A WILMA SE FOI

A Wilma nos deixou no último dia 25. E ontem demos adeus a ela no Cemitério Memorial de Santos. Com ela vai também um pedaço da vida de todos que conviveram com ela. Um pedaço que é de um tamanho diferente para cada um. O pedaço maior, sem dúvida é da minha prima Mirian e seu marido Sérgio (Recebam um beijo especial de agradecimento pela dedicação e cuidado que tiveram com ela até o fim). Mas o meu não é pequeno também.

A Wilma – minha prima em segundo grau – era, acima disso, muito acima, minha madrinha de batismo. Ela foi talvez a última pessoa, que conheço, que incorporou a imagem da madrinha como segunda mãe. Recebi muito carinho e atenção dela, a vida toda. Nunca deixou passar em branco um aniversário, um Natal, um Ano Novo. Ela meu deu um espaço acolhedor no chalé da R. Augusto Paulino e depois no apartamento da R. Vergueiro Steidel. Nesses locais passei momentos inesquecíveis da minha infância e adolescência. Tantas lembranças que dariam para escrever um livro. Uma delas me vem com frequência à mente é uma vez que ela veio me buscar em São Paulo, para passar um tempo em Santos. Eu era bem pequeno, talvez por volta dos meus dez anos. Não sei por que, fomos de trem. Foi a primeira e última vez que desci a serra de trem. Tudo que me lembro é que chovia muito, o trem descia tão devagar (hoje sei que era por causa do sistema de cremalheira) que vendedores de sanduíches desciam de um vagão e iam a pé até o próximo, e eu estava muito tranqüilo ao lado da minha madrinha.

Essa foi uma madrinha especial. Ontem, alguns de seus afilhados estavam no velório: eu, minha prima Regina (Zuca), o Eduardo. Comentávamos, a Zuca e eu, com todos fomos privilegiados por sermos afilhados dela. E havia até um certo ciúme sadio entre nós para saber quem era o afilhado predileto. Isso foi como os filhos disputando o amor dos pais. Simplesmente porque ela foi mesmo como uma segunda mãe para nós.

Hoje fico com a lembrança da minha madrinha, lutadora incansável, vencedora de muitas batalhas. Que me deu tanto carinho, muitas vezes expresso pelas famosas e deliciosas empadinhas de que eu tanto gostava. Vai, madrinha, para o lado do Márcio, da Zildinha, da Juju, do Chico e de tantas outras pessoas importantes na sua vida. Não é adeus. É “até um dia, minha segunda mãe”.

Escrito em 27/11/2010

Republicado em 25/04/2026

                     

DESFILE DE CIRCO

Como sua família fazia há gerações, Quincas Camargo organizava o desfile do Gran Circus Camargo em uma nova cidade. Como sempre, a banda viria à frente, logo seguida dos trapezistas, malabaristas e contorcionistas. Depois, os animais de porte: elefantes, cavalos, tigres, leões. O próprio Quincas (QC, como alguns o chamavam veladamente) desfilava numa plataforma armada no alto do primeiro elefante, usando o megafone para anunciar as atrações do circo. Bem atrás dos animais, os palhaços e, em seguida, o restante da troupe oferecia aos assistentes uma amostra grátis caprichada dos números que seriam exibidas nas diversas funções a se realizarem a partir de logo mais à noite.

Mais uma vez, QC fazia seu trabalho pensando nos por quês dessa ordem, sempre a mesma há tantas décadas. A banda tinha que abrir o desfile, para despertar a atenção do distinto público. As formosas (ainda que à custa de quilos de maquiagem e roupas extravagantes…) trapezistas, malabaristas e contorcionistas tinham a missão de estimular os marmanjos a levarem seus filhinhos para assistir aos espetáculos. Os grandes animais representavam a força do circo e acenavam com os riscos que seus domadores correriam a cada exibição. E os demais artistas, com o caminho aberto por essa impressionante vanguarda, eram um aperitivo e um estímulo à curiosidade sobre o que seria possível ver sob a lona do Gran Circus Camargo.

E, outra vez, Quincas se perguntava por que os palhaços desfilavam logo após os animais e não no final, fechando o desfile, onde seria o lugar mais correto para seu papel de coadjuvantes. Até que, um dia…, QC entendeu essa lógica. Que não era do seu circo ou da sua família, mas de toda a atividade circense.

Quincas tinha um ego maior que o próprio circo. Não era à toa que ele desfilava no alto de um elefante e usava um megafone. Ninguém poderia ignorá-lo! E foi do alto desse pedestal que ele começou a perceber o que o incomodava nos palhaços que vinham, como já se sabe, bem atrás dele. Percebeu o seguinte: em vários momentos, os populares que, na calçada, a tudo assistiam, riam muito com os palhaços e pareciam não dar a devida atenção ao que ele anunciava. Quando se certificou que isso de fato ocorria, QC tomou uma decisão drástica. E nem discutiu sua idéia com qualquer outra pessoa do circo. Afinal, ele era o dono e ninguém sabia dirigir seu circo como ele.

Simplesmente informou a todos que, a partir da próxima cidade, os palhaços ficaram no final, encerrando o desfile. Alguns artistas não concordaram com isso, mas, por várias razões, preferiram ficar ajuizadamente quietos…

E veio o próximo desfile. Tudo começou bem. Quincas certificou-se que, agora, o público não mais deixava de ouvi-lo por causa dos palhaços. Mas… numa dessas olhadas para trás, para ver como as coisas iam, sentiu que algo esquisito estava acontecendo. O mágico deixara o coelho fugir da cartola. O comedor de fogo não conseguia cuspir aquela enorme chama de sempre. Os equilibristas pareciam… desequilibrados. Com essa amostra, muitos não iam querer pagar para ver a continuação, pensou QC.

E assim, de fato, aconteceu. A venda de ingressos foi diminuindo a cada espetáculo. QC se esmerava cada vez mais na redução de custos. O que – todos reconheciam – ele sabia fazer muitíssimo bem. Mas não adiantava. As dívidas, primeiro foram aparecendo. Depois, deram de ir aumentando! O dono do circo sentiu que poderia perder o que gerações da família Camargo haviam construído.

