QUERIDO DIÁRIO – dia 2

Como tudo na vida, em cada visão existe um lado positivo e outro negativo. Não podemos simplesmente ignorar o lado negativo porque este serve para melhorar aquele. Hoje vou olhar para um aspecto da TI – Tecnologia da Informação. Refiro-me aos aplicativos, também chamados de app. Não há dúvida de que este é um recurso que facilita muito nossa vida. Existe uma infinidade de app’s extremamente úteis no nosso dia a dia, para facilitar que tudo seja feito rapidamente como exige a vida moderna. Qual é o lado negativo dos app’s? Prende-se ao fato que estamos vivendo uma era de transição. Alguns nasceram na época digital, outros na época analógica. Estes últimos têm aprendido a se adaptar às novas tecnologias. O que nem sempre é fácil e rápido. Mas os desenvolvedores dos app’s esquecem do público que tem que se virar para usar a nova tecnologia. Estou me referindo aos analógicos seres humanos que já passaram dos 60 anos. E a dificuldade é maior no uso dos app’s de bancos, assistência médica, prestadores de serviço e órgãos governamentais. Cadastrar uma conta, acessar informações e resolver algum problema exige até dias para resolver um assunto que teria sido planejado para ser rápido. O atendimento “humanóide” não prevê o que fazer quando a questão não se encaixa num padrão ou quando a tecnologia não é acessível a um celular antigo ou, até mesmo, a pessoa não ter um celular. A solução desses problemas seria fácil usando o “atendimento humanizado”. Será que os desenvolvedores não conseguem ver a floresta de cima e enxergar as árvores de exigem atenção diferenciada?

QUERIDO DIÁRIO – dia 1

E vamos começar o Diário. Não sou saudosista, no sentido de “antigamente era melhor”. O que vou comentar é a diferença entre “como era” e “como é”. Sem juízo de valor. Outro dia formam divulgados os nomes dos 26 jogadores da seleção brasileira que vão para a Copa do Mundo, que começa o mês que vem. Foi apresentado um show midiático. Não dá para comparar, pois antigamente a convocação era sabida pelos jornais do dia seguinte. Mas o que faz tempo que estou observando é que aos poucos o futebol vai se tornando um grande negócio. Eu não sei o número, mas só de patrocínios, não só na Copa do Mundo, deve rolar alguns bilhões de dólares. Quando os Estados Unidos investem no desenvolvimento do esporte, num país em que o esporte é marketing (no futebol deles, no basquetebol, no baseball e até no golfe), é porque enxergaram que belo negócio é. Quando a FIFA começou a estimular os campeonatos africanos, asiáticos eu não entendi. Agora entendo. Teremos a Copa do Mundo com maior número de competidores, disputada nos três países da América do Norte. Hoje os jogadores são contratados a peso de ouro, ganham salários inimagináveis, os campeonatos são uma grande vitrine para expor os patrocínios. Quando uma camisa oficial da nossa (?) seleção custa R$ 700,00 eu fico me perguntando e o futebol? Bem, quem quiser saber mais sobre o esporte, sugiro que visite o Museu do Futebol.

QUERIDO DIÁRIO – dia 0

Já vou explicar o que é isso. A inspiração para este diário veio de uma sugestão da minha “quase prima” de Pindamonhangaba, Luiza Helena. É quase prima porque ela chama minha tia Nindá de “vó Nindá” e meu tio Ney, de “vô Ney”. Numa dessas conversas ela sugeriu que eu desse mais visibilidade ao Papo na Varanda. A plataforma onde o blog mora, WordPress, sempre me oferece a possibilidade de ter um site mais comercial. Numa conversa com a Luiza Helena eu estava me queixando que estava desanimado porque aos 79 anos, internado num Residencial para Idosos, longe da família e dos amigos, não estava vendo sentido na minha vida. Comecei a pensar em juntar várias coisas. A sugestão da Luiza Helena, as ofertas da WordPress, o formato de um site que estou seguindo (substak.com) e meu gosto por escrever. Para dar mais visibilidade ao blog é preciso ter novos posts com certa constância. E isso faria que eu tivesse mais coisas para preencher meu imenso tempo. Estou dando meu primeiro passo. Ser mais constante e, talvez até publicar diariamente. Para isso não vou usar dicas da minha amiga Gui-Gui (ver post Minha Amiga Gui-Gui). Vou experimentar escrever posts curtos, falando sobre diversos assuntos. Este diário vai estar dentro do blog. Não vou avisar todo dia. Quem quiser ver é só usar “paponavaranda.blog.br”. Só vou avisar quando publicar um texto normal. No final cada texto tem um espaço para comentários. Podem usar à vontade. Sugestões, críticas (construtivas..), opinião, etc.

INVEJA BOBA

Chamo de inveja boba aquela inveja positiva (quando queremos ter alguma qualidade parecida com a pessoa invejada) e boba por que não sabemos o sentimento da pessoa invejada. É o que vou contar a seguir.

