ANOTAÇÃO 18

Hoje (04/05) comecei a pôr data nas minhas anotações. Almocei com duas moradoras: Laura e Lívia. A Lívia é bem quieta, mas parece lúcida. Já a Laura… Passou o tempo todo me perguntando quem mandava na casa. Falei que era a Tania e ela me pediu para mostrar quem era. Expliquei que ela ficava no escritório. Elas toda hora me perguntava se a Tania tinha filho, se tinha irmão, onde morava. Eu respondia sempre que não sabia. Então ela me pedia para perguntar, mas sem dizer que era ela quem queria saber. Era para contar à polícia. A Lívia entrou na brincadeira perguntando o que ela ia falar para a polícia. A Laura respondia que a polícia sabia. Então ficava calada e logo voltava com a mesma conversa maluca… A Laura já havia me chamado a atenção porque tem um curativo na orelha direita. Acho que é alguma mania…

Para ser justo, hoje (05/05) ela apareceu sem o curativo e havia realmente um machucado na orelha. Mas logo ela voltou com o curativo e segurando dois bonecos de pelúcia no colo.

Escrito em 20/07/2023

ANOTAÇÕES 16 E 17

16 – Hoje eu estava observando as cuidadoras que ficam aqui no térreo durante o dia. Fiquei impressionado com a quantidade de gordinhas. Algumas só com sobrepeso, outras realmente obesas. Umas poucas esbeltas. Fiquei pensando se isso tem algo a ver com o trabalho. Será que ficam ansiosas por ter que cuidar de tanta gente dependente? Mais uma pergunta que deixo no ar…

17 – Hoje o jantar foi simplesmente caótico. O cardápio foi salada de alface e omelete de… alface!! Recebemos a tradicional sobremesa de gelatina quando alguns já se levantavam para sair, por julgar que não haveria sobremesa. E tivemos que comer com garfo, o que é quase impossível para muitos. E só depois que todos já tinham comido a gelatina, como foi possível, é que serviram o suco.

À tarde serviram pão francês no lanche. Era claramente amanhecido, pois estava uma verdadeira borracha, difícil de morder.

Hoje, antes do almoço, conversei bastante com o João Lins, com quem já havia conversado há poucos dias. Conversa difícil, pois ele fala bem baixinho e eu tive dificuldade para entendê-lo. Mas ele me contou, espontaneamente, algumas coisas. Tem 96 anos e mora aqui há três anos (?!?!). Teve duas farmácias, uma em Perdizes e outra na Vila Romana. Vendeu as duas, depois de ser assaltado 12 vezes. Disse que paga R$ 700,00 por mês (claramente impossível…).

Hoje o almoço foi terrível. Não pela comida, mas pela companhia. Ao meu lado uma senhora que não fala e só come comida pastosa., O problema foi com a vizinha de frente. Uma senhora que punha a comida na boca e cuspia no prato metade da garfada. Empurrava a comida para o garfo com a mão. Antes de acabar de comer a comida salgada já começou a comer a gelatina da sobremesa. Alguns pedaços da gelatina caíram no prato e ela comeu tudo junto. Pegou a salada de tomate e colocou no pote da gelatina, que já estava vazio. Empurrou os restos de comida, que ainda estavam no prato, com o guardanapo para pegar com o garfo. Acho até que ela acabou comendo um pedaço de guardanapo. Quando terminou, pegou o pote de tomate e entornou na boca, como se fosse suco. Passei o almoço quase todo com os olhos enfiados no meu prato, pois cheguei a sentir náusea. Desse em diante nunca me sentei na mesma mesa que ela.

Escrito em 18/07/2023

ANOTAÇÕES 15 E 16

15 – Eu já havia notado a mania do Heitor de sentar-se sempre na mesma poltrona, colocada sempre na mesma posição. Quando ele chegava e a poltrona não estava no lugar “certo”, pedia para alguma cuidadora colocar uma lá; às vezes ele mesmo ia arrastando uma. Pois hoje a Yara sentou-se lá antes que ele chegasse. Uma cuidadora me contou que ela é muito encrenqueira. Então, acho que foi de propósito, só para arreliar com o Heitor. Quando ele chegou, dirigiu-se à “sua” poltrona e começou a discutir com ela. Dizia que a poltrona sempre fora dele. Ela olhava e dava de ombros, dizendo que ninguém era dono de nenhuma poltrona. Ele começou a gesticular e elevar a voz, dizendo para ela sair. E ela o ignorava. O atrito começou a tomar proporções de briga. Ele estava prestes a tirar a Yara da poltrona à tapa. Foram precisas três cuidadoras para apartar a briga e convencê-lo a sentar em outra poltrona que trouxeram e posicionaram com vista para o refeitório.