Numa tarde calorenta e empoeirada, estava sentado à porta de seu trailer, pensando nos problemas do circo, quando o Palhaço Germano se aproximou. Germano era um dos melhores palhaços da região e vinha comunicar sua decisão de abandonar o Gran Circus Camargo. Quincas, que, entre outras coisas, já havia renovado várias vezes a equipe de palhaços, na ânsia de resolver o problema, ficou furioso. Perguntou a Germano, arrogantemente:

– Quanto você quer para não sair?

Ao que Germano respondeu com firmeza:

– Não se trata de “quanto”, mas “o quê” eu quero para ficar aqui mais algum tempo.

– E o que é que você quer? Respondeu QC, mal segurando uma explosão de raiva.

– Basta que o senhor passe a utilizar os palhaços corretamente…

Quincas não acreditava no que ouvia. Como alguém se atrevia a lhe dizer como conduzir o seu circo? Ainda mais um palhaço! Porém, face à situação crítica dos negócios, fez um enorme esforço para se controlar e disse, com a máxima ironia de que foi capaz:

– Então, senhor sabichão, me fale alguma coisa sobre circo que eu ainda não saiba…

Germano, que se afeiçoara aos colegas do circo, respirou fundo e começou a falar, desejando que pudesse de alguma forma ajudar o QC e todos os artistas:

– Se o senhor tivesse trabalhado em outros circos, como eu e tantos outros aqui, já saberia a resposta. Que, na verdade, é muito simples.

– Não me diga!…

– Pois é, o que acontece é o seguinte. Quando os animais desfilam, a natureza continua funcionando… Aqui e ali, um animal ou outro defeca, e as fezes ficam no caminho de quem vem atrás. Por causa disso, os artistas ficam preocupados em não pisar na sujeira e perdem a concentração. Para não pisar nessas armadilhas que o grupo da frente vai deixando, cometem erros que normalmente não aconteceriam. É claro que a exibição fica pobre e o público acha que a qualidade dos números não será lá essas coisas.

– Bem – disse Quincas. E qual é a solução mágica? Fazer os bichos desfilarem de fralda, é?

– Não – respondeu Germano. É muitíssimo mais fácil. Quando os palhaços são posicionados corretamente, logo depois os animais, eles fazem o trabalho de limpeza. Ao perceberem que “a caca está feita” eles improvisam uma palhaçada qualquer e tiram a sujeira do caminho. Assim, os demais artistas podem tranqüilamente demonstrar suas habilidades.

– Ahn!… Foi tudo o que Quincas conseguiu balbuciar.

– Assim são os palhaços. Como o senhor bem sabe, quando algo sai errado no circo, são os palhaços que correm para disfarçar. Em certos momentos fazem isso tão bem que o público fica pensando que tudo faz parte do espetáculo, não é mesmo?

– Mas… mas.. e então?…

– É, senhor Quincas, os palhaços têm uma função mais importante do que só fazer graça. Eles desenvolvem a habilidade de rir quando poderiam chorar; contribuir para corrigir as falhas dos outros; e, principalmente!, colocar-se no papel de coadjuvante quando, de fato, são tão importantes quanto os demais.

Quincas estava absolutamente estupefato. Em poucas palavras Germano lhe dera várias lições. Primeiro, ninguém pode saber tudo. Segundo, é preciso valorizar o papel de cada um. Terceiro, vale a pena ouvir os outros antes de tomar uma decisão.

O Gran Circus Camargo começou a recuperar-se. Germano continuou sendo o Palhaço Germano e, junto com os demais palhaços, desfila agora logo em seguida aos animais.

Quincas já não mais aparece no alto do elefante. Ele desloca-se no meio do desfile, garantindo que cada um cumpra seu papel. Inclusive os garotos que distribuem os vistosos folhetos que falam sobre as atrações do circo. E continua sovina como sempre, no controle dos custos do tradicional Gran Circus Camargo.

Escrito em 04/09/2006

Publicado em 26/07/2021

TERREMOTOS

Já faz algum tempo que fiz amizade com a Gui-Gui. Ela bem que me alertou que poderia demorar para voltar. Mas estou ansioso para escrever alguma coisa e, para variar, estou pobre de inspiração. Várias vezes vi formigas andando pela escrivaninha, nas imediações do notebook. Para estimular visitas, procuro deixar iscas, apoiando na escrivaninha coisas que estou comendo. Pão, bolacha, bombom. Até que aparecem algumas visitantes. Penso:

– Gui-Gui?

Silêncio total. Não é ela…

Hoje, enquanto eu tomava café, vi uma formiguinha andando aqui, próxima do note. Mais uma vez falei com meus botões:

– Não deve ser ela…

Se enganou, Paulo. Sou eu mesma, de volta. Como estão as coisas por aqui?

– Gui-Gui!!! Que bom te rever! Você está bem?

Estou sim, meu amigo. Passei alguns “perrengues”, como vocês dizem, mas sobrevivi. Acho que não comentei com você: quase todo formigueiro tem pelo menos uma formiga telepata. Então sabemos coisas que aconteceram aqui perto ou muito longe. Por isso, vou te contar tanto fatos deste quarteirão como outros que ocorreram em lugares muito distantes. E você escolhe o que vai contar.

E ela me contou esta história que reproduzo a seguir:

“Omar  era um afegão na casa dos seus 50 anos. Já haviam se passado 4 anos desde que sua esposa, Aisha, morrera num dos costumeiros terremotos que abalam o Afeganistão. Logo depois que Aisha partiu, seus dois filhos tinham emigrado para a Europa, fugindo da guerra civil que há tanto tempo assolava o país. Omar ficou sozinho, tentando achar um novo sentido para sua vida, agora tão solitária. Um dia, sentado num banco de jardim, teve sua atenção despertada por uma linda moça, que parecia soluçar, sentada sozinha em outro banco bem próximo. Hesitou um pouco, temendo ser inconveniente, sentou-se ao lado da moça.

– Bom dia. Me chamo Omar. Posso te ajudar de alguma forma?

Enxugando os olhos e assoando o nariz, ela respondeu:

– Bom dia. Meu nome é Zahra. Você pode me ajudar sim. Basta ficar aqui e conversar um pouco comigo. Me sinto tão sozinha…

– Zahra, também estou sozinho. Sei bem com está se sentindo. Você quer me contar por que está sozinha?

