ENVELHECIMENTO II

Depois que escrevi o post anterior, li uma matéria muito interessante na revista Super Interessante, edição de novembro, 2024, da autoria do jornalista Rafael Bataglia, com o título de “A Busca pela Longevidade”. Recomendo a leitura para quem puder.

Na página 21 ele aborda algumas ideias que expressei no meu texto. Especialmente, fala da dificuldade de cuidar da população acima de 60 anos, que vem aumentando significativamente. Ele fala sobre lugares para abrigar os idosos, a possível atuação de ONG’s e, o que mais me chamou a atenção, foi a questão de, em vez da duração da vida, está emergindo algo tem me chamado a atenção: a qualidade de vida dos idosos. Pretendo voltar ao assunto mais vezes. Mas agradeço comentários sobre o tema.

Escrito em 14/12/2024 (meu primeiro ano no Residencial Elite)

ENVELHECIMENTO

Euclides sempre se destacou por uma inteligência acima da média e por sua dificuldade com a disciplina. Na escola deixava sempre para estudar na véspera das provas. E sempre tirava notas altas. Mas era comum ter castigos, como escrever cem vezes “Não devo conversar durante a aula”. Resolveu fazer engenharia e passou todo ano de preparação na turma mais adiantada do cursinho pré-vestibular. Na época não havia FUVEST, cada faculdade fazia seu próprio vestibular. Euclides passou no primeiro vestibular que prestou, que era o mais difícil e o mais concorrido. A direção do cursinho pediu que ele fizesse os outros exames, para servir de vitrine para o cursinho. Ele passou em todas…

Com esse histórico era de se esperar uma bela carreira profissional. Mas aí sua outra característica pessoal atrapalhou. Não conseguia lidar com as chefias e os rígidos procedimentos das empresas. Até que se cansou e foi trabalhar na empresa da esposa, cuidando de toda a parte de informática, que ele dominava como ninguém. Aí mais uma vez apareceu sua inteligência privilegiada. Tentou acionar a Microsoft por um prejuízo que teve e que atribuiu a um programa fornecido por ela. Vários advogados não tiveram sucesso nessa demanda. Então ele, simplesmente, entrou na faculdade de Direito. Formou-se, advogou em causa própria, moveu a ação e foi indenizado pela Microsoft.

Até que um dia ele pois água a ferver para fazer café e saiu da cozinha. Quando a esposa percebeu, a água estava secando e ele em outra sala. Ela perguntou se ele havia posto água para ferver e ele disse que não. Noutro dia ele perguntou que horas iam sair para ir à missa e ela disse que era quinta-feira; ele insistiu e ela teve que mostrar o calendário. Infelizmente eram os primeiros sinais de demência senil. Com tempo esses sintomas foram piorando e a esposa, que trabalhava praticamente o dia todo, resolveu colocá-lo num residencial para idosos. Ali ele se adaptou razoavelmente rápido. Mas a esposa começou a tomar consciência de um assunto sobre o qual nunca tinha pensado. Como lidar com pessoas que perdem a lucidez por causa da demência senil?

Descobriu um novo mercado que tem crescido devido ao envelhecimento da população. São os chamados residenciais para idosos, que substituem os antigos asilos para idosos. Mas nem todos os residenciais proporcionam um atendimento adequado. Vez por outra aparecem notícias de maus tratos aos idosos. Então, quando a família está procurando um local para colocar seu familiar a escolha é um pouco jogar com a sorte e tem que se fiar no marketing, nem sempre muito transparente. Então a esposa do Euclides pensou que seria interessante que uma entidade isenta fizesse uma classificação dos residenciais em termos de preços, qualidade das acomodações, assistência oferecida pelos/pelas profissionais, assistência de profissionais (médicos, psiquiatras, fisioterapeutas e outros), localização etc. Além do mais, ela percebeu que o envelhecimento está se tornando uma questão de saúde pública e é caro. Talvez seria o caso de aumentar os residenciais beneficentes mantidos por ONG’s ou estas poderiam pagar parte dos custos dos residenciais para moradores/moradoras que não tenham ou percam a capacidade de arcar com os custos. Ademais ela julgou que poderia ser interessante interagir com as famílias dos demais moradores do residencial onde o Euclides está, com o qual ela está plenamente satisfeita.