No início dos anos 1960 fui ao casamento de uma prima, em Pindamonhangaba. Não pergunte qual prima; é pedir demais para minha memória. Bem, o casamento foi comemorado com uma festa-baile no Clube Literário. Eu estava por volta dos meus catorze anos e só havia uma menina na mesma faixa etária. Era a Vera Regina. Logo fizemos amizade e dançamos um pouco. Não sei se era parente pelo lado do meu pai ou se eram amigos antigos da família. O fato é que os pais dela, Cloé e Bruno, estavam lá. No dia seguinte, ao nos despedirmos para a volta a São Paulo, os pais me convidaram para ir à casa deles, na rua Albion, na Lapa. Depois de um tempo peguei um ônibus e fui. Foi o começo de uma gostosa amizade. Não, nunca rolou um namoro. Era pura amizade. Tínhamos intermináveis conversas e eu admirava muito o jeito dela falar. Quando fez 15 anos o pai editou um livro com as poesias dela. Intitulado “Minha Lira aos Quinze Anos!”. Fiquei maravilhado! Como eu gostaria de escrever poesias assim (aqui aparece minha Inveja Boba). Tenho esse livro até hoje, com dedicatória para minha mãe, datada de 1964. E nas minhas inúmeras mudanças sempre me lembro da Vera Regina, ao embalar meus livros.

Um pouco mais tarde ela começou a namorar o Douglas, com quem viria se casar. Eu comecei a fazer engenharia em São Bernardo do Campo. Assim cada um fez seu caminho. Passaram-se mais de trinta anos. Há cerca de uns dez anos fui ao coquetel de lançamento do livro do meu primo Armando. E adivinha quem aparece por lá? Isso mesmo. A Vera Regina e o Douglas! Foi um encontro como se tivéssemos nos despedindo no dia anterior. Como toda boa amizade. A conversa estava bem animada, quando me lembrei do livro e disse:

– Vera, ainda tenho seu livro.

E ela respondeu:

– Paulo, nem me fale desse livro… Foi ideia do meu pai, para me fazer uma surpresa. Mas eu detestei ter minhas poesias divulgadas. Era como expor meu intimo ao mundo. Nem posso ouvir falar sobre ele.

Fiquei muito surpreso e encerrei o assunto por ali mesmo. Esta é minha Inveja Boba. Ter inveja de alguma qualidade de uma pessoa sem saber se ela está satisfeita com isso. Realmente, ainda tenho o livro, que peguei para arrumar minha estante depois da minha última mudança. Talvez um dia desses eu publique uma poesia dela. Lembrei desta história e senti saudade da Vera Regina.

Escrito em 25/03/2021

PS

Dois ou três dias depois de escrever este texto, minha irmão Maria Sylvia me contou que a Vera Regina tinha acabado de morrer, segundo uma publicação da filha dela….

URDU

Quando ainda filhote, Urdu era um ursinho diferente de seus contemporâneos. Sempre disposto para brincar com os amiguinhos, exercia uma certa liderança no grupo porque estava sempre dando ideias para novas brincadeiras. Ele gostava muito de estar com os amigos porque tinha duas irmãs que se dedicavam a outro tipo de atividades. As leoas mães de seus amiguinhos sempre o convidavam para passeios. Os leões pais de seus companheiros de brincadeiras muitas vezes o convidavam para as aulas de caça, luta e farejo. Sempre aceitava, por duas razões. Primeiro, porque era muito tímido e tinha vergonha de pedir aos leões que o ensinassem essas coisas. Segundo porque seria normal aprender essas coisas com seu pai Urda, mas este tinha sido abatido por caçadores quando Urdu tinha apenas dois meses. Cabia aos pais ensinar aos filhos o que fosse necessário para se tornarem machos alfa. Ao longo de sua vida aprendeu um pouco com seus amigos, mas faltou muita coisa que lhe fizeram falta em momentos importantes de sua vida. Apesar disso sentia que era feliz com a vida que levava.

E chegou à idade do acasalamento. Foi o primeiro momento em que Urdu sentiu muito a falta do pai. Como escolher uma fêmea para acasalar? Como fazer com que uma fêmea achasse que valeria a pena acasalar com ele? Essas dúvidas, aliadas à sua timidez, faziam que ele ainda estivesse “solteiro” quando a maioria dos seus amigos já estava usando suas habilidades reprodutivas. Ele tinha vergonha de se aproximar das meninas da alcateia porque ou eram amigas das suas irmãs ou eram irmãs dos seus amigos. A única preocupação de Urdu nesse assunto era o caráter poligâmico dos leões. Se tinha dúvida sobre o acasalamento com uma leoa, que dirá com várias. Estava nessa indecisão quando uma nova família se juntou ao seu grupo. Nesse grupo estava Homa, uma leoazinha que chamou a atenção de Urdu. Bonita, jeitosa e brincalhona como ele. Nos jogos juvenis em que entravam os dois sempre se destacavam. Aos poucos Urdu começou a sentir algo diferente nessa amizade. Será isso que é o desejo de acasalar?