– Obrigada. Talvez me faça bem extravasar um pouco desta tristeza. Lembra-se do último terremoto, aquele de dois meses atrás? Não foi tão severo e só três pessoas morreram. Infelizmente uma dessas pessoas era o meu marido, Hassan. Nos casamos um pouco tarde e, apesar de eu já ter completado 40 anos, tínhamos o desejo de termos filhos. Com a morte do Hassan fiquei sem chão e ainda não sei o que vou fazer da minha vida.

– Zahra, temos histórias parecidas. Naquele grande tremor de terra de há 4 anos eu e minha família estávamos em casa, pois foi de madrugada. A casa desabou e eu e meus filhos sofremos ferimentos leves, mas minha esposa, Aisha, foi atingida por uma parede do quarto e faleceu. Logo depois meus filhos resolveram emigrar para a Europa, para escapar da guerra civil. Desde então ainda não me acostumei com a solidão.

– Que coisa, Omar. Como nossas vidas mudam com os terremotos! Só nos resta erguer a cabeça e seguir em frente. Mas é difícil e muitas vezes me faltam forças.

– Zahra, tenho uma ideia. Costumo vir a este parque para espairecer. Se nos encontramos novamente podemos bater um papo. Que você acha?

-Acho uma boa ideia. Não costumo vir sempre aqui, mas quando vier e você estiver por aqui podemos, sim, conversar.

Desse dia em diante, sempre que se encontravam ficavam em longas conversas. Tinham muitos interesses em comum. Ler, ouvir música, cinema, teatro, boas comidas e até posturas muito semelhantes em relação a religião. Logo passaram a se ver diariamente. Combinavam almoços, jantares, outros passeios. Com o tempo estabeleceram um vínculo muito forte. Num desses passeios Omar quis conhecer a casa Zahra. Ficou chocado, pois a casa ainda não tinha entrado no programa de recuperação do governo e estava semidestruída pelo mesmo terremoto que matou o marido dela. Omar pensou um pouco, mas acabou falando sua ideia, seu pedido:

– Zahra, nos últimos meses construímos uma relação muito gostosa. Eu estava para te propor uma coisa e acho que é um bom momento. Vendo o estado precário da sua casa e esse elo que se estabeleceu entre nós, estou seguro de lhe propor o seguinte: quer vir para minha casa e passarmos juntos o resto de nossas vidas?

Zahra não fez cara de surpresa. E respondeu:

– Já há algum tempo tenho pensado nessa possibilidade, mas não quis te falar porque não tinha certeza de como você receberia essa ideia. Então, sim, aceito sua proposta!

E selaram esse compromisso com abraços e beijos apaixonados, ali mesmo no meio da rua.

Depois de alguns dias vivendo juntos, Omar fez uma proposta:

– Zahra, meu amor. Esta cidade nos traz algumas recordações boas e outras, nem tanto. O que você acha de nos mudarmos para outra cidade?

– Concordo com você. Vida nova, casa nova. Já tem alguma ideia sobre para aonde irmos?

– Não tenho. Vamos escolher juntos.

Depois de algum as pesquisas a escolha foi por Herat, pelo tamanho menor, pela sua arte e arquitetura. Combinaram que Omar iria para Herat escolher um local para morarem. Iriam conversando pelo celular e, quando uma boa alternativa aparecesse, Zahra iria se encontrar com para decidirem em conjunto. Omar se hospedou num hotel e, à noite, iam conversando e vendo fotos das casas visitadas. Em apenas duas semanas ele já tinha encontrado uma casa bem interessante. Ele voltou para hotel e pegou o celular para combinar com a Zahra a vinda dela. Ela atendeu a chamada, mas o celular dele estava mudo.

Um terremoto de intensidade 7,1 na escala Richter teve como epicentro a região onde se situa Herat. As comunicações cessaram por completo. Zahra ficou em estado de choque. Quis ir para lá, as visitas à região estavam proibidas. Tentou várias vezes ligar para Omar, mas sempre recebia a mesma mensagem “celular fora de serviço”. Ela tentou consultar a relação de mortos, feridos e desaparecidos, mas em nenhuma achou o nome de Omar. Depois de várias semanas sem notícia resolveu procurar emprego e recomeçar, mais uma vez, sua vida. Sozinha outra vez.

E Omar? Com o terremoto, o hotel onde Omar estava hospedado ruiu quase completamente. Ele foi atingido por uma parede e ficou seriamente ferido. Quebrou a perna e o braço esquerdos e teve uma forte concussão cerebral. Devido a essa concussão ele perdeu totalmente a memória; seus documentos e seu celular se perderam no meio dos escombros. Os socorristas não tiveram como identificá-lo e o internaram como “Identidade desconhecida”. Passou longos meses se recuperando das fraturas, mas não conseguia restabelecer sua memória. Um persistente psiquiatra fazia esforços para ajudar nessa recuperação. E teve a ideia de mostrar fotos de várias cidades e atrações turísticas das quais ele pudesse se lembrar. Quando mostrou a foto de um parque em Cabul notou um certo brilho nos olhos de Omar. Começou a insistir em outras imagens da capital e cada vez mais Omar parecia reconhecer os locais. O psiquiatra começou a mostrar a ele uma lista com os nomes de homem mais comuns. De repente ele apontou para o nome Omar e falou “Eu… eu”. Aos poucos foi se lembrando de  mais coisas. Um certo dia ele lembrou do nome Zahra. O psiquiatra perguntou “Mãe? Filha? Irmã? Esposa?”. Depois de pensar um pouco falou ”Esposa”. Depois de quase 2 anos Omar já tinha condição de viver por si. Ainda não sabia o sobrenome e idade, mas isto viria com o tempo. Teve alta e recebeu uma verba do governo para vítimas de terremotos, para que pudesse se sustentar por algum tempo.

Tomou um ônibus para Cabul. Durante a viagem, vendo tantas paisagens familiares, foi recuperando muitas lembranças. Principalmente o endereço onde Zahra esperava. Tocou a campainha e atendeu uma moça estranha. Surpreso, ele perguntou:

– A Zahra está?

– Não, ela não mora mais aqui. O noivo estava em Herat quando houve aquele forte terremoto. Procurou por ele durante mais de um ano e não achou nenhuma informação sobre ele. Conheceu um rapaz no trabalho, começaram a namorar e se casaram há uns 4 meses. Puseram a  casa à venda e eu comprei.