Escrito em 11/12/2024

COMUNICADO DO ADMINISTRADOR

Em 2021 resolvi começar a escrever alguns textos, apenas para preencher meu tempo livre. Por sugestão da queridíssima e saudosa sobrinha Tania Regina, transformei esses textos em um blog, apenas para facilitar o envio para algumas pessoas. Ao blog dei o título de PAPO NA VARANDA, “um espaço para conversar como se estivéssemos numa varanda” …  Por minha total falta de experiência, o endereço ficou como pctoledojr-dominiotemporario.com.br. Tudo corria bem até que algumas pessoas passaram a não conseguir mais acessar os textos devido a um aviso de que o site não era seguro. Tentei resolver isso mas não consegui. Então no dia 06/11/2024 resolvi pedir ajuda do Suporte Técnico da UOL, onde o blog está hospedado. Desde então vivi uma verdadeira odisseia, que vai aqui resumida.

O atendente me recomendou que eu comprasse um domínio e o dispositivo de segurança (SSL). O domínio sugerido foi paponavaranda.blog.br. Aceitei a sugestão e em menos de 5 minutos, os valores do domínio e do SSL já estavam lançados no meu cartão de crédito. Resolvido. Resolvido? Não…. Não é bem assim. Era necessário fazer algumas configurações. O atendente me orientou e disso que demoraria até 48 horas para o blog entrar no ar. Depois dessas (primeiras…) 48 horas, ao tentar entrar abrir o blog aparecia a mensagem “Ops! Página ainda não publicada…”. Novo ritual de escolher as várias opções de atendimento até um atendente entrar na linha (devo dizer que todos/todas atendentes foram muito gentis e muito pacientes, com meu cérebro analógico tentando operar no mundo digital). Novos ajustes e mais 48 horas de espera… E mais ajustes, incluídas orientações de outra área de Suporte Técnico De espera em espera recebi, um e-mail dizendo que estavam trabalhando no meu caso e que em até 48 horas úteis (era a primeira vez que diziam “horas úteis” …) dariam uma resposta.

Até que hoje (06/12/2024), depois do jantar, digitei o domínio para ver qual seria a nova mensagem e fui direcionado direto para o blog, com segurança!! Finalmente consegui configurar tudo e colocar o blog em condições normais de acesso com segurança (o endereço agora começa com https). Fiquei satisfeito comigo mesmo por ter aprendido tanto sobre o mundo digital em tão pouco (??) tempo. Então aqui vai o comunicado propriamente dito:

1) Enquanto eu estava resolvendo as questões do domínio, resolvi incluir novos participantes do grupo “Papo na Varanda” onde aviso sobre novos textos. São, principalmente novos contatos que entraram para a minha lista desde 2021. Alguns não aceitaram o convite, mas todos são livres para sair do grupo quando quiserem;

2) Os comentários, (somente sobre o texto lido) podem ser feitos no grupo ou no próprio blog, no final dos textos. Neste último caso sou avisado para validar e responder ao comentário. Nenhum comentário é proibido, exceto sobre política, religião e futebol, a menos que estejam no contexto da publicação. Se alguém tiver dificuldade para entrar no blog, por favor me avise.

Obrigado pela atenção.

Escrito em 24/04/2024 – Atualizado em 06/12/2024

MAURICIO

Era uma manhã de primavera e eu caminhava para meu escritório aproveitando o sol ameno, típico da estação, quando ouvi uma voz conhecida me chamando:

– Bom dia, dotô!

Só podia ser ele. Olhei para a direção da voz:

– Bom dia, Mauricio! Quanto tempo que não nos vemos! O que você anda fazendo?

– Estou trabalhando, dotô, como faxineiro…

– Como? Você, faxineiro? Que história é essa?

– Pois é, dotô, as crianças têm que comer…

Eu estava em cima da hora para uma reunião e não podia estender a conversa. Dei a ele um cartão da minha empresa de Síndico Profissional:

– Apareça lá qualquer hora. Mas marque o dia porque paro pouco no escritório.

– Vou sim, dotô. – (ele sempre chamava todos de Dotô…)

Durante o dia fiquei me lembrando do Mauricio. Ele era o Líder da Portaria no prédio para onde eu me mudara há cerca de um ano. Era um angolano típico: estatura acima da média, esguio, negro retinto onde se destacavam os dentes brancos quando dava seu sorriso fácil. E um vozeirão de baixo. Chegara ainda criança com os pais que vieram em busca de uma vida melhor. Há 10 anos fora admitido como faxineiro e fez uma pequena carreira, passando de faxineiro a porteiro e, de porteiro a Líder da Portaria com responsabilidade por três porteiros e um folguista. Eu costumo andar em volta do prédio toda manhã e sempre parava na portaria para dar dois dedos de prosa com ele. Num desses papos, ele me mostrou a foto da esposa, também angolana, e das filhas de 5 e 3 anos, que não negavam as origens. Certa manhã e o encontrei com semblante triste, muito diferente do seu normal. Não consegui me conter e perguntei:

– Algum problema, Mauricio?