Resolveu convidar Homa para seu primeiro acasalamento. Ela prontamente aceitou. O que ele não sabia, e nem ela contou, é que ela já havia acasalado com outro leãozinho, da alcateia de onde vinham. Ele percebeu. Ela também percebeu sua inexperiência. Mas nunca falaram sobre isso. Por causa disso seu relacionamento sempre foi frio e distante. Mas, apesar disso, resolveram ficar juntos e parir filhotes. Logo que se passaram os quatro meses da primeira (e única) gravidez, Homa deu à luz dois leõezinhos. Foi uma festa na alcateia, principalmente dos amigos do Urdu, que conheciam bem as suas dificuldades com as fêmeas. Eram todos muito felizes. Enquanto Homa amamentava, eles se revezavam nos cuidados com os filhotes. Urdu normalmente saia para caçar enquanto os bebês mamavam. Mas, vez por outra, ele ficava tomando conta dos meninos e ela saia para caçar e relaxar um pouco. Quando os filhotes começaram a aprender a caçar, Urdu é que os ensinava. Mas, nessas aulas a caça era pouca ele saia outras vezes sozinho para reforçar a alimentação. Nessas caçadas encontrava leões e leoas de sua própria alcateia e de outras da região. Num desses encontros, Urdu sentiu o impulso biológico da poligamia e, depois de um tempo, acabou acasalando com uma leoa que conhecera numa dessas ocasiões.

Voltou para casa quieto, sua cabeça balançando, entre Homa e os filhotes, e impulso biológico a que cedera. Home percebeu algo diferente no jeito do Urdu. Depois de um tempo resolveu ter uma conversa com ele, para saber o que estava acontecendo. E tudo veio à tona. Homa falou que entendia muito bem qual era o instinto dos leões. Mas que havia um acordo tácito de que eles constituiriam uma família diferente e ele não cumpriu. Por isso ela não queria que os filhos crescessem tendo ele como modelo. Ele deveria sair da alcateia. Urdu concordou muito a contragosto. Era mais importante a convivência dos filhotes com  a mãe do que com o pai. Só pediu a ela que ele ficasse por perto até que eles aprendessem a caçar sozinhos. Concordaram e assim fizeram. No dia em que os filhotes fizera sua primeira caçada sozinhos, Homa chamou Urdu e disse que era hora de ele ir.

Ele se despediu dos meninos e pensou que passaria a vida toda pagando por um erro, que nem era exatamente um erro, e não tinha nada a ver com os meninos. Por isso tomou uma decisão drástica. Ficou meses perambulando pelas savanas até identificar um grupo de caçadores que buscavam animais para um zoológico e não para caça. Aproximou-se sorrateiramente e se deixou capturar. Esse foi o jeito que encontrou para ficar isolado, sem ter chance de quebrar a promessa de nunca mais ver os meninos.

Terminado em 13/05/2026

POBRE ELIZA

– Oiee! Tudo bem por aqui?

– Oi, Gui-Gui! Bom te ver novamente! Que anda fazendo?

– Paulo, agora sou eu que ando sem inspiração… De vez em quando vejo alguma coisa diferente, mas eu mesmo me pergunto se seria uma ideia para seu blog e acabo descartando. Quando eu vinha chegando percebi você com um olhar distante…

– É verdade minha amiga. De vez em quando, por alguma razão, me vem alguma lembrança. Infelizmente, desta vez me lembrei de um momento triste da minha mocidade. Estava ouvindo uma playlist de músicas (muito) antigas e me deparei com esta. Uma música triste que me faz recordar aquele momento. Nem sei se seria bom contar essa história no blog.

– Conta a história para mim e te dou minha opinião.

– Tá bom. Então, lá vai.

Na época do acontecido eu andava na casa dos 16 anos. Fazia parte de uma turminha do bairro, todos mais ou  menos da mesma idade. Muitos estudavam na mesma escola. Quase toda noite nos encontrávamos numa pracinha para “jogar conversa fora”. Era um grupo saudável: não usávamos drogas, nem bebíamos, a não ser em festas e sem ficarmos bêbados; na verdade nessa época nem cigarros fumávamos. Era um grupo que jogava futebol, ping-pong, futebol de botão. E estávamos começando a prestar atenção nas meninas. Estava começando a abrir as lanchonetes. Tinha uma que se chamava Brasilian’s. E íamos muitas vezes lá para comer beirutes e ouvir música de máquina. Tirando meu amigo Zé Antônio e eu (que só tomávamos um a garrafa de guaraná), todos comiam bastante e éramos bem recebidos pelo proprietário.

Nessa época, na rua em que eu morava, havia uma espécie de cortiço onde moravam algumas famílias de pouca renda. De vez em quando algum morador passava por nós, a caminho da padaria. Sem percebermos, aí começou esta história. Chegou para residir ali, um italiano e sua família, que foi trabalhar na sapataria de outro italiano, na mesma calçada. Logo depois que chegaram, sua filha Eliza, passava entre nós para comprar pão. Chamava a atenção pela beleza. Uma garota de seus 16 anos, tipicamente descendente de italianos. Cabelos negros, levemente ondulados que chegavam aos ombros. Um corpo esbelto e bem formado. Logo na primeira vez que ela passou, ficamos todos em silêncio. Todos comentaram a beleza dela. Depois de um tempo, quando ela passava, todos davam “boa noite” e logo ela começou a responder. Um dia, um amigo mais ousado, perguntou se poderia acompanhá-la até sua casa. Ela com concordou e lá se foram os dois. O convite foi repetido e sempre aceito. Um dia, Fernando, o amigo ousado, anunciou que pedira para namorar a Eliza e ela aceitou.