Quando recuperou a voz, Omar perguntou:

– Você tem o endereço dela?

– Tenho sim. Até hoje ainda chegam correspondências para ela e eu as encaminho. Aqui está anotado neste papel.

– Obrigado. Boa tarde.

Omar caminhou lentamente, sem destino. Até que se achou naquele parque onde conheceu Zahra. Ficou um longo tempo pensando no que diria para ela. E chegou a uma decisão difícil. Se ele se a procurasse, com certeza causaria uma grande perturbação na vida dela. Ele a amava muito e decidiu não procura-la, para não destruir a felicidade que ela estava conquistando. Em nome desse amor, abriu mão sua própria felicidade. Na verdade, seria feliz por amar e saber que sua querida estava feliz. Dirigiu-se para o aeroporto e comprou uma passagem para ir encontrar seus na Europa”.

Paulo, como você melhorou a história que te contei!

– Pois é Gui-Gui, e assim que espero que seja a nossa parceria. Você me conta uma história ou comenta algo que viu nas suas andanças e eu coloco na forma de um texto a ser publicado.

Mas eu notei que, em vários  momentos você parou e respirou fundo.

– Verdade. Eu pensava em tantas pessoas que passam por terremotos em suas vidas. Alguns deixam marcas no corpo; outros deixam marca na alma. Mas sempre fica algum aprendizado.

Finalizado em 24/01/2025

MINHA AMIGA GUI-GUI

Eu estava aqui pensando que gosto de escrever, mas há um bom tempo não tenho tido inspiração Isolado num apartamento deste Residencial para Idosos, fica difícil encontrar algo interessante para fazer, para pensar, para escrever. Gosto de contar histórias reais ou, quando muito, criar uma história baseada em fato real. E os fatos estão lá fora, no mundo real. Ficar contando sobre minha vida aqui dentro poderia soar como uma queixa, que existem, mas não interessam a ninguém. Escrever sobre sentimentos, especialmente um que estou vivendo, seria trocar uma sessão de análise por teclar no notebook. Além do que poderia ser inconveniente para alguns e incompreendido por outros. Até já escrevi para desabafar, mas não publiquei. Quem sabe um dia alguém ache esse texto e faça uma publicação póstuma se tiver a curiosidade de olhar meus arquivos. Certo, tenho muitos contatos no mundo das redes sociais. Quase a totalidade desses contatos são o que são. Contatos virtuais. Um ou outro, digamos, mais próximos. E outro que me dá ainda mais vontade de frequentar o mundo real.

Enquanto eu espero, não muito pacientemente…, que alguma coisa mude para melhor na minha vida estou zapeando meu olhar entre esta fria tela e o futebol na televisão, tenho a ilusão de ouvir uma vozinha:

– Oi, Paulo Celso, gostaria de te ajudar.

Meus Deus! Será que de tanto conviver com pessoas com vários graus de demência estou indo por esse caminho também? Presto atenção se há alguém no corredor ou há som vindo de outros quartos. Nada. O único ser vivo aqui no quarto, além de mim mesmo, é uma formiguinha que passeia pela escrivaninha, talvez procurando alguma migalha do bombom que comi ontem. Penso:

– “Esta formiguinha é que é feliz. Sem maiores preocupações além de achar alimento para si e para as demais formigas que moram no mesmo formigueiro”.

– Não é bem assim, Paulo. Também tenho meus problemas.

– “Francamente, fico muito preocupado. Será que estou imaginando vozes, de tanto querer conversar com alguém, aqui no meu isolamento?”

– Não, Paulo. Você não está imaginando. Sou eu, esta formiga que passeia pela escrivaninha, que estou me comunicando com você.

– Mas sua voz soa como estivesse dentro da minha cabeça.

– É uma longa história. Estamos nos comunicando pelo que vocês humanos chama de telepatia.

– Mas… como uma formiga fala comigo por telepatia?

– Acho que posso resumir a explicação para que você entenda que esta nossa conversa é real. Não é sua imaginação.

– Você conhece bem a Teoria da Evolução das Espécies. Essa evolução não ocorre só nos humanos e, talvez, para certos animais. A verdade é que a Evolução obedece a regras universais, que se aplicam a todos os seres vivos.  O resultado e a velocidade da evolução dependem do planeta em que ocorrem e da espécie inicial. Nós formigas também evoluímos. Sem saber como, nem porque, algumas de nós desenvolvemos a capacidade de nos comunicarmos por telepatia. Talvez por causa de alguma radiação atômica. Acredito que sejamos poucas que, atualmente, apresentam essa capacidade. Eu, de fato, estava farejando algumas micro migalhas de bombom quando comecei a prestar atenção nos seus pensamentos. Usualmente não nos comunicamos por telepatia, a não ser entre nós. ”Ouvindo” seus questionamentos resolvi verificar se posso te ajudar. Afinal eu posso circular livremente pelo que você chama ‘o mundo exterior’, a menos que ocorra algum acidente.

– Nossa!, custo a acreditar que estou conversando com uma formiga. Só me ocorre agradecer à Providência Divina pôr à minha disposição um auxílio que nem sei como usar.

– É fácil. Como eu não tenho limites, a não ser distâncias e acidentes, vou circular por aí prestando atenção em coisas que eu posso contar para você e que talvez possa servir de inspiração para seus textos.

– Puxa, isso é mesmo possível. Mas, como vou saber que é você?

– Me dá um apelido. Quando você vir uma formiga andando pela escrivaninha me chama pelo apelido. Se não for eu você não terá resposta.

– Tá bom. Você será minha amiga Gui-Gui.

-Fechado! E não se preocupe se eu demorar. Coisas interessantes não aparecem a toda hora. E o que são metros para você são quilômetros para mim. Fui…

Não vejo a hora que a Gui-Gui volte.

Escrito 05/12/2025

MADALENA VESTE DASRU

São oito horas da manhã de sexta-feira. Parado na Ver. José Diniz, esquina com Joaquim Nabuco, no coração comercial do Brooklin. Aguardo o sinal verde para continuar meu caminho para o trabalho. Como gosto de fazer, observo os pedestres que passam na sua faixa. Sempre há coisas interessantes. Nem sempre como desta vez. Minha atenção é despertada por uma figura que parece deslocada, no tempo e no espaço. Tentarei descrevê-la.