16 – Uma cuidadora muito notável era a Patrícia. Uma negra (posso chamá-la assim?) enorme, alta, gorda e muito divertida. Ela se diz gordinha, mas parece a Preta Gil no auge da sua obesidade. Eu a conheci um dia que veio me pôr no banho. Enquanto eu fazia a barba, ela falava com alguém no celular. Ouvi ela se   despedindo assim: “Então, boa tarde. Para você é boa tarde, mas para mim ainda é bom dia”. Fiquei curioso e perguntei onde estava a pessoa com quem ela falava. Ela respondeu: “na Nigéria”. Perguntei: “Nossa! Quem você conhece na Nigéria?”. A resposta: “Meu esposo. Ele está vindo e pediu para eu comprar a passagem de volta”. Mais uma vez não tive coragem de perguntar o que ele fazia lá…

Escrito em 14/07/2023

ANOTAÇÕES 13 E 14

13 – Finalmente encontrei um morador com quem dá para conversar. É meu vizinho de andar. Chama-se Michel e parece que não é brasileiro, pelo que me contou uma cuidadora. Fugiu da minha memória de que país ele seria. Contou que no ano passado fez uma cirurgia de câncer na bexiga e veio para cá para se recuperar. Aqui sofreu uma queda que lhe causou uma estadia de 2 meses no Hospital Samaritano e está aqui para se recuperar da queda. Falamos sobre vários assuntos e como eu estava usando meu notebook no térreo por causa do sinal fraco comentamos que o sinal nos quartos era muito fraco e, no térreo, muito instável. Ele me disse que a administração estava pensando em colocar uma internet mais forte, mas cobrar pelo uso. (Alguns dias depois o sinal melhorou e eu não precisava mais ir para o térreo para me conectar, mas, que eu saiba, não cobravam nada por isso)

14 – Hoje foi aniversário de 78 anos da Ester. Ela estava bem lúcida e emocionada. Na hora do lanche da tarde, a família trouxe um bolo recheado, bem gostoso, salgadinhos e guaraná. Todos cantaram parabéns e ela estava bem feliz. Depois foi o dia da música e o cantor puxou o Parabéns a Você novamente.

Enquanto eu observava essa “festa de aniversário”, pela primeira vez me despertou na mente uma questão que voltou várias vezes e para a qual ainda não tenho resposta. Por quê pessoas com tantas limitações, físicas e cognitivas, alguma inclusive sem consciência de onde estão, continuam lutando pela vida? Essa vida? Isso é vida? Será só por instinto?

Escrito em 13/07/2023

ANOTAÇÕES 12 E 13

12 – Jantei na mesa (que descobri ser de moradores com muitas limitações) em frente à Ester. Bastante confusa, mas de início parecia boa para conversar. Depois descobri que nem tanto. Até hoje não sei se o pai, o marido ou o filho também se chamam Paulo. Na hora da comida, enterrei os olhos no meu prato para não vê-la empurrando a comida para o garfo com a mão.

13 – Ricardo é o nome do meu novo vizinho do apartamento em frente. Por duas vezes entrou no meu apartamento pedindo cigarro. Perguntei para a cuidadora se era permitido fumar. Ela disse que sim, se a família permitir. Mas só um cigarro por dia (o que se verá não ser verdade). Acabou de sair daqui para saber se a TV está funcionando. Também me preguntou se eu tinha fósforo e, mais uma vez, expliquei que não fumo. Depois de poucos dias sumiu. Perguntei por ele à cuidadora e ela explicou que ele só tinha vindo por uns dias, enquanto a família estava viajando.

Escrito em 11/07/2023

ANOTAÇÕES 10 E 11

10 – Segundas e sextas-feiras vem um músico animar a turma. Toca violão e canta músicas da época da juventude dos moradores. Eu ainda não tinha assistido, por duas razões: primeiro, porque na hora da apresentação eu ainda costumava estar no quarto e, segundo, porque só fui descobrir essa atividade quando a cuidadora me perguntou se eu não ia descer para ouvir música. Todo mundo canta os refrões. Até eu acompanhei, de longe. Um dos moradores, o Valdir, ensaiou uns passos com uma das cuidadoras. Estas gingavam bastante para animar o ambiente. Achei um ótimo momento de relax. Voltarei ao assunto em outra anotação.

11 – Hoje me sentei para almoçar ao lado do Heitor. Pouco fala, bem desligado. Uma cuidadora me contou que ele foi um juiz de direito. Tem sempre uma revista na mão, que lê atentamente. Depois descobri que é sempre a mesma… Tem uma tabela dos horários das refeições e vive cobrando as cuidadoras para avisá-lo quando for hora de ir para o refeitório. E reclama quando o horário não é cumprido. Tem a mania de sentar-se sempre na mesma poltrona, que acha que é só dele e fica posicionada com vista para o refeitório. No quarto também quer que a poltrona fique sempre com a mesma vista e faz o maior tumulto quando essa poltrona é mudada de lugar, por alguma cuidadora que não o conhece. Este Heitor também voltará em outra anotação.