Naquela época a iluminação pública era muito fraca e a penumbra da noite era favorável aos namoros, digamos, “mais intensos”. O casal começou a passear pelas ruas do entorno, primeiro lado a lado, depois de mãos dadas e, enfim, abraçados. Percebemos que de vez em quando os namorados ficavam um tempo mais longe, sem ser visto. Até que uma dia toparam com o pai dela, que ficou furioso, deu-lhe uns tapas na cara e a puxou para ir para casa. E disse para o  Fernando se afastar dela.

Fernando se juntou ao nosso grupo e começou a comentar sobre seu namoro com a Eliza. Dizia que ela era “gostosa”, tinha uma pele macia e tinha deixado ele apalpá-la em todo o corpo. E que corpo! Ele dizia. Isso despertou em alguns o desejo de conferir se o Fernando tinha razão. O Sérgio foi se aproximando, indo na padaria quando ela estava lá. Convidou-a para ir Brasilian’s. Para ela foi um convite irrecusável, um local inacessível para ela. Logo também começaram a namorar. E rapidamente o Sérgio comentou que o Fernando tinha razão. Outros também quiseram conferir. E a Eliza começou a achar ótimo ser desejada. De vez em quando o pai a punha de castigo, mas não adiantava. Ela voltava a “namorar”. Em pouco tempo ela já era conhecida no bairro. Até que pai resolveu levar a família para outro bairro.

É isso Gui-Gui. Só de contar a história já me senti mal…

– Eu percebi. No fim da história você estava ofegante. Acho que vale a pena você publicar. É triste, mas é real. E sabe-se lá quantas Elizas existem por aí… Antes de eu ir, como é nome da música?

– Pobre Eliza. Interpretada por Moacir Franco

Escrito em 07/05/2026

A WILMA SE FOI

A Wilma nos deixou no último dia 25. E ontem demos adeus a ela no Cemitério Memorial de Santos. Com ela vai também um pedaço da vida de todos que conviveram com ela. Um pedaço que é de um tamanho diferente para cada um. O pedaço maior, sem dúvida é da minha prima Mirian e seu marido Sérgio (Recebam um beijo especial de agradecimento pela dedicação e cuidado que tiveram com ela até o fim). Mas o meu não é pequeno também.

A Wilma – minha prima em segundo grau – era, acima disso, muito acima, minha madrinha de batismo. Ela foi talvez a última pessoa, que conheço, que incorporou a imagem da madrinha como segunda mãe. Recebi muito carinho e atenção dela, a vida toda. Nunca deixou passar em branco um aniversário, um Natal, um Ano Novo. Ela meu deu um espaço acolhedor no chalé da R. Augusto Paulino e depois no apartamento da R. Vergueiro Steidel. Nesses locais passei momentos inesquecíveis da minha infância e adolescência. Tantas lembranças que dariam para escrever um livro. Uma delas me vem com frequência à mente é uma vez que ela veio me buscar em São Paulo, para passar um tempo em Santos. Eu era bem pequeno, talvez por volta dos meus dez anos. Não sei por que, fomos de trem. Foi a primeira e última vez que desci a serra de trem. Tudo que me lembro é que chovia muito, o trem descia tão devagar (hoje sei que era por causa do sistema de cremalheira) que vendedores de sanduíches desciam de um vagão e iam a pé até o próximo, e eu estava muito tranqüilo ao lado da minha madrinha.

Essa foi uma madrinha especial. Ontem, alguns de seus afilhados estavam no velório: eu, minha prima Regina (Zuca), o Eduardo. Comentávamos, a Zuca e eu, com todos fomos privilegiados por sermos afilhados dela. E havia até um certo ciúme sadio entre nós para saber quem era o afilhado predileto. Isso foi como os filhos disputando o amor dos pais. Simplesmente porque ela foi mesmo como uma segunda mãe para nós.

Hoje fico com a lembrança da minha madrinha, lutadora incansável, vencedora de muitas batalhas. Que me deu tanto carinho, muitas vezes expresso pelas famosas e deliciosas empadinhas de que eu tanto gostava. Vai, madrinha, para o lado do Márcio, da Zildinha, da Juju, do Chico e de tantas outras pessoas importantes na sua vida. Não é adeus. É “até um dia, minha segunda mãe”.

Escrito em 27/11/2010

Republicado em 25/04/2026

                     

DESFILE DE CIRCO

Como sua família fazia há gerações, Quincas Camargo organizava o desfile do Gran Circus Camargo em uma nova cidade. Como sempre, a banda viria à frente, logo seguida dos trapezistas, malabaristas e contorcionistas. Depois, os animais de porte: elefantes, cavalos, tigres, leões. O próprio Quincas (QC, como alguns o chamavam veladamente) desfilava numa plataforma armada no alto do primeiro elefante, usando o megafone para anunciar as atrações do circo. Bem atrás dos animais, os palhaços e, em seguida, o restante da troupe oferecia aos assistentes uma amostra grátis caprichada dos números que seriam exibidas nas diversas funções a se realizarem a partir de logo mais à noite.

Mais uma vez, QC fazia seu trabalho pensando nos por quês dessa ordem, sempre a mesma há tantas décadas. A banda tinha que abrir o desfile, para despertar a atenção do distinto público. As formosas (ainda que à custa de quilos de maquiagem e roupas extravagantes…) trapezistas, malabaristas e contorcionistas tinham a missão de estimular os marmanjos a levarem seus filhinhos para assistir aos espetáculos. Os grandes animais representavam a força do circo e acenavam com os riscos que seus domadores correriam a cada exibição. E os demais artistas, com o caminho aberto por essa impressionante vanguarda, eram um aperitivo e um estímulo à curiosidade sobre o que seria possível ver sob a lona do Gran Circus Camargo.