Sem dúvida, é uma moradora de rua. Afinal, está descalça e aparentemente há muito tempo. Parece uma mulher, mulata, mais por dedução do que por algum indicador óbvio.  E a razão da minha dúvida é que ela está usando um vestido negro. Mas não um vestido negro qualquer. Parece ser composto por três peças diferentes que algum estilista juntou num traje único. Uma saia quase plissada, rodada, larga, que vai até os joelhos. Uma blusa simples, sem qualquer recorte ou detalhe, com decote moderado em forma de “U” e mangas que vão justas nos braços até a altura do cotovelo. E um capuz muito grande e largo, estilo capuchinho, que ela usa sobre a cabeça, escondendo-a completamente. Essa indumentária inusitada, aliada a uma esbeltez diferente da magreza faminta é que me fazem chegar à dedução inicial. Para tornar a aparição ainda mais surpreendente, ela parece flutuar seus cerca de 1,70m sobre o asfalto, com seus passos miúdos e elegantes que transformam a faixa de pedestres numa passarela. E, para arrematar, ela tem um surpreendente pudor. Sob esse vestido, que parece já ter se exibido em cenários sofisticados, ela usa uma surrada bermuda jeans. Conforme ela desfila, isto é…, passa, a saia esvoaça e deixa ver essa bermuda. E ela, nervosamente, puxa a saia para baixo para esconder a bermuda (ou as delgadas pernas?).

Ela some do outro lado da avenida e, enquanto continuo meu caminho, dou espaço à imaginação. Quem será Madalena?  É, acabei de batizá-la assim, por uma série de razões que cada leitor pode imaginar. Ela foi uma dessas tantas moças que sonham com o sucesso da Gisele Bundchen. Ralou bastante e descolou uma grana para fazer seu book. Foi para a porta da agência cavar seu espaço. E encontrou o começo do seu destino tão difícil. Um descobridor de belezas a viu e achou que tinha potencial, no que não errou. Convidou-a para um teste. Pena que era o famoso teste do sofá. O teste foi muito bem, mas só ele se beneficiou. E o teste se repetiu muitas vezes. Ela passou a ser conhecida como “a menina do caça talentos”. Com essa imagem ela jamais conseguiu um trabalho como manequim. O mais longe que chegou foi ser ajudante em um atelier de alta costura. Um dia, ela acordou para a realidade. Olhou para tantas como ela, que acabaram indo para a prostituição e as drogas. Ela não quis isso. Tinha a dignidade que recebeu um dia como única herança dos pais. Ganhou, como agradecimento da modelo a quem ajudava, um vestido negro já sem serventia. Esse mesmo que chamou minha atenção. Com ele e uma inesgotável esperança, foi para a rua onde continua na expectativa que um caça talentos bem intencionado a redescubra. Mesmo que esteja desfilando um vestido velho “Das Ruas”, na passarela de asfalto. E imaginando um narrador dizendo: “Aí vem Madalena, que veste DasRu”.

Escrito por volta de 22/07/2021

NOTA

Quando escrevi este texto, fazia sucesso em São Paulo o espaço ultra luxuoso DasLu, derivado da Boutique batizada pelo nome DAS sócias LUcia e LUrdes.

FRUTOS DO MAR

Depois das massas e do churrasco, meu prato predileto são os frutos do mar. Mas é uma competição cabeça-a-cabeça. Hoje vou falar um pouco das doces lembranças que tenho desse meu gosto pelas coisas do mar.

Quando estou, ou estava, na praia sempre dou prioridade aos peixes & Cia. Na época de Peruíbe eu me deliciava. Já contei sobre a tainha recheada, uma delícia inesquecível. Mas em primeiríssimo lugar está o Marisco Lambe-lambe. Perdi a conta de quantas vezes comi esse prato no restaurante Mar Del Plata, na Ponta da Praia de Santos. Não sei se ainda existe. Esse prato fica na lista de entradas, mas eu pedia meia porção e comia como prato único. Trata-se de uma espécie de risoto, muito úmido e rico em cebola e tomate. O marisco, na casca, vem dentro desse risoto. E é impossível comer com garfo e faca. Então se pega com a mão e chupa o marisco com o risoto que estão dentro da casca. E chupa; e depois chupa os dedos. Deu para entender porque lambe-lambe?

Também na Ponta da Praia, há (ou havia?) o Clube dos Pescadores tinha um fantástico self service, com muito peixe. Quando era época, faziam o festival da tainha. Era tainha de tudo quanto era jeito. Adivinha quem não perdia essas festas?

Um dos pratos mais fantásticos da culinária espanhola é a Paella. Sempre que posso, como. Lembro-me de três especiais. Uma é do Restaurante Los Molinos, numa travessa da rua Cel. Diogo, no Ipiranga. Outra é a que comi da casa do meu colega Alfério, numa comemoração da formatura da FEI. Eram cerca de 40 pessoas e ele fez a paella numa paellera enorme. E a terceira, comi na casa da minha prima Mirian, de Santos. Ainda tínhamos a companhia da minha madrinha Wilma e da minha irmã Maria Rita. Quem fez foi meu primo Sérgio, casado com a Mirian. Foi indescritível. Basta dizer que mal se via o arroz, totalmente coberto com os camarões!! De comer ajoelhado como costumo dizer de algum prato muito especial. E ainda ele me explicou que o nome do prato significa “para ela” em espanhol. O inventor teria dedicado o prato a sua amada…

Durante uma época tive um chefe escocês que adorava um bom prato e um bom whisky. Quando estava com ele, aqui, no Rio ou em Rhode Island, as noites eram gastronômicas. Uma dessas noites ele quis ir ao Dom Curro (como pessoa jurídica…). Ali me ensinou a comer “hilo”. É um peixe comprido, como uma manjuba, mas bem mais fininho, como diz o nome. É servido como aperitivo, imerso no azeite de oliva espanhol.

Enfim, para relembrar minhas rodas de piada, vou contar uma piada antiga cujo tema é peixe. Desculpe se eu escandalizar alguém.