Escrito em 06/07/2023

ANOTAÇÕES 7, 8 E 9

7 – Demorei um pouco para saber o nome dela. Sabia que era minha vizinha de andar porque, enquanto eu estava no quarto, ouvia-a chamando as cuidadoras o tempo todo. E elas, sabendo como ela era, respondiam; “Já vou, Dê”. Via de regra ela pedia que a tirassem de lá. Depois de algum tempo uma cuidadora a levava para o térreo. Era uma operação meio delicada. A cuidadora dava as duas mãos para ela e ia caminhando de costas. Ela dava passinhos miúdos e ia meio que sendo puxada. No térreo a colocavam em algum assento disponível. Numa dessas ela sentou ao meu lado. Conversamos bastante, assuntos diversos, que não registrei. Pareceu-me lúcida, mas não conseguia alimentar-se sozinha; alguma cuidadora tinha que dar-lhe a comida na boca. Durante nossa conversa contou que está aqui há três anos. Depois a Marly me confirmou. A Marly me contou que ela tem um namorado, no 3º andar. Já os vi juntos algumas vezes e já vi esse senhor passando pela minha porta para visitá-la. Na véspera do Dia dos Namorados, calhou que eu almocei com esse senhor (cujo nome esqueci de perguntar). Ele tinha um pacote para dar de presente para a Dê, mas disse que só ela achava que eram namorados… Outra vez não tive coragem de perguntar por que morava no Residencial. Será que um dia terei? Acho que os motivos não devem ser nada agradáveis…

8 – Alguns dos/das hóspedes têm manias diversas como sentar sempre no mesmo lugar, pegar papel toalha para usar como guardanapo etc. Hoje almocei com uma senhorinha que está sempre em companhia de outra. Acho que elas moram no mesmo quarto, mas pouco se falam. Enquanto esperávamos o prato, ela ficou tirando sujeira imaginária da toalha. Pegava alguma fagulha inexistente, com as pontas dos dedos e “jogava no chão”. Ou varria, com a mão aberta, a suposta sujeira, também para o chão. Compartilhei a mesa com elas várias vezes e era sempre o mesmo ritual.

9 – Hoje jantei com a Serafina. Baiana conversadeira, de Salvador (isso é pleonasmo?…rs.). Contou que tem cinco filhos, cinco netos e três bisnetos. Contou muitas coisas da vida dela, mas foram tantas coisas que não consegui guardar. Num determinado momento ela usou o termo “frege” para significar confusão. Cai na gargalhada e perguntou do que eu estava rindo. Respondi:

– Porque minha avó materna usava essa mesma expressão e eu nunca mais havia ouvido alguém falar “frege”.

Ela me disse que essa expressão é muito usada na Bahia. Conversamos sobre Salvador, as comidas baianas, os locais de turismo e eu relembrei a primeira vez que fui para lá a passeio e outras tantas vezes a trabalho. Acho que ambos gostamos das reminiscências. Foi a primeira pessoa com quem consegui estabelecer um diálogo mais longo. Ela tem mais problemas de mobilidade e um pouco de limitação cognitiva. Sentei com ela à mesa várias vezes, mas nem sempre conversamos tanto como essa primeira vez.

Escrito em 03 e 04/2023

ANOTAÇÕES 3, 4, 5 E 6

3 – João Lins. Sentei ao lado dele no almoço. Magrinho, cabelos brancos e espessos. Fala bem baixinho, o que dificultou entender uma boa parte do que falava. Não aparenta problemas sérios de cognição. Falou que está aqui há um ano e meio. Ele voltará em outra anotação.

 4 – Tenho raciocinado que as equipes podem fazer a diferença, para melhor ou para pior, em qualquer organização. Aqui as cuidadoras e a maioria das enfermeiras tornam suportáveis os problemas administrativos que, graças a Deus, são poucos.

5 – Marly é uma cuidadora recém-admitida, pois está havendo uma troca geral de todas as cuidadoras, enfermeiras, nutricionista e cozinheiro, provavelmente para diminuir o custo da mão de obra. Soube que algumas pessoas pediram demissão, como foi o caso da responsável pela lavanderia. Só para adiantar: poucos dias depois desta anotação, a máquina de lavar quebrou e ficamos quase duas semanas sem retorno das roupas que foram para lavar. A Administração deixou a roupa se acumular, ao invés de mandar lavar fora… Foi muito desconfortável, pois tive que repetir a mesma roupa vários dias e usar fralda porque não tinha mais cueca… A Marly era a cuidadora de um dos plantões do 4º andar e um dia se ofereceu para lavar uma cueca, mas não precisou porque o Edgar tinha trazido mais duas. Fazia parte da equipe nova. Cuidou de mim de forma exemplar. Poderia escrever algumas páginas sobra a atuação dela.