E, outra vez, Quincas se perguntava por que os palhaços desfilavam logo após os animais e não no final, fechando o desfile, onde seria o lugar mais correto para seu papel de coadjuvantes. Até que, um dia…, QC entendeu essa lógica. Que não era do seu circo ou da sua família, mas de toda a atividade circense.

Quincas tinha um ego maior que o próprio circo. Não era à toa que ele desfilava no alto de um elefante e usava um megafone. Ninguém poderia ignorá-lo! E foi do alto desse pedestal que ele começou a perceber o que o incomodava nos palhaços que vinham, como já se sabe, bem atrás dele. Percebeu o seguinte: em vários momentos, os populares que, na calçada, a tudo assistiam, riam muito com os palhaços e pareciam não dar a devida atenção ao que ele anunciava. Quando se certificou que isso de fato ocorria, QC tomou uma decisão drástica. E nem discutiu sua idéia com qualquer outra pessoa do circo. Afinal, ele era o dono e ninguém sabia dirigir seu circo como ele.

Simplesmente informou a todos que, a partir da próxima cidade, os palhaços ficaram no final, encerrando o desfile. Alguns artistas não concordaram com isso, mas, por várias razões, preferiram ficar ajuizadamente quietos…

E veio o próximo desfile. Tudo começou bem. Quincas certificou-se que, agora, o público não mais deixava de ouvi-lo por causa dos palhaços. Mas… numa dessas olhadas para trás, para ver como as coisas iam, sentiu que algo esquisito estava acontecendo. O mágico deixara o coelho fugir da cartola. O comedor de fogo não conseguia cuspir aquela enorme chama de sempre. Os equilibristas pareciam… desequilibrados. Com essa amostra, muitos não iam querer pagar para ver a continuação, pensou QC.

E assim, de fato, aconteceu. A venda de ingressos foi diminuindo a cada espetáculo. QC se esmerava cada vez mais na redução de custos. O que – todos reconheciam – ele sabia fazer muitíssimo bem. Mas não adiantava. As dívidas, primeiro foram aparecendo. Depois, deram de ir aumentando! O dono do circo sentiu que poderia perder o que gerações da família Camargo haviam construído.

Numa tarde calorenta e empoeirada, estava sentado à porta de seu trailer, pensando nos problemas do circo, quando o Palhaço Germano se aproximou. Germano era um dos melhores palhaços da região e vinha comunicar sua decisão de abandonar o Gran Circus Camargo. Quincas, que, entre outras coisas, já havia renovado várias vezes a equipe de palhaços, na ânsia de resolver o problema, ficou furioso. Perguntou a Germano, arrogantemente:

– Quanto você quer para não sair?

Ao que Germano respondeu com firmeza:

– Não se trata de “quanto”, mas “o quê” eu quero para ficar aqui mais algum tempo.

– E o que é que você quer? Respondeu QC, mal segurando uma explosão de raiva.

– Basta que o senhor passe a utilizar os palhaços corretamente…

Quincas não acreditava no que ouvia. Como alguém se atrevia a lhe dizer como conduzir o seu circo? Ainda mais um palhaço! Porém, face à situação crítica dos negócios, fez um enorme esforço para se controlar e disse, com a máxima ironia de que foi capaz:

– Então, senhor sabichão, me fale alguma coisa sobre circo que eu ainda não saiba…

Germano, que se afeiçoara aos colegas do circo, respirou fundo e começou a falar, desejando que pudesse de alguma forma ajudar o QC e todos os artistas:

– Se o senhor tivesse trabalhado em outros circos, como eu e tantos outros aqui, já saberia a resposta. Que, na verdade, é muito simples.

– Não me diga!…

– Pois é, o que acontece é o seguinte. Quando os animais desfilam, a natureza continua funcionando… Aqui e ali, um animal ou outro defeca, e as fezes ficam no caminho de quem vem atrás. Por causa disso, os artistas ficam preocupados em não pisar na sujeira e perdem a concentração. Para não pisar nessas armadilhas que o grupo da frente vai deixando, cometem erros que normalmente não aconteceriam. É claro que a exibição fica pobre e o público acha que a qualidade dos números não será lá essas coisas.

– Bem – disse Quincas. E qual é a solução mágica? Fazer os bichos desfilarem de fralda, é?

– Não – respondeu Germano. É muitíssimo mais fácil. Quando os palhaços são posicionados corretamente, logo depois os animais, eles fazem o trabalho de limpeza. Ao perceberem que “a caca está feita” eles improvisam uma palhaçada qualquer e tiram a sujeira do caminho. Assim, os demais artistas podem tranqüilamente demonstrar suas habilidades.

– Ahn!… Foi tudo o que Quincas conseguiu balbuciar.

– Assim são os palhaços. Como o senhor bem sabe, quando algo sai errado no circo, são os palhaços que correm para disfarçar. Em certos momentos fazem isso tão bem que o público fica pensando que tudo faz parte do espetáculo, não é mesmo?