Um laboratório farmacêutico resolveu montar um restaurante para funcionários e, eventualmente, visitantes. Encarregou o RH e o Marketing dessa tarefa. O Gerente de Marketing pediu para o RH contratar um chef para montar o cardápio. E teve a ideia de batizar os pratos com nomes de produtos farmacêuticos. Que bela sacada!!

Quando o cardápio estava pronto, o chef levou para o RH aprovar. O Gerente ficou surpreso com a lista de pratos:

Vitamina C

Novalgina

Cebion

Etc. etc.

E o último era Hipoglós. O Gerente de RH achou muito criativo mas estranhou este último. E perguntou o que era. O chef explicou:

– Hipoglós é Pacu Assado…”

Escrito em 03/02/2021

CHICO

Pode ser pequeno ou criança, em espanhol. No caso do meu padrinho Francisco de Assis Affonso, era o apelido. Muito poucas vezes ouvi alguém chamá-lo pelo nome. Até para minha madrinha Wilma ele era o Chico. De “chico” ele só tinha o lado criança. No mais, ele era um homem grande. Corpulento, sempre muitos quilos a mais que o ideal. Cabelos quase sempre desgrenhados e as mãos sujas de graxa e restos de piche. Um coração inocente e enorme o fazia parecer uma criança, mesmo com os cabelos e o bigode fininho logo acima dos lábios já branqueando. Tinha pouco estudo, mas procurava se informar lendo bastante. Li muitos dos livros da sua pequena biblioteca.

Chico trabalhava com restauração de baterias, para carros, caminhões, motocicletas, embarcações, enfim o que aparecesse na oficina e precisasse de energia elétrica para se movimentar. Era um trabalho semi-artesanal, feito nos fundos daquele chalé de madeira na rua Augusto Paulino, bairro do Campo Grande, em Santos. Acho que ele e o sogro Ameleto eram competentes, pois o movimento da oficina era intenso. Eu adorava ficar vendo como aquelas carcaças de bateria iam tomando nova vida, com novas placas e separadores, bornes de chumbo reconstruídos por fusão em micro moldes e, finalmente, o que mais me fascinava: a vedação com piche derretido pelo maçarico e despejado lentamente nos contornos da bateria. Quando eu não estava brincando com meus primos Márcio e Mirian embaixo do chalé, suspenso em colunas de alvenaria estava xeretando o trabalho na oficina. Para desespero da minha madrinha, com medo do possível contato com ácido sulfúrico, chumbo derretido e piche aquecido escorrendo como mel (na época ninguém falava de coisas como ecologia e segurança no trabalho…). Durante muitos anos, passei a maior parte das minhas férias de fim de ano na casa da minha madrinha. Primeiro naquele misto de chalé e oficina. Depois, quando as coisas começaram a melhorar, já adolescente, no apartamento da rua Vergueiro Steidel, no Embaré.

Tenho muitas lembranças gostosas daqueles anos. O jipe Hansa (parecia muito com um Land Rover de hoje) que meu padrinho Chico usava para transportar carcaças velhas de baterias a serem recuperadas. Várias vezes fui com ele em excursões de compra na região do ABC. Era uma verdadeira aventura. A direção do bicho tinha quase uma volta de folga e a viagem era pelas curvas íngremes e fechadas do velho Caminho do Mar. Mais de uma vez o Chico tinha que manobrar (dar ré e tudo!) para conseguir fazer curvas na descida, com a traseira do jipe cheia de baterias sucatadas. Nesse mesmo jipe Chico levava a família para passear e até em viagens. Desse jipe eu caí no meio da rua, quando a porta se abriu numa curva, no dia do casamento da minha irmã Maria Lúcia.

Teve também uma vez que, jogando bola com a molecada na rua de areia, chutou o muro da casa e o dedinho ficou “como um estrupício” (termo que ele usava muito). Ele ficou muitos dias trabalhando e dirigindo o Hansa com esse dedinho atado com um pedaço de pano, até que foi ao médico e descobriu que estava quebrado. Não me lembro que ele tivesse se queixado, embora devesse estar doendo bastante. De outra feita me lembro o quanto se preocupou e correu para atender um empregado da oficina. Chico pediu que o Zé (vou chamá-lo assim para simplificar) verificasse se o piche estava quente. Isto é, o que ele queria saber é se o maçarico já havia derretido o piche a ponto de poder ser derramado para selar a bateria. Pois não é que o Zé enfiou o dedo no piche derretido?! Foi uma loucura de berros de dor e o Chico saiu alucinado com o jipe, levando o Zé para a Santa Casa, aonde chegou em poucos minutos, certamente com  a ajuda daquele anjo da guarda especial que todas as crianças têm.

Mas o Chico tinha um problema. Não um probleminha. Mas um problemão. Ele não sabia resistir a um bom copo de bebida alcoólica. As garrafas e o balcão dos bares tinham um fascínio irresistível sobre ele. Numa época em que alcoolismo era considerado um vício e não uma doença, todos em volta do Chico sofriam com essa compulsão, sem saber como fazer para ajudá-lo. Volta e meia minha madrinha percebia que o Chico sumira da oficina e chamava:

– Márcio!

Ou:

– Mirian!

E, às vezes:

– Paulo!

– Sim?

– Vai buscar seu pai (ou seu padrinho) na padaria.

Quem era chamado, ia. E, invariavelmente, lá estava o Chico, encostado no balcão tomando alguma. Ele não falava nada. Largava o que estivesse fazendo e voltava ao trabalho. Quando a madrinha Wilma bobeava um pouco esse tempo na padaria se alongava demais, especialmente no finalzinho do expediente, e o Chico ficava embriagado. Mas até aí o seu lado criança aparecia. Ele se tornava um cordeirinho inofensivo. Sentava num canto e “apagava”. Não tenho lembrança de que tenha sido violento algum dia em que eu estivesse presente. Ele sabia que a esposa e os filhos o amavam, mesmo na embriaguez, e se desesperavam por vê-lo naquele estado. Talvez por isso, ele simplesmente desligava, para não machucá-los ainda mais. Quando se mudaram para o Embaré, foi um problema. A oficina continuou no chalé e a madrinha já não tinha mais como mandar buscar o Chico na padaria. E ele fazia um esforço para não exagerar. Quando passava da conta, aproveitava que estava na padaria e encomendava toneladas de frios e queijo e pães para o lanche da família. Ao chegar à casa com tais pacotes a madrinha já sabia:

– Xi… a coisa ‘tá feia hoje…

E assim a vida foi seguindo seu caminho. Eu casei, meus primos casaram e tomamos caminhos que nos afastaram durante muito tempo. Um dia eu soube, pela minha mãe, que o padrinho Chico e a madrinha Wilma haviam se separado e ele foi para alguma outra parte deste mundo. Depois de um tempo, que já não sei quanto, soube que ele partira para outra parte do universo. Fiquei, lá dentro das minhas memórias de infância e juventude, com uma sensação de remorso por ter perdido o contato com ele. Por isso resolvi escrever esta homenagem ao Francisco de Assis Afonso. O Chico, meu padrinho. Um homem bom, de vontade débil mas de um coração enorme.