– Sim, dotô. Na semana passada o dotô Silvério – (um delegado de polícia que tinha se mudado para o prédio há algumas semanas) – pediu uma pizza e quando ela chegou interfonei para ele. Ele pediu para o entregador levar para a porta do apartamento dele. Eu informei que, pelo regulamento do condomínio, os entregadores não podiam entrar. Então ele pediu que eu levasse. Falei que essa também era a regra, que não podia sair da portaria a não a serviço do prédio. Ele ficou furioso, bateu o interfone na minha cara e desceu para pegar a pizza.;

– E aí, seu negrinho de m* (desculpe, não falo palavrão…), quem você está pensando que é seu filho da p*? Volta para a m* do seu país.

– Ele foi embora bufando. Ontem ele pediu pizza novamente e novamente fui eu que recebi. Avisei pelo interfone e ele disse que estava tomando banho e logo desceria para pegar. Depois de uma meia hora ele desceu e falou:

– Você não perde por esperar, seu morto de fome.

– Hoje cedo o dotô Antônio (o síndico) passou aqui e me falou:

– Ô Maurício, que história e essa de você entregar a pizza para o Dr. Silvério com dois pedaços faltando? Você me espera aqui e na hora do almoço vamos conversar porque agora não tenho tempo.

– Dotô, juro que não mexi na pizza, mas vai ser a minha palavra contra a do dotô Silvério…

– Tenha calma, Mauricio. Fique tranquilo que logo tudo se esclarecerá. Bom dia.

Quando voltei para casa à noite o já Mauricio não estava lá. Perguntei por ele, mas fui informado que ele tinha sido demitido. Com certeza, como ele mesmo tinha previsto, foi sua palavra contra a do delegado. Senti-me revoltado. Como uma pessoa pode ser tão truculenta, racista e xenófoba… Tudo isso me veio à mente quando reencontrei o Mauricio, quase dois meses após sua demissão. Dois dias ele já me ligou. Perguntei que ele horas ele saia do emprego e marcamos para as 18h no escritório.

– Boa tarde, dotô. Obrigado por me receber.

– Bom te ver novamente, Mauricio. Que história é essa de você estar trabalhando como faxineiro?

– Pois é, dotô, o seu prédio foi meu primeiro emprego. Era a única referência que tinha para me candidatar para cargos de portaria. E quando ligavam para o dotô Antônio ele dava más referências. E eu tenho que por comida na mesa para minha família. Então aceitei o emprego numa empresa que terceiriza o serviço de faxina em hospitais.

– Te entendo. Mas você pode achar coisa melhor. Por coincidência um pequeno prédio que administro – são apenas 10 apartamentos – está precisando de um Zelador. Vou apresentar seu nome para o Conselho de Administração e serei sua referência. Acho que na próxima semana já terei boas notícias para você. Boa noite.

– Boa noite, dotô. E obrigado por tudo.

De fato, com as minhas referências o Conselho de Administração aprovou a contratação dele como Zelador. Depois do primeiro mês de experiência verifiquei que ele estava aprovado! Quando fui falar com ele sobre sua efetivação e verificar se estava tudo em ordem com o salário ele abriu aquele sorriso de dentes brancos, realçados pela negritude da pele, e me falou:

– Dotô, com esse salário melhorzinho tomei a decisão de me matricular num curso Técnico de Administração e depois vou fazer um curso de Síndico Profissional.

Saí daquela conversa com a alma leve, por ter conseguido ajudar uma pessoa a ter o que merece.

Escrito em 05 de novembro de 2024

HÁ MALES QUE…

…que vêm para o bem. Recentemente vivi, na prática, uma experiência da validade deste ditado. Há pouco mais de quatro anos, quando minha esposa Viviane faleceu, resolvi me mudar para Sorocaba, como havia combinado com ela. Era a concretização de um velho sonho de morar no interior, especialmente para a cidade de origem da minha família. Mas, poucos dias antes dessa mudança, tive uma queda e fraturei a patela. Durante os três meses de semi-imobilização da perna, na casa do meu filho Edgar, ele me convenceu a desistir da ideia porque seria complicado me socorrer em caso de alguma necessidade. Aceitei a ponderação, aluguei um pequeno apartamento no bairro de Perdizes, e fui morar sozinho.