– Mas… mas.. e então?…

– É, senhor Quincas, os palhaços têm uma função mais importante do que só fazer graça. Eles desenvolvem a habilidade de rir quando poderiam chorar; contribuir para corrigir as falhas dos outros; e, principalmente!, colocar-se no papel de coadjuvante quando, de fato, são tão importantes quanto os demais.

Quincas estava absolutamente estupefato. Em poucas palavras Germano lhe dera várias lições. Primeiro, ninguém pode saber tudo. Segundo, é preciso valorizar o papel de cada um. Terceiro, vale a pena ouvir os outros antes de tomar uma decisão.

O Gran Circus Camargo começou a recuperar-se. Germano continuou sendo o Palhaço Germano e, junto com os demais palhaços, desfila agora logo em seguida aos animais.

Quincas já não mais aparece no alto do elefante. Ele desloca-se no meio do desfile, garantindo que cada um cumpra seu papel. Inclusive os garotos que distribuem os vistosos folhetos que falam sobre as atrações do circo. E continua sovina como sempre, no controle dos custos do tradicional Gran Circus Camargo.

Escrito em 04/09/2006

Publicado em 26/07/2021

TERREMOTOS

Já faz algum tempo que fiz amizade com a Gui-Gui. Ela bem que me alertou que poderia demorar para voltar. Mas estou ansioso para escrever alguma coisa e, para variar, estou pobre de inspiração. Várias vezes vi formigas andando pela escrivaninha, nas imediações do notebook. Para estimular visitas, procuro deixar iscas, apoiando na escrivaninha coisas que estou comendo. Pão, bolacha, bombom. Até que aparecem algumas visitantes. Penso:

– Gui-Gui?

Silêncio total. Não é ela…

Hoje, enquanto eu tomava café, vi uma formiguinha andando aqui, próxima do note. Mais uma vez falei com meus botões:

– Não deve ser ela…

Se enganou, Paulo. Sou eu mesma, de volta. Como estão as coisas por aqui?

– Gui-Gui!!! Que bom te rever! Você está bem?

Estou sim, meu amigo. Passei alguns “perrengues”, como vocês dizem, mas sobrevivi. Acho que não comentei com você: quase todo formigueiro tem pelo menos uma formiga telepata. Então sabemos coisas que aconteceram aqui perto ou muito longe. Por isso, vou te contar tanto fatos deste quarteirão como outros que ocorreram em lugares muito distantes. E você escolhe o que vai contar.

E ela me contou esta história que reproduzo a seguir:

“Omar  era um afegão na casa dos seus 50 anos. Já haviam se passado 4 anos desde que sua esposa, Aisha, morrera num dos costumeiros terremotos que abalam o Afeganistão. Logo depois que Aisha partiu, seus dois filhos tinham emigrado para a Europa, fugindo da guerra civil que há tanto tempo assolava o país. Omar ficou sozinho, tentando achar um novo sentido para sua vida, agora tão solitária. Um dia, sentado num banco de jardim, teve sua atenção despertada por uma linda moça, que parecia soluçar, sentada sozinha em outro banco bem próximo. Hesitou um pouco, temendo ser inconveniente, sentou-se ao lado da moça.

– Bom dia. Me chamo Omar. Posso te ajudar de alguma forma?

Enxugando os olhos e assoando o nariz, ela respondeu:

– Bom dia. Meu nome é Zahra. Você pode me ajudar sim. Basta ficar aqui e conversar um pouco comigo. Me sinto tão sozinha…

– Zahra, também estou sozinho. Sei bem com está se sentindo. Você quer me contar por que está sozinha?

– Obrigada. Talvez me faça bem extravasar um pouco desta tristeza. Lembra-se do último terremoto, aquele de dois meses atrás? Não foi tão severo e só três pessoas morreram. Infelizmente uma dessas pessoas era o meu marido, Hassan. Nos casamos um pouco tarde e, apesar de eu já ter completado 40 anos, tínhamos o desejo de termos filhos. Com a morte do Hassan fiquei sem chão e ainda não sei o que vou fazer da minha vida.

– Zahra, temos histórias parecidas. Naquele grande tremor de terra de há 4 anos eu e minha família estávamos em casa, pois foi de madrugada. A casa desabou e eu e meus filhos sofremos ferimentos leves, mas minha esposa, Aisha, foi atingida por uma parede do quarto e faleceu. Logo depois meus filhos resolveram emigrar para a Europa, para escapar da guerra civil. Desde então ainda não me acostumei com a solidão.

– Que coisa, Omar. Como nossas vidas mudam com os terremotos! Só nos resta erguer a cabeça e seguir em frente. Mas é difícil e muitas vezes me faltam forças.

– Zahra, tenho uma ideia. Costumo vir a este parque para espairecer. Se nos encontramos novamente podemos bater um papo. Que você acha?

-Acho uma boa ideia. Não costumo vir sempre aqui, mas quando vier e você estiver por aqui podemos, sim, conversar.