10 de julho de 2008

Republicado em 15/04/2026

AMIGA OCULTA

(Nota do autor: texto apoiado em uma história real que a Viviane, minha esposa, me contou)

Ainda a bordo da Aero México, aguardando no corredor da primeira classe o desembarque para sua primeira visita a São Paulo, Dom Miguel Velazquez repassava mentalmente seus planos para os próximos dias. Primeiro, concluir as negociações com Geraldo, para abertura da filial da empresa na Ciudad de Mexico. Depois, um pouco de turismo gastronômico e cultural. E, para encerrar, comprar alguns presentes especialíssimos para amainar a doce saudade que já estava sentindo. Bem, a primeira etapa deveria se concluir naquela mesma tarde e seria comemorada com um jantar na casa de seu novo sócio. As outras, ele comentaria durante esse jantar para ouvir sugestões.

Concluídas as negociações comerciais, Dom Velazquez foi para o hotel, preparar-se para o compromisso noturno. Ao chegar à casa de Geraldo, este o apresentou a sua esposa Vanessa. Miguel ficou instantaneamente impressionado com a beleza e a elegância de Vanessa; após poucos minutos de conversa, já se encantava também com sua inteligência e perspicácia. Ao final da refeição, comentou sobre seus planos e pediu algumas sugestões, especialmente para as compras. Vanessa perguntou:

– O que você pretende comprar?

– Estou pensando, especialmente, em vestidos de festa. Mas não tenho nenhuma idéia sobre o que e onde comprar. Você poderia me ajudar?

Sabendo das posses de Miguel, Vanessa sugeriu:

– Consigo liberar minha tarde de amanhã para acompanhá-lo à Daslu. Ficaria bom apanhá-lo em seu hotel às 14h00?

Miguel pensou que a essa hora já teriam assinado os contratos e aceitou a oferta. Na hora combinada, lá estava Vanessa preparada para ser bem recebida na loja. Isso aumentou ainda mais o encantamento de Miguel. Logo Miguel se interessou por alguns vestidos de Valentino. Quando pediu para vê-los, comentou com Vanessa:

– Não sei como avaliar um vestido pendurado num cabide, nem que tamanho escolher.

– Sua esposa tem mais ou menos o porte de alguém aqui da loja?

Miguel olhou em volta, depois olhou mais detalhadamente para Vanessa e disse:

– Ela tem exatamente o seu porte. Inclusive tem o mesmo tom de pele e a cor dos cabelos. O que ficar bem em você ficará bem nela.

Com toda a cortesia que o novo sócio de seu marido merecia, Vanessa iniciou o “desfile”. Experimentou bem uns dez modelos. A cada um Miguel se dizia deslumbrado. Acabou escolhendo os três que Vanessa avaliou como os mais sensuais. Ele pagou em dólares, agradeceu muito a ela e retornou ao hotel. Na noite do dia seguinte partiu de volta para casa. Vanessa retomou suas atividades e tudo indicava que esse desfile ficaria apenas como lembrança de uma tarde diferente. Até que dois meses depois Geraldo chegou a casa com uma novidade:

– Don Miguel Velazquez vai fazer uma inauguração festiva do novo escritório e nos convida para o evento. Acho que não podemos recusar esse convite.

E, uma semana depois, lá se foram os dois para o México. Lá chegando, havia no hotel um envelope com um bilhete que dizia:

Hoje é aniversário do meu marido. Gostaria de tê-los para o jantar surpresa que estou organizando. Meu motorista os buscará às 21h00. Se não puderem vir é só me avisar pelo telefone abaixo”.

Assinado: Esmeralda

Ao chegarem à casa de Miguel, foram recebidos por ele à porta, que logo lhes apresentou Esmeralda. Vanessa quase não conseguiu disfarçar sua surpresa. Esmeralda era uma mulher tipicamente mexicana. Em relação a Vanessa era uma mulher mais ou menos 10. Dez quilos a mais e dez centímetros a menos… Mas Esmeralda não se conteve:

– Miguel, foi esta mulher que experimentou os vestidos que você me trouxe?!

E, virando-se para Vanessa:

– Quando Miguel retornou do Brasil, suas malas se extraviaram. Uns dias depois elas foram entregues em casa. Ele me pediu para não abri-las, mas eu achei que não me custaria nada já ir guardando as roupas. Achei então os vestidos. Quando ele chegou, à noite, perguntei o que era aquilo.

– São uma surpresa que trouxe para você…

– Fui experimentar e nenhum serviu para mim, é lógico.

Esmeralda continuou:

– Perguntei: Miguel, como você comprou estas roupas?

– É… Eu pedi ajuda à esposa do Geraldo. Ela até vestiu algumas roupas para eu ver. Quando escolhi o que comprar, ela me perguntou seu tamanho. Como eu não soubesse, acabei trazendo estes, imaginando que pudessem ser ajustados, se necessário.

Esmeralda completou:

– Como você percebe, Vanessa, os vestidos acabaram sendo doados para um leilão. Ainda bem que não aconteceu o mesmo com brincos que ele me trouxe, que são exatamente do meu gosto.

Vanessa ia começar a falar, quando notou a expressão de Miguel. Os dedos crispados em torno do copo de whisky, o rosto pálido e olhos suplicantes. Então ela demonstrou toda sua classe, inteligência e habilidade social:

– Pois é, Esmeralda. Foi culpa minha. Nem sequer tive a curiosidade de pedir a Miguel uma foto sua para estimar o tamanho dos vestidos. Eu deveria ter tomado mais cuidado. Os homens são péssimos para compras! Desculpe, foi minha falha.