Tudo corria bem até que sofri uma queda, na entrada do meu prédio, e tive que colocar uma haste no fêmur esquerdo. Minha recuperação foi num hotel residencial para idosos. Lá fiquei durante dois meses e voltei para casa. No início tinha uma cuidadora que ficava comigo durante o dia, três dias por semana. Como eu continuava inseguro, a cuidadora passou a vir de segunda a sexta. Até que chegaram as férias de verão, quando tanto o Edgar como a Camila iriam viajar. Então avaliamos a situação e chegamos à conclusão que, para minha segurança, seria melhor que eu me mudasse definitivamente para um residencial para idosos onde eu teria atenção 24 horas por dia. Desmontei meu apartamento, me desfiz da grande maioria das minhas coisas, de enorme valor sentimental. Foi um momento muito difícil. Mas aqui estou, há mais de dez meses, morando no Residencial para Idosos Elite.

No começo foi uma adaptação difícil, mas consegui, até porque não me restava outra alterativa. Só não conseguia me conformar por ter que desistir de tantos sonhos que tinha para a etapa final da minha vida. Passear nos parques, ir ao cinema, ao teatro, viajar etc. Mas, nos últimos dias, entendi por que quebrei a patela e terminei por vir morar aqui no Elite.

Na terça-feira, passei a noite indisposto e assim acordei. Quando a cuidadora do plantão veio medir meus sinais vitais ela se assustou com minha baixa saturação de oxigênio. Ela recomendou que eu procurasse atendimento médico de urgência. Como nem o Edgar nem a Camila tinham condição de atender com a urgência necessária, quem me acudiu foi minha nora Luciana. A Lu tem uma característica que sempre admirei: ela é muito assertiva. Me levou para o PA do Hospital Samaritano. Lá, na triagem fui encaminhado rapidamente para a Emergência, devido à minha saturação crítica. Em poucos minutos eu estava com um catéter de O², acesso venal instalado, coleta de amostras de sangue para gasometria e hemograma e vários fios ligados ao peito. Fui direcionado para uma unidade de terapia semi-intensiva, para onde fui transferido às 4 horas da madrugada de quarta-feira. Tive alta nesta última quarta-feira. E aqui estou, plenamente recuperado.

Durante esse período de recolhimento compulsório tive a oportunidade de rever tudo que me levou até aqui. O que me marcou mais profundamente foi a avaliação da fisioterapeuta. Ela disse que seu eu tivesse demorado mais um pouco teria ido direto para a UTI e teria sido intubado. E talvez eu não estivesse aqui escrevendo este texto… Ou seja, um mal (fratura da patela) que veio para o bem (estou vivo!) Tenho tanto a agradecer para tanta gente, mas, principalmente, agradeço a oportunidade enxergar a vida com mais otimismo.

Escrito em 01 de novembro de 2024

NARCISISMO LETAL

Como forma de ocupar uma parte do meu tempo livre, tenho assistido, mais de que tinha costume, muitos noticiários de TV. Acho interessante perceber como a mesma notícia é apresentada de forma diferente conforme a fonte. O que assisto (não todo dia…): Globo News, Jornal da Band, Jornal Nacional, CNN News, Jornal da Cultura. Com isso tenho duas consequências: percebo as notícias mais importantes, por se repetirem, e acabo formando minha própria opinião. Hoje vou abordar as notícias que mais têm repercutido.

Primeiríssimo lugar. Trata-se do tratamento denominado “peeling de fenol”. Confesso que nunca tinha ouvido falar disso. Para algum desavisado (duvido que exista, mas, na dúvida…) trata-se de um método para tratar de imperfeições da pele, especialmente da face. Primeira coisa que me incomoda é o papel das redes sociais no assunto. Uma pessoa, sem nenhuma formação técnica, assistiu pela internet, aulas de uma “influencer” sobre o assunto. Julgou-se qualificada para usar o processo e angariar clientes através de sua rede social, apresentando-se com um pseudônimo. Como ela conseguiu tantos clientes que sequer devem ter tido a curiosidade de verificar suas qualificações? Usando, consciente ou inconscientemente, uma doença da nossa sociedade: o narcisismo. Que, no caso objeto de tantas matérias jornalísticas, mostra como a aparência e a imagem, mesmo fictícias, dão espaço aos chamados “influencers”. Hoje as pessoas valorizam exageradamente o aspecto físico e a eterna juventude. No caso em foco, o narcisismo foi letal. Em alguns casos o método saiu pela culatra e o resultado foi um rosto deformado.