Desse dia em diante, sempre que se encontravam ficavam em longas conversas. Tinham muitos interesses em comum. Ler, ouvir música, cinema, teatro, boas comidas e até posturas muito semelhantes em relação a religião. Logo passaram a se ver diariamente. Combinavam almoços, jantares, outros passeios. Com o tempo estabeleceram um vínculo muito forte. Num desses passeios Omar quis conhecer a casa Zahra. Ficou chocado, pois a casa ainda não tinha entrado no programa de recuperação do governo e estava semidestruída pelo mesmo terremoto que matou o marido dela. Omar pensou um pouco, mas acabou falando sua ideia, seu pedido:

– Zahra, nos últimos meses construímos uma relação muito gostosa. Eu estava para te propor uma coisa e acho que é um bom momento. Vendo o estado precário da sua casa e esse elo que se estabeleceu entre nós, estou seguro de lhe propor o seguinte: quer vir para minha casa e passarmos juntos o resto de nossas vidas?

Zahra não fez cara de surpresa. E respondeu:

– Já há algum tempo tenho pensado nessa possibilidade, mas não quis te falar porque não tinha certeza de como você receberia essa ideia. Então, sim, aceito sua proposta!

E selaram esse compromisso com abraços e beijos apaixonados, ali mesmo no meio da rua.

Depois de alguns dias vivendo juntos, Omar fez uma proposta:

– Zahra, meu amor. Esta cidade nos traz algumas recordações boas e outras, nem tanto. O que você acha de nos mudarmos para outra cidade?

– Concordo com você. Vida nova, casa nova. Já tem alguma ideia sobre para aonde irmos?

– Não tenho. Vamos escolher juntos.

Depois de algum as pesquisas a escolha foi por Herat, pelo tamanho menor, pela sua arte e arquitetura. Combinaram que Omar iria para Herat escolher um local para morarem. Iriam conversando pelo celular e, quando uma boa alternativa aparecesse, Zahra iria se encontrar com para decidirem em conjunto. Omar se hospedou num hotel e, à noite, iam conversando e vendo fotos das casas visitadas. Em apenas duas semanas ele já tinha encontrado uma casa bem interessante. Ele voltou para hotel e pegou o celular para combinar com a Zahra a vinda dela. Ela atendeu a chamada, mas o celular dele estava mudo.

Um terremoto de intensidade 7,1 na escala Richter teve como epicentro a região onde se situa Herat. As comunicações cessaram por completo. Zahra ficou em estado de choque. Quis ir para lá, as visitas à região estavam proibidas. Tentou várias vezes ligar para Omar, mas sempre recebia a mesma mensagem “celular fora de serviço”. Ela tentou consultar a relação de mortos, feridos e desaparecidos, mas em nenhuma achou o nome de Omar. Depois de várias semanas sem notícia resolveu procurar emprego e recomeçar, mais uma vez, sua vida. Sozinha outra vez.

E Omar? Com o terremoto, o hotel onde Omar estava hospedado ruiu quase completamente. Ele foi atingido por uma parede e ficou seriamente ferido. Quebrou a perna e o braço esquerdos e teve uma forte concussão cerebral. Devido a essa concussão ele perdeu totalmente a memória; seus documentos e seu celular se perderam no meio dos escombros. Os socorristas não tiveram como identificá-lo e o internaram como “Identidade desconhecida”. Passou longos meses se recuperando das fraturas, mas não conseguia restabelecer sua memória. Um persistente psiquiatra fazia esforços para ajudar nessa recuperação. E teve a ideia de mostrar fotos de várias cidades e atrações turísticas das quais ele pudesse se lembrar. Quando mostrou a foto de um parque em Cabul notou um certo brilho nos olhos de Omar. Começou a insistir em outras imagens da capital e cada vez mais Omar parecia reconhecer os locais. O psiquiatra começou a mostrar a ele uma lista com os nomes de homem mais comuns. De repente ele apontou para o nome Omar e falou “Eu… eu”. Aos poucos foi se lembrando de  mais coisas. Um certo dia ele lembrou do nome Zahra. O psiquiatra perguntou “Mãe? Filha? Irmã? Esposa?”. Depois de pensar um pouco falou ”Esposa”. Depois de quase 2 anos Omar já tinha condição de viver por si. Ainda não sabia o sobrenome e idade, mas isto viria com o tempo. Teve alta e recebeu uma verba do governo para vítimas de terremotos, para que pudesse se sustentar por algum tempo.

Tomou um ônibus para Cabul. Durante a viagem, vendo tantas paisagens familiares, foi recuperando muitas lembranças. Principalmente o endereço onde Zahra esperava. Tocou a campainha e atendeu uma moça estranha. Surpreso, ele perguntou:

– A Zahra está?

– Não, ela não mora mais aqui. O noivo estava em Herat quando houve aquele forte terremoto. Procurou por ele durante mais de um ano e não achou nenhuma informação sobre ele. Conheceu um rapaz no trabalho, começaram a namorar e se casaram há uns 4 meses. Puseram a  casa à venda e eu comprei.

Quando recuperou a voz, Omar perguntou:

– Você tem o endereço dela?

– Tenho sim. Até hoje ainda chegam correspondências para ela e eu as encaminho. Aqui está anotado neste papel.

– Obrigado. Boa tarde.

Omar caminhou lentamente, sem destino. Até que se achou naquele parque onde conheceu Zahra. Ficou um longo tempo pensando no que diria para ela. E chegou a uma decisão difícil. Se ele a procurasse, com certeza causaria uma grande perturbação na vida dela. Ele a amava muito e decidiu não procura-la, para não destruir a felicidade que ela estava conquistando. Em nome desse amor, abriu mão sua própria felicidade. Na verdade, seria feliz por amar e saber que sua querida estava feliz. Dirigiu-se para o aeroporto e comprou uma passagem para ir encontrar seus na Europa”.

Paulo, como você melhorou a história que te contei!

– Pois é Gui-Gui, e assim que espero que seja a nossa parceria. Você me conta uma história ou comenta algo que viu nas suas andanças e eu coloco na forma de um texto a ser publicado.

Mas eu notei que, em vários  momentos você parou e respirou fundo.

– Verdade. Eu pensava em tantas pessoas que passam por terremotos em suas vidas. Alguns deixam marcas no corpo; outros deixam marca na alma. Mas sempre fica algum aprendizado.

Finalizado em 24/01/2025

MINHA AMIGA GUI-GUI

Eu estava aqui pensando que gosto de escrever, mas há um bom tempo não tenho tido inspiração Isolado num apartamento deste Residencial para Idosos, fica difícil encontrar algo interessante para fazer, para pensar, para escrever. Gosto de contar histórias reais ou, quando muito, criar uma história baseada em fato real. E os fatos estão lá fora, no mundo real. Ficar contando sobre minha vida aqui dentro poderia soar como uma queixa, que existem, mas não interessam a ninguém. Escrever sobre sentimentos, especialmente um que estou vivendo, seria trocar uma sessão de análise por teclar no notebook. Além do que poderia ser inconveniente para alguns e incompreendido por outros. Até já escrevi para desabafar, mas não publiquei. Quem sabe um dia alguém ache esse texto e faça uma publicação póstuma se tiver a curiosidade de olhar meus arquivos. Certo, tenho muitos contatos no mundo das redes sociais. Quase a totalidade desses contatos são o que são. Contatos virtuais. Um ou outro, digamos, mais próximos. E outro que me dá ainda mais vontade de frequentar o mundo real.

Enquanto eu espero, não muito pacientemente…, que alguma coisa mude para melhor na minha vida estou zapeando meu olhar entre esta fria tela e o futebol na televisão, tenho a ilusão de ouvir uma vozinha:

– Oi, Paulo Celso, gostaria de te ajudar.

Meus Deus! Será que de tanto conviver com pessoas com vários graus de demência estou indo por esse caminho também? Presto atenção se há alguém no corredor ou há som vindo de outros quartos. Nada. O único ser vivo aqui no quarto, além de mim mesmo, é uma formiguinha que passeia pela escrivaninha, talvez procurando alguma migalha do bombom que comi ontem. Penso:

– “Esta formiguinha é que é feliz. Sem maiores preocupações além de achar alimento para si e para as demais formigas que moram no mesmo formigueiro”.

– Não é bem assim, Paulo. Também tenho meus problemas.

– “Francamente, fico muito preocupado. Será que estou imaginando vozes, de tanto querer conversar com alguém, aqui no meu isolamento?”

– Não, Paulo. Você não está imaginando. Sou eu, esta formiga que passeia pela escrivaninha, que estou me comunicando com você.

– Mas sua voz soa como estivesse dentro da minha cabeça.

– É uma longa história. Estamos nos comunicando pelo que vocês humanos chama de telepatia.

– Mas… como uma formiga fala comigo por telepatia?

– Acho que posso resumir a explicação para que você entenda que esta nossa conversa é real. Não é sua imaginação.

– Você conhece bem a Teoria da Evolução das Espécies. Essa evolução não ocorre só nos humanos e, talvez, para certos animais. A verdade é que a Evolução obedece a regras universais, que se aplicam a todos os seres vivos.  O resultado e a velocidade da evolução dependem do planeta em que ocorrem e da espécie inicial. Nós formigas também evoluímos. Sem saber como, nem porque, algumas de nós desenvolvemos a capacidade de nos comunicarmos por telepatia. Talvez por causa de alguma radiação atômica. Acredito que sejamos poucas que, atualmente, apresentam essa capacidade. Eu, de fato, estava farejando algumas micro migalhas de bombom quando comecei a prestar atenção nos seus pensamentos. Usualmente não nos comunicamos por telepatia, a não ser entre nós. ”Ouvindo” seus questionamentos resolvi verificar se posso te ajudar. Afinal eu posso circular livremente pelo que você chama ‘o mundo exterior’, a menos que ocorra algum acidente.

– Nossa!, custo a acreditar que estou conversando com uma formiga. Só me ocorre agradecer à Providência Divina pôr à minha disposição um auxílio que nem sei como usar.

– É fácil. Como eu não tenho limites, a não ser distâncias e acidentes, vou circular por aí prestando atenção em coisas que eu posso contar para você e que talvez possa servir de inspiração para seus textos.

– Puxa, isso é mesmo possível. Mas, como vou saber que é você?

– Me dá um apelido. Quando você vir uma formiga andando pela escrivaninha me chama pelo apelido. Se não for eu você não terá resposta.

– Tá bom. Você será minha amiga Gui-Gui.

-Fechado! E não se preocupe se eu demorar. Coisas interessantes não aparecem a toda hora. E o que são metros para você são quilômetros para mim. Fui…

Não vejo a hora que a Gui-Gui volte.

Escrito 05/12/2025