Geraldo logo conduziu a conversa para outros temas e o jantar transcorreu num ambiente bem descontraído. Ninguém mais falou sobre os vestidos.

Um mês após o retorno ao Brasil, Vanessa recebeu uma encomenda pela FEDEX. Dentro da caixa, enviada por Don Miguel Velazquez, havia um estojo com um lindo e sofisticado colar de prata mexicana. Suficientemente econômico para não despertar ciúmes em Geraldo, mas suficientemente belo para combinar com Vanessa. E um pequeno bilhete que dizia:

“Muchas gracias.

En mi nombre, de míos dos hijos e de los 23 años de mi matrimonio.

Miguel”.

Escrito em 06/05/2008

Publicado em 23/07/2021

Republicado em  18/03/2026

ACERCA DE PÂNTANOS

Ao longo de sua vida Jonas Galvão formou uma fazenda que era um brinco, de bem cuidada e produtiva. Uma parte era dedicada à criação de gado leiteiro. Em outra, havia o cultivo de café e manga. E uma terceira parte, de tamanho expressivo, era ocupada por um pântano. Ocupado em cuidar e desenvolver as áreas secas, José deixou o pântano entregue a sua própria sorte. Quando José faleceu, seu filho Mário assumiu o comando da Fazenda Galvão.

Logo Mário percebeu que o pântano atrapalhava a expansão dos negócios da fazenda. Além da área ocupada, havia uns jacarés que habitavam o pântano e vez por outra atacavam um bezerro ou amedrontavam os empregados da fazenda. Então ele resolveu acabar com pântano. Chamou seu tratorista Carlos e falou:

– Carlos, quero que você deixe um pouco suas atividades normais e faça a drenagem do pântano.

-‘Tá bem, seu Mário. Quanto tempo o senhor acha que isso vai levar?

– Bom, Carlos, se você terminar em uns três a quatro meses já será bom.

No dia seguinte Carlos entrou no pântano para ver como poderia executar sua missão. Quando ainda procurava achar uma forma de fazer a drenagem, um jacaré veio para cima dele. Por sorte ele estava com um grosso pedaço de tronco na mão, que usou como porrete. Acertou várias vezes o jacaré que afundou, morto ou nocauteado. E assim foi se passando o tempo. Cada vez que Carlos se movia um pouco mais aparecia um jacaré e ele “dá-lhe bordoada”. Passado um mês, Mário foi até o pântano:

– E aí, Carlos, nenhum progresso na drenagem?

 – É… seu Mário. Não estou conseguindo drenar o pântano. Mas estou cada vez com mais prático de bater nos jacarés…

Mário achou que era hora de contratar um especialista. Acho no Google um bom Drenador de Pântanos. Luis chegou com vários equipamentos e prometeu drenar o pântano em 60 dias. Mal entrou no pântano e descobriu o que Mário não lhe contara: e “dá-lhe bordoada” nos jacarés. Depois de um mês, Mário foi ver o progresso do trabalho. Imagine qual foi o “relatório”:

– É… seu Mário. Não estou conseguindo drenar o pântano. Mas estou cada vez com mais prática de bater nos jacarés…

Desacorçoado, Mário dispensou o trabalho de Luis e ficou sem saber o que fazer. Pouco tempo depois, conversando com um amigo, falou sobre essa sua dificuldade. O amigo sugeriu:

– Olha, Mário, tenho um conhecido que foi engenheiro uma hidroelétrica. Ele nunca entrou numa fazenda mas, quem sabe?,  ele possa te dar alguma sugestão.

– Está bem peça para ele me procurar.

O engenheiro Pedro foi muito solicito e marcou uma visita à Fazenda Galvão. Mário lhe contou seu problema e pediu a Pedro se poderia lhe dar uma indicação sobre como resolver o problema. Pedro aceitou o desafio, como um trabalho de consultoria. Não era um serviço barato, mas Mário teve a sensação de que Pedro iria ajudá-lo:

– Em quanto tempo, Pedro, você acha que achará uma solução para drenagem do pântano?

Pedro respondeu:

– Não sei… Tudo depende do que eu observar e do que conseguir estudar. Com base na minha experiência em implantação de hidroelétricas, eu diria que terei um diagnóstico em 30 a 60 dias.

Depois de 30 dias, Pedro pediu a Mário para ser acompanhado por um funcionário portando uma marreta. Mário foi junto. Andaram uns 15 minutos à beira do pântano. O pântano foi se estreitando até não ser mais que um pequeno filete de água. E logo esse filete passou por baixo de uma pedra e sumiu. Pedro mandou o funcionário destruir a pedra. Depois da pedra havia um pequeno declive por onde a água continuava seu caminho até um rio nas proximidades. Retirada a pedra que impedia seu caminho, o filete de água engrossou até se transformar num riacho, que recebia a água do pântano e ia até o rio.

Em dois dias o pântano estava vazio e logo poderia ser usado para plantio. Em vista do resultado, Pedro emitiu a Nota Fiscal pelos seus serviços. No valor de R$ 100.000,00. Mário ficou espantado, pois ele só usara o serviço do seu funcionário e uma ferramenta da própria fazenda. Mandou um e-mail para o Pedro, pedindo explicação pare esse valor tão alto. Pedro respondeu em seguida:

Destruir a pedra…………………………………………..R$1.000,00

20 anos de estudos e experiência para saber

que havia uma pedra a ser destruída……………R$99.000,00

Começado há mais 30 anos e terminado em 21/03/2026

A COR FINAL

Água

A chuva é branca

O rio é barrento

E o mar é azul

Firmamento

A nuvem é branca

A fumaça é negra

E o céu é azul

Bandeira

O retângulo é verde

O losango é amarelo

E o círculo é azul

Jardim

O mel é amarelo

A abelha é preta

E a flor é azul

Calvário

A cruz é marrom

O sangue é vermelho

E o olho é azul

Vida

O encontro é azul

O amor é azul

E a saudade é amarga

Escrito em21/09/1968 – 13:45 – aula de Mec Flu

Publicado em 15/03/2022

Republicado em 20/02/2026