Outra notícia, que se repete de quando em quando, é o perigo dos anabolizantes. Um corpo “sarado” é valorizado (não sei bem para quê) e muitas pessoas vão às academias de ginástica, não pelo exercício saudável, mas desenvolver musculatura. Em alguns casos, na minha opinião, o resultado é um corpo deformado. Mas, para maximizar o efeito dos exercícios, os “atletas” tomam anabolizantes que aumentam a massa muscular. E aí está o perigo. O efeito desses anabolizantes é prejudicial à saúde e pode até causar a morte. Sem contar que existem criminosos que falsificam esses anabolizantes e os tornam ainda mais perigosos.

E, por último, vem o caso do Ozempic. Um remédio (todo remédio é uma droga…) desenvolvido para tratar de diabete, cujo efeito colateral é a perda de peso. E é justamente por esta “reação adversa” que a droga é cada vez mais procurada e valorizada. Tenho visto assaltos a farmácias em que os ladrões vão direto no estoque de Ozempic. Não sei se já há algum estudo sobre o uso indiscriminado dessa droga. Talvez possa resultar numa abulemia difícil de controlar?

Talvez esses casos venham a ser tratados como caso de saúde pública. Ou até que todos esses viciados sejam conscientizados de que, mais cedo ou mais tarde, sua imagem verdadeira virá à tona, irremediavelmente deformada.

Escrito em 12/06/2024

POR ÁGUA ABAIXO

Antes de entrar no tema de hoje, um pequeno preâmbulo. Como nos tornamos dependentes da tecnologia, particularmente da Internet! Há quase duas semanas estamos com um problema técnico aqui no Residencial Elite e a Internet está desligada. Todos os meus arquivos estão na nuvem e não tenho tido acesso à minha base de dados. Só anteontem o Edgar (tal pai, tal filho…rsrs) me ensinou a usar o celular como roteador da Internet e, finalmente ontem, consegui me conectar e posso novamente usar o Excel e o Word. Só não consigo acessar a TV pelo Claro Box, mas posso assistir Globoplay e Amazon Vídeo no notebook. Aí está por quê estive afastado do blog mais do que queria. Dito isto, vamos ao assunto.

Como não poderia deixar de ser, vou tratar um pouco da catástrofe ambiental do Rio Grande do Sul. Quando começaram as primeiras notícias fiquei muito preocupado com as consequências das inundações. Mortes, moradores tendo que abandonar suas casas com urgência, indo para abrigos provisórios. Dependendo de doações para se alimentar, se vestir, para se abrigar. Difícil sequer nos colocarmos no lugar dos flagelados. É uma dor que só se pode sentir passando por ela. Sentados em frente da TV e vendo, ao vivo, só podemos ter uma pálida dos sofrimentos experimentados pelos gaúchos; e fazer doações. Isso pode ser melhor avaliado pelos que, como eu, têm ligações de amizade ou parentesco e até por uma parte da história da família, com esse bravo povo farroupilha. Depois, com o passar dos dias, fomos sabendo de tantas histórias entre os desabrigados, perdas materiais, perdas por morte de entes queridos e amigos e vizinhos. Tudo ainda permeado por seres, verdadeiros animais, que se aproveitaram da situação para assaltar e saquear casas e comércios abandonados. (Que ardam no inferno!). A partir da hora em começaram as notícias de estabilização e até da lenta diminuição do alagamento, comecei a pensar em como seria o retorno ao que restava de suas casas e comércios/indústrias. Pensei comigo que seria o momento mais difícil. Constatar o que havia restado de suas casas, se é que havia restado alguma coisa. É o que estamos vendo agora. Casas que nem existem mais, lama até o teto em várias casas, móveis, eletrodomésticos inutilizados, automóveis irrecuperáveis. Lama, muita lama, visível quando a água baixou. Entulho nas calçadas. Aqui eu pude sentir um pouco mais de perto o que essas pessoas estão passando. Recentemente me mudei para este Residencial Elite e desmontei meu apartamento. Foi uma decisão pensada e necessária, mas difícil. Tanta coisa que fazia parte da minha vida, da minha história. Os móveis, os eletrodomésticos e uma boa parte das minhas roupas foram doadas. Isso me fez sentir mais leve, por saber que estava contribuindo para o bem de outros. Mas abandonar algumas coisas me doeram no coração. Algumas dessas coisas nem sei onde foram parar, e nem pergunto. Demorei várias semanas para me acostumar com a ideia de que minha vida agora é aqui e eu nada mais poderei fazer, a não ser me acostumar com esta nova vida. Mas os gaúchos não têm outra saída. Terão que recomeçar, quase todos começando do zero.

Um raciocínio para encerrar. Infelizmente tem muita gente tentando usar essa tragédia como forma de atacar as ideologias contrárias às suas. A alma dessas pessoas se equivale aos que assaltam e saqueiam, aproveitando um momento de fragilidade da população já tão sofrida… (Que também merecem um lugar no inferno). E já se começa o péssimo hábito de procurar culpados. Não existe só um culpado e as culpas estão espalhadas por várias gerações. Agora é o momento de resolver os problemas ocasionados pelo desastre ambiental. Graças a Deus, atenuados pelo espírito solidário da maioria dos brasileiros. E preparar-se para novos desastres climáticos, que devem se tornar cada vez maios frequentes, por causa do aquecimento global causado pela poluição.

Encerro com um pensamento que publiquei nas minhas redes sociais:

Já joguei fora meu desespero, dissolvido nas minhas lágrimas. Agora só me restam forças para levantar a cabeça, ir em frente e diluir meu cansaço em gotas de suor.

DEDICO AOS IRMÃOS GAÚCHOS.

Escrito em 22/05/2024

UNIVERSOS PARALELOS

Na minha interpretação, nos universos paralelos acontecem as mesmas coisas que no nosso, só que com o sinal trocado. Então vejamos a que estou me referindo. Todas as manchetes do dia 01/04/2024 diziam mais ou menos a mesma coisa: “Carro de luxo bate em carro de aplicativo e mata seu motorista”; “Porsche em alta velocidade bate em carro de aplicativo. Motorista de aplicativo não resiste e morre no hospital”. No nosso universo, deve ter havido uma ação de marketing da Porsche porque logo todas a notícias passaram a se referir “um carro de luxo”. Isso já uma interpretação minha, pelo conheço do marketing (confesso que sou amador nesse assunto…). À medida que foram sendo levantadas mais informações sobre o acidente, ficamos sabendo:

– Não havia passageiro no carro de aplicativo;

– O “carro de luxo” passou por um posto de gasolina a 156 km/h e bateu no carro de aplicativo a 114km/h (ou seja, já devia estar freando…);

– O motorista do “carro de luxo” levava um amigo no banco do carona, que ficou gravemente ferido;

– Houve uma discussão entre dois casais de amigos, supostamente porque a namorada do motorista do “carro de luxo” não queria que ele dirigisse por estar alcoolizado. O amigo foi com ele para evitar que fizesse alguma bobagem (o que não conseguiu…);

– A mãe do motorista do “carro de luxo” saiu da cena para, supostamente, levá-lo a um PS para tratar de um ferimento na boca, o que fica claro não ser verdade quando se olha a imagem da câmera peitoral dos PM’s que atenderam ao chamado. O PM liberou-os, sem usar o etilômetro (bafômetro) para medir o teor de álcool no sangue (talvez impressionado com a inocência de quem tem um carro luxo…)

Até o momento que escrevo, o motorista do Porsche (sim, o marketing não conseguiu segurar muito tempo…), orientado por advogado competentíssimo (que não deve ser barato…) tem se esquivado à prisão, três vezes pedida e três vezes negada e, afinal, decretada, mas ainda não executada por ele estar foragido. Não vou me alongar, mas as desculpas que mãe e filho apresentam denotam que seguem orientação do advogado e desafiam a inteligência de todos que têm QI superior a 80.

Agora vejamos como isso tudo se passou no universo paralelo.

O jornal NOVAS DA MADRUGA noticiou: “Carro de aplicativo, em excesso de velocidade, bate em carro de luxo e fere gravemente seu motorista. Passageiro do carro de aplicativo vai a óbito ao dar entrada no PS.”

O que foi notícia nos dias seguintes:

– O carro de aplicativo passou a 120km/h num posto de gasolina. Quando bateu nos Porsche, estava a 100 km/h (já devia estar freando…).

– Antes de pegar o passageiro, o motorista de aplicativo estava “tomando umas com os amigos”, quando veio o recado da central do aplicativo oferecendo uma corrida. Os amigos pediram para ele não ir, por ter tomado bebida alcóolica, mas ele disse que precisava faturar. E foi.

– O motorista do Porsche chamou a mãe. Ela veio e providenciou a chamada de uma ambulância para levar o filho para um hospital particular. Enquanto esperava ela perguntou aos policiais se tinham feito o teste do bafômetro no motorista de aplicativo. Eles não tinham o etilômetro, ela insistiu e tiveram que pedir numa delegacia próxima. Enquanto o teste não foi feito, ela fez a ambulância aguardar. Constatado o teor de álcool acima do permitido, o motorista de aplicativo foi detido e mãe levou o filho para o hospital.

– O motorista de aplicativo está sendo atendido por um advogado do Sindicato da categoria, que já entrou três vezes com um pedido de Habeas Corpus para que ele possa responder em liberdade e assim ter uma forma de sustentar a família. Pedidos até agora não atendidos.

O que justifica a diferença entre o universo real e o paralelo? A troca dos status sociais….

Escrito em 06/05/2024

PONTO DE VISTA

Hoje me senti à vontade para voltar a escrever. Desde que operei o fêmur, há pouco mais de um ano, deixei de me sentar à varanda para levar aquele papo. Inicialmente tinha uma “justificativa” física. Era difícil sentar para escrever preso a uma cadeira de rodas. Quando passei a usar o andador, tinha a desculpa de que no quarto não havia internet e era difícil me concentrar na escrita quando estava na área comum do Residencial. E, afinal, minha preguiça para encontrar novas estórias para contar. Tentei fazer, como sempre fiz: montar o esboço do texto na minha mente e digitar desenvolvendo essa ideia. Deus é testemunha de que tentei. Mas esbarrei na dificuldade de encontrar fatos da minha vida que pudessem ser um bom tema para o Papo na Varanda. E não encontrei (pelo menos até agora). Resolvi produzir um texto de ficção com alguns tons da minha realidade: isto se chama ficção. E assim nasceu a Viagem de Trem. Mas ainda não tinha disposição para digitar. Aquele texto demorou vários dias para ser produzido, pois logo me sentia cansado. Com isso, fui adiando fazer o que estou fazendo agora, em nome da minha indisposição (real), causada por manhãs de indisposição estomacal e tardes de sensação de desequilíbrio que me deixavam desanimado. Talvez como resultado de muitas orações, da família, dos amigos e amigas e das minha próprias, tenho me livrado de pelo menos 80% desses mal estares. Há dois dias que minha náusea se dissipa rapidamente e tenho-me sentido bem equilibrado, pouco precisando de apoio para caminhar. E, afinal, senti disposição para retomar em dos meus passatempos prediletos: escrever. E aqui me tens de regresso, caro teclado.

Mas persistia a dúvida: sobre o quê escrever? Até, eureca!, achei um caminho que vai facilitar um pouco minha tarefa. Resolvi abordar fatos do nosso dia a dia. Afinal todo dia acontece algo que nos chama a atenção e, sobre isso, sempre é possível fazer observações e emitir opinião, com o único risco de provocar opiniões contrárias que até me servirão para rever ou consolidar minha interpretação. Então, bolei como que um subtítulo para o blog: Papo na Varanda – PONTO DE VISTA. Vamos lá, espero que gostem e digam do que não gostem.

Vou começar pelo do meu xará “Tio Paulo”. O cadáver à frente do caixa do banco para levantar um empréstimo. Logo que a notícia foi para o ar, começaram os julgamentos. De cara, a imprensa noticiou com texto do tipo: “mulher leva homem morto para levantar empréstimo”. Pronto! Veja na gravação uma tentativa de estelionato! Como sempre, a primeira impressão pode não ser totalmente real. Num segundo momento, a mulher passou a ser identificada como sobrinha e cuidadora do idoso que ela chamava de tio Paulo. Já se notava uma pequena mudança na classificação da “estelionatária”. Depois mostraram vídeos dela com o “tio” entrando em lojas de empréstimos e no próprio banco e, aparentemente pelo menos, com vida. Começam a surgir as primeiras dúvidas: será que estava vivo quando entