MOMENTO AMARGO

Só, no meio da multidão. Cercado de risos dos amigos, do olhar desconfiado dos adversários, do ciúme dos inimigos. Os espaços externos tomados. Mas nada ou ninguém suficientemente perto para romper a carapaça capricorniana e encher os vazios interiores, com afeição, carinho e amor. Mais um Natal, mais um Ano Novo, mais um espetáculo em que o palhaço faz rir a plateia enquanto na garganta enxuga suas lágrimas recônditas. Será que devo, eu mesmo, romper a barreira e deixar que as coisas aconteçam? Mas, quem entrará? Saberá reconhecer o terreno onde pisa? Dará valor ao que recebeu sem conquistar?

……

Nas festas de fim-de-ano,

Nas comidas e nas bebidas,

Abafamos e afogamos,

As ilusões perdidas

No passar dos anos.

Os glicérides iniciam seu

Trabalho, qual abutres,

Sobre os destroços do coração.

Escrito 23/12/1987

Publicado em 10/02/2025

REVOLVENDO O PASSADO

Hoje resolvi organizar meus guardados e encontrei vários textos que escrevi ao longo da minha vida. Alguns já publiquei aqui no blog. Outros são “inéditos”. Vou publicar como foram escritos, sem qualquer juízo sobre sua qualidade e até sobre eventuais erros. Então, vamos aos achados.

JOGANDO COM AS PALAVRAS

A PORTARIA

APORTAR IA

A PORTAR IA

APORTARIA

CADÊ IRA

CADEIRA

CA DE IR A

COM PUTA DOR

COMPUTADOR

COMPUTA DOR

SAL AME

SALAME

SALA ME

SALAMALEQUE

A CAL MARIA

ACALMARIA

A CALMARIA

CALMA, RIA!

AMOR TECE DOR

AMORTECEDOR

AMORTECE DOR

A MORTE SEM DOR

Sem data, certamente há mais de vinte anos

Publicado em 10/02/2025

MEDO DE SER FELIZ

Alguém pode ter medo de ser feliz? Por incrível que pareça, muitas vezes temos medo de ser felizes e nem percebemos. Mas, então, quando temos medo de ser felizes?

Quando não provamos uma comida, por medo de não gostar.

Quando não fazemos um passeio, por medo de algo sair errado.

Quando deixamos de cantar no karaokê, por mais que gostemos de cantar, por medo de desafinar.

Quando deixamos de berrar por nosso time, por medo da derrota.

Quando deixamos de fotografar um pôr de sol, por medo de a fotografia não sair bem.

Quando deixamos de tirar alguém para dançar, por medo de levarmos “tábua”.

Quando deixamos de expressar nossos sentimentos, por medo de não sermos compreendidos.

Quando não declaramos nosso amor por alguém, por medo de não sermos correspondidos.

E mais tantos outros exemplos que cada um pode acrescentar. Note-se que, em cada uma dessas situações, se nosso medo fosse infundado, teríamos perdido uma oportunidade de ser feliz. E entenderemos a reflexão seguinte com muita tristeza:

“Veio alguém, bateu-me à porta. Vacilei, não quis atender. Pensei que fosse a Saudade que viesse me perseguir. Bateu uma, duas vezes, mas não insistiu. Desceu as escadas depressa e para sempre partiu. Deixando na porta estas palavras fatais: Sou a Felicidade e aqui não voltarei jamais…” 

(Carmen Andrade)

Escrito em 21/01/2025

 sem medo de ser Feliz

O PALHAÇO

Meu nome é Walter. Minha profissão é ser Palhaço, mas também me considero ser Humorista, mas acho que é mais difícil ser palhaço. Primeiro, porque só trabalho disfarçado pela maquiagem extravagante e as roupas igualmente esquisitas. Quando me maquio e me visto de palhaço, deixo de ser Walter e passo a ser o Farofa. Ser humorista é um pouco mais fácil porque mesmo se eu tivesse, por exemplo, fazendo um stand up, ainda seria o Walter, mesmo que as pessoas estejam rindo de mim, do Walter. E todos reconhecem o humorista Walter, quando o veem na rua ou no shopping.

Ninguém reconhece o Walter na rua ou no shopping quando não está vestido de Farofa. Por outro lado, é difícil deixar de ser Walter e virar Farofa. Como Farofa, só posso demonstrar uma emoção, aquela que faz todos rirem, mesmo que o Walter esteja triste. Muitas vezes essa transformação é difícil e dolorida, mas tem que ser feita. Hoje é um desses dias. Seria aniversário do meu filho, que morreu há tanto tempo. A maquiagem está difícil, escorre pelas minhas bochechas como levada pelas minhas lágrimas. Mas não tem jeito, tenho que sufocar o Walter e me transformar em Farofa. Não é a primeira que tenho que fazer isso. Nessas horas recorro às palavras da minha amada esposa Carminha, sempre presentes num cartão preso ao meu espelho:

            “Sorria, mesmo que seu sorriso seja triste.