6 – A Sol é uma cuidadora que atua na área de estar, no térreo. Imagino que seja da equipe antiga. Serve de referência para as demais cuidadoras. Além de muito simpática, também me ajudou muito. Foi com ela que aprendi a usar o banheiro do térreo quando ainda estava na cadeira de rodas. Quando eu já estava usando o andador, sempre me avisava que era para ir para o refeitório. Servia as refeições e ajudava a dar comida para moradoras que não podiam se alimentar sozinhas.

A cada dia eu admirava ainda mais esses verdadeiros anjos, que se empenhavam ao máximo para que moradoras e moradores se sentissem seguros, confortáveis e queridos.

Escrito em 30/06/2023

ANOTAÇÃO 2

Tenho notado um figura interessante. Fomos apresentados e eu entendi que ela se chamava Lídia. Logo me corrigiu falando bem de perto, notando minha perda de audição:

– Ligia… Ligia… Ligia.

É uma moradora fora do padrão aqui do Residencial. Cabelo loiro (possivelmente pintado, mas bem pintado, ao contrário de outras senhoras). Cabeça projetada para a frente, como se olhando para o chão. A figura que mais se aproxima é um cisne: pescoço reto e cabeça projetada para a frente e para baixo. Sempre muito atenciosa com todo mundo. Chama todos pelo nome e faz algum gesto de carinho. Sempre com um cordão no pescoço, do qual pende uma cruz. Logo que nos conhecemos, ela já me chamava pelo nome e punha a mão na minha cabeça e de muitos outros moradores, como que abençoando. Sempre prestativa, dando atenção especial aos que mais necessitam. Quando retornei da minha ida ao hospital onde fui tirar os pontos da cirurgia, acabei ficando “esquecido” na área de lazer. Comecei a manobrar a cadeira de rodas para ir sozinho; ela viu, me empurrou e me posicionou numa mesa. Na hora das refeições ajuda a servir e tirar os pratos. Só depois se alimenta. Fala muito ao celular. Parece bem independente e autônoma. Não consigo imaginar por que está aqui.

Escrito em 28/06/2023

ANOTAÇÃO 1

A primeira pessoa com quem tive uma “conversa” foi a Alba. Conheci essa moradora quando estava subindo para meu quarto, depois do almoço. Foi um contato rápido, enquanto eu entrava no elevador. A cuidadora perguntou para onde ela estava indo.

– Estava indo para casa, mas tive que voltar porque esqueci minha bolsa.

Claro que achei estranho, mas fiquei quieto. (Pensei comigo: será que tem Alzheimer?) Alba é uma senhora de, talvez, uns 70 anos. Corpulenta, gorda mesmo, alta, sempre com um croc estampado, cabelos curtos cacheados (Afrodescendente? Pele mais para jambo). Rosto simpático, sorridente, já havia reparado nela enquanto esperava o almoço e ela sorriu para mim. Sentou para almoçar na mesma mesa que eu. Tudo ia bem até que atrasaram para trazer o prato dela. Uma outra senhora, que depois descobri que se chama Carmen, fez um sinal pedindo que trouxessem a comida dela. Para minha enorme surpresa ela se enfureceu:

– DA MINHA VIDA CUIDO EU! NÃO PEDI PARA ME AJUDAR!   

Fora esse momento, sempre mostra doçura. Hoje jantei com ela. Conversou normalmente. Na hora da sobremesa, não conseguia abrir o pote da gelatina e eu abri. Ela agradeceu e comeu tudo. Quando chegou a minha sobremesa, ela achou que era dela. Falei que era minha e ela já tinha comido a dela; disse que estava distraída e não se lembrava. A cuidadora trouxe outro pote. Quando fui abrir ela disse que não, pois ia levar para o neto. Logo saiu da mesa. Quando fui levado para o salão de estar, ela estava terminando de comer o segundo pote de gelatina. Olhou bem para mim e sorriu como se nada tivesse acontecido.

Este primeiro contato mais próximo com uma moradora me fez começar a pensar o que se passa na mente de tanta gente aqui. Como não têm consciência da realidade, tendem, talvez, a serem mais felizes do que se estivessem em casa sem autonomia, observando suas limitações e dependendo mais claramente da família. Esse pensamento ficou me rondando o tempo todo em que estive no Residencial e ainda se faz presente na minha mente.

Escrito em 26/06/2023