Quando ainda filhote, Urdu era um ursinho diferente de seus contemporâneos. Sempre disposto para brincar com os amiguinhos, exercia uma certa liderança no grupo porque estava sempre dando ideias para novas brincadeiras. Ele gostava muito de estar com os amigos porque tinha duas irmãs que se dedicavam a outro tipo de atividades. As leoas mães de seus amiguinhos sempre o convidavam para passeios. Os leões pais de seus companheiros de brincadeiras muitas vezes o convidavam para as aulas de caça, luta e farejo. Sempre aceitava, por duas razões. Primeiro, porque era muito tímido e tinha vergonha de pedir aos leões que o ensinassem essas coisas. Segundo porque seria normal aprender essas coisas com seu pai Urda, mas este tinha sido abatido por caçadores quando Urdu tinha apenas dois meses. Cabia aos pais ensinar aos filhos o que fosse necessário para se tornarem machos alfa. Ao longo de sua vida aprendeu um pouco com seus amigos, mas faltou muita coisa que lhe fizeram falta em momentos importantes de sua vida. Apesar disso sentia que era feliz com a vida que levava.
E chegou à idade do acasalamento. Foi o primeiro momento em que Urdu sentiu muito a falta do pai. Como escolher uma fêmea para acasalar? Como fazer com que uma fêmea achasse que valeria a pena acasalar com ele? Essas dúvidas, aliadas à sua timidez, faziam que ele ainda estivesse “solteiro” quando a maioria dos seus amigos já estava usando suas habilidades reprodutivas. Ele tinha vergonha de se aproximar das meninas da alcateia porque ou eram amigas das suas irmãs ou eram irmãs dos seus amigos. A única preocupação de Urdu nesse assunto era o caráter poligâmico dos leões. Se tinha dúvida sobre o acasalamento com uma leoa, que dirá com várias. Estava nessa indecisão quando uma nova família se juntou ao seu grupo. Nesse grupo estava Homa, uma leoazinha que chamou a atenção de Urdu. Bonita, jeitosa e brincalhona como ele. Nos jogos juvenis em que entravam os dois sempre se destacavam. Aos poucos Urdu começou a sentir algo diferente nessa amizade. Será isso que é o desejo de acasalar?
Resolveu convidar Homa para seu primeiro acasalamento. Ela prontamente aceitou. O que ele não sabia, e nem ela contou, é que ela já havia acasalado com outro leãozinho, da alcateia de onde vinham. Ele percebeu. Ela também percebeu sua inexperiência. Mas nunca falaram sobre isso. Por causa disso seu relacionamento sempre foi frio e distante. Mas, apesar disso, resolveram ficar juntos e parir filhotes. Logo que se passaram os quatro meses da primeira (e única) gravidez, Homa deu à luz dois leõezinhos. Foi uma festa na alcateia, principalmente dos amigos do Urdu, que conheciam bem as suas dificuldades com as fêmeas. Eram todos muito felizes. Enquanto Homa amamentava, eles se revezavam nos cuidados com os filhotes. Urdu normalmente saia para caçar enquanto os bebês mamavam. Mas, vez por outra, ele ficava tomando conta dos meninos e ela saia para caçar e relaxar um pouco. Quando os filhotes começaram a aprender a caçar, Urdu é que os ensinava. Mas, nessas aulas a caça era pouca ele saia outras vezes sozinho para reforçar a alimentação. Nessas caçadas encontrava leões e leoas de sua própria alcateia e de outras da região. Num desses encontros, Urdu sentiu o impulso biológico da poligamia e, depois de um tempo, acabou acasalando com uma leoa que conhecera numa dessas ocasiões.
Voltou para casa quieto, sua cabeça balançando, entre Homa e os filhotes, e impulso biológico a que cedera. Home percebeu algo diferente no jeito do Urdu. Depois de um tempo resolveu ter uma conversa com ele, para saber o que estava acontecendo. E tudo veio à tona. Homa falou que entendia muito bem qual era o instinto dos leões. Mas que havia um acordo tácito de que eles constituiriam uma família diferente e ele não cumpriu. Por isso ela não queria que os filhos crescessem tendo ele como modelo. Ele deveria sair da alcateia. Urdu concordou muito a contragosto. Era mais importante a convivência dos filhotes com a mãe do que com o pai. Só pediu a ela que ele ficasse por perto até que eles aprendessem a caçar sozinhos. Concordaram e assim fizeram. No dia em que os filhotes fizera sua primeira caçada sozinhos, Homa chamou Urdu e disse que era hora de ele ir.
Ele se despediu dos meninos e pensou que passaria a vida toda pagando por um erro, que nem era exatamente um erro, e não tinha nada a ver com os meninos. Por isso tomou uma decisão drástica. Ficou meses perambulando pelas savanas até identificar um grupo de caçadores que buscavam animais para um zoológico e não para caça. Aproximou-se sorrateiramente e se deixou capturar. Esse foi o jeito que encontrou para ficar isolado, sem ter chance de quebrar a promessa de nunca mais ver os meninos.
Terminado em 13/05/2026