            Porque, mais triste que um sorriso triste,

            É a tristeza de não saber sorrir.”

Escrito em 20/01/2025

SEGUINDO EM FRENTE

Os pés nos levam.

A fé e o amor nos guiam.

Mas é a força da nossa alma que nos impulsiona para a frente,

para o nosso melhor.

(Carmen Andrade)

(Mais uma vez, por falta de inspiração, aproveito palavras que outros escreveram.)

Penso primeiro sobre o que são os nossos pés. Nossos pés são tudo que nos mantém em pé, o que nos equilibra, o que nos permite caminhar nas estradas que escolhemos. Claro, não estou falando dos pés anatômicos. Estou falando de nossos parceiros afetivos, nossa família, nossos amigos e nossas amigas, pessoas que nos inspiram e que nos servem de exemplo, aquelas pessoas que nos alimentam com seu saber. Enfim, são esses os nossos pés que nos levam pelos caminhos que escolhemos.

Nem sempre escolhemos os melhores caminhos. Não há caminhos sem pedras, sem obstáculos, sem decepções, sem desilusões, sem perdas. Ao buscarmos os caminhos desejados precisamos contar a ajuda da fé e do amor. São eles que nos guiam pelas dificuldades que encontramos em nossos caminhos.

Porém, nossos pés, nossa fé e o amor não são suficientes para enfrentar os percalços que encontramos em nosso caminho. Na busca do nosso melhor precisamos muita força para vencer as dificuldades e, muitas vezes, encontrar novos caminhos. É preciso força. Quem nos dá essa força para seguirmos em frente é nossa alma!

Escrito em 15/01/2025

NEM TUDO QUE RELUZ…

… É OURO.  Esse ditado, cuja origem se perde no tempo, continua tão válido como nunca. Afinal, à medida que a tecnologia e o individualismo se tornam cada vez mais predominantes é cada vez mais fácil reluzir artificialmente e é cada vez mais difícil distinguir o que é ouro ou não.

Mas… Há outro lado da moeda:   O QUE É OURO SEMPRE RELUZ! E, como esse ouro real é cada vez mais raro de ser encontrado, é necessário ter em mente quais as características de uma pessoa que vale ouro. Essas pessoas:

dão um prato de comida para quem tem fome

dão água para quem tem sede

dão guarida para quem precisa

dão um ombro para quem precisa chorar

dão orientação para quem está perdido

dão incentivo para quem está desanimado

dão solidariedade para quem é desprezado

dão companhia para quem está solitário 

dão esperança aos desiludidos.

E nunca pedem, e nem esperam, mais que um “Muito obrigado!”.

Se você conhece pelo menos uma pessoa assim, agradeça a Deus por conhecer alguém que vale ouro e que ela lhe valha como inspiração.

Escrito em 08/01/2025

AS CURVAS DA MINHA VIDA

A vida é como uma estrada cheia de curvas. A cada curva um novo panorama.

De repente, a curva te leva à faculdade.

De repente, a curva te leva ao casamento.

De repente, a curva traz os filhos.

De repente, a curva chega a uma carreira de sucesso.

De repente, a curva te leva a uma estrada mal pavimentada e cheia de obstáculos.

De repente, a curva te leva a um desvio mal sinalizado e acidentado.

De repente, a curva chega a uma estrada mais suave e tranquila.

De repente, uma curva inesperada leva ao que parece ser uma reta para o destino final.

Mas….

De repente, uma curva inesperada leva a uma estrada bem pavimentada, com ondulações suaves, uma paisagem cheia de verde, florida, ensolarada, céu muito azul. Essa curva faz esquecer os trechos difíceis da estrada e recompensa o esforço para ir em frente até um final sonhado e desejado.

Escrito em 06/01/2025

AMOR E SEU TEMPO

(Quando estou sem inspiração, tomo emprestado um texto que me agradou. Hoje lancei mão de um poema, do meu poeta predileto, que me tem vindo à memória nos últimos dias.)

AMOR E SEU TEMPO

Amor é privilégio de maduros

estendidos na mais estreita cama,

que se torna a mais larga e mais relvosa,

roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, o amor: o ganho não previsto,

o prêmio subterrâneo e coruscante,

leitura de relâmpago cifrado,

que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,

salvo o minuto de ouro no relógio

minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,

depois de se arquivar toda ciência

herdada, ouvida. Amor começa tarde.

Carlos Drummond de Andrade

Publicado em 30/12/2024

UM HOMEM DE VALOR

(Esta é uma história real, que me foi contada há poucos dias. Omiti ou alterei pequenos detalhes para preservar a identidade da narradora).

Alcides e Nilse moravam no mesmo bairro em Salvador. Eram amigos desde crianças e, com o tempo, surgiu entre eles um sentimento maior que a simples amizade. Eles descobriram que se amavam. Dessa descoberta até o casamento foi só uma questão de tempo. Tiveram três filhos: uma mulher e dois homens. Alcides tinha um sonho: mudar para São Paulo e estudar Engenharia. Mas não queria arriscar levar a família para os primeiros momentos da mudança, que poderiam ser difíceis. Então avisou Nilse que iria sozinho para São Paulo e voltaria para buscá-los assim que fosse possível. Nilse aceitou bem essa decisão, mas os filhos disseram a ela que ele jamais voltaria…

Logo que chegou a São Paulo, Alcides foi morar num quarto de pensão e passou a procurar emprego. Pela inteligência e disposição para o trabalho, foi admitido em uma multinacional do ramo químico, localizada na Grande São Paulo. Trabalhou duro fez muita hora extra e, assim que economizou o suficiente durante dois anos, alugou uma casinha e foi buscar a família. Embora ele escrevesse muitas cartas contando de sua vida aqui, os filhos se surpreenderam quando ele chegou. E vieram todos!

Logo que estavam todos razoavelmente instalados na casinha alugada, Alcides se preparou para o vestibular de engenharia. Passou no primeiro ano! No emprego já se destacava como um colaborador valioso. Teve promoções e conseguiu bolsa de estudos, da própria empresa, para os três filhos. Durante o curso de engenharia, com o dinheiro economizado com os estudos dos filhos comprou um terreno onde pretendia construir sua casa própria. Ao formar-se como Engenheiro Mecânico, assumiu posto novo na mesma empresa onde trabalhava desde que chegou a São Paulo.

Com o novo salário, começou a comprar materiais e iniciou a construção da casa. Fazia isso aos fins de semana, com a ajuda de amigos. Logo que tinha um quarto, cozinha e banheiro, levou a família para lá. Não era muito confortável, mas deixou de pagar aluguel. Com esse reforço nas finanças, conseguiu terminar a casa em menos de um ano. Na empresa, sempre a mesma, passou a prestar serviços com sua própria empresa e seus próprios empregados. Sua renda lhe possibilitou bancar os estudos dos filhos. Os dois homens também se formaram em engenharia e foram trabalhar com o pai. A menina escolheu carreira na área da Saúde. Aos poucos Alcides construiu uma casa para cada filho.

Quando todos já estavam bem encaminhados, certo dia a Nilse sofreu uma queda grave. Fraturou uma perna e um braço. Ficou duas semanas internada. Nesse período, embora fosse a época da pandemia da COVID-19, Alcides não deixou de visitá-la todos os dias, embora os filhos o alertassem sobre o perigo de ir ao hospital. Logo que Nilse teve alta, Alcides começou com sintomas de gripe forte. Foi para o hospital dirigindo o próprio carro. Lá chegando foi internado na UTI e intubado. Três dias depois faleceu, aos 80 anos. No velório havia muita gente da empresa, em que trabalhou por mais de 30 anos, onde era muito bem quisto; todos demonstravam sincera consternação.

Ficou para os filhos o orgulho da história do pai.

Escrito em 16/12/2024

ENVELHECIMENTO II

Depois que escrevi o post anterior, li uma matéria muito interessante na revista Super Interessante, edição de novembro, 2024, da autoria do jornalista Rafael Bataglia, com o título de “A Busca pela Longevidade”. Recomendo a leitura para quem puder.

Na página 21 ele aborda algumas ideias que expressei no meu texto. Especialmente, fala da dificuldade de cuidar da população acima de 60 anos, que vem aumentando significativamente. Ele fala sobre lugares para abrigar os idosos, a possível atuação de ONG’s e, o que mais me chamou a atenção, foi a questão de, em vez da duração da vida, está emergindo algo tem me chamado a atenção: a qualidade de vida dos idosos. Pretendo voltar ao assunto mais vezes. Mas agradeço comentários sobre o tema.

Escrito em 14/12/2024 (meu primeiro ano no Residencial Elite)