texto demorou vários dias para ser produzido, pois logo me sentia cansado. Com isso, fui adiando fazer o que estou fazendo agora, em nome da minha indisposição (real), causada por manhãs de indisposição estomacal e tardes de sensação de desequilíbrio que me deixavam desanimado. Talvez como resultado de muitas orações, da família, dos amigos e amigas e das minha próprias, tenho me livrado de pelo menos 80% desses mal estares. Há dois dias que minha náusea se dissipa rapidamente e tenho-me sentido bem equilibrado, pouco precisando de apoio para caminhar. E, afinal, senti disposição para retomar em dos meus passatempos prediletos: escrever. E aqui me tens de regresso, caro teclado.
Mas persistia a dúvida: sobre o quê escrever? Até, eureca!, achei um caminho que vai facilitar um pouco minha tarefa. Resolvi abordar fatos do nosso dia a dia. Afinal todo dia acontece algo que nos chama a atenção e, sobre isso, sempre é possível fazer observações e emitir opinião, com o único risco de provocar opiniões contrárias que até me servirão para rever ou consolidar minha interpretação. Então, bolei como que um subtítulo para o blog: Papo na Varanda – PONTO DE VISTA. Vamos lá, espero que gostem e digam do que não gostem.
Vou começar pelo do meu xará “Tio Paulo”. O cadáver à frente do caixa do banco para levantar um empréstimo. Logo que a notícia foi para o ar, começaram os julgamentos. De cara, a imprensa noticiou com texto do tipo: “mulher leva homem morto para levantar empréstimo”. Pronto! Veja na gravação uma tentativa de estelionato! Como sempre, a primeira impressão pode não ser totalmente real. Num segundo momento, a mulher passou a ser identificada como sobrinha e cuidadora do idoso que ela chamava de tio Paulo. Já se notava uma pequena mudança na classificação da “estelionatária”. Depois mostraram vídeos dela com o “tio” entrando em lojas de empréstimos e no próprio banco e, aparentemente pelo menos, com vida. Começam a surgir as primeiras dúvidas: será que estava vivo quando entrou no banco?; por que ela esteve em lojas de empréstimos?; aquele vídeo que mostra a retirada dele de um carro de aplicativo, foi quando?; como o banco poderia ter o contrato de empréstimo pronto para ele assinar? Até então havia mais perguntas, mas parece que foi abandonada a classificação dela como estelionatária. E, a certa altura, a advogada apresenta comprovação de que ela estava em tratamento psiquiátrico; mas, qual é o diagnóstico?; que tipo diagnóstico permitiria que ela cuidasse da filha com “necessidades especiais” (que necessidades seriam?). Dependendo desse diagnóstico, pode ser que ela não tivesse consciência da situação real do tio. Talvez por esta dúvida ela tenha sido solta para responder ao inquérito em liberdade. Enfim, ainda há mais pontos de interrogações à espera de respostas, que, espero, serão respondidas no inquérito. Qual a minha conclusão? Temos uma tendência de julgar as pessoas sem conhecer toda verdade sobre elas. É preciso aprendermos a ver todos os fatos antes de julgar alguém. E prestar atenção nas notícias veiculadas na imprensa, que emitem notícias sensacionalistas, no afã ocupar o maior espaço na mídia e redes sociais ou, o que é muito pior, em certos casos, transmitir sub-repticiamente, posições ideológicas. Vejamos onde tudo isso vai dar…
Escrito em 03/05/2024

Muito bom o texto , gostei .
É um exercício diário: não julgar .
Gratidão pelo texto Paulo .
Obrigado, minha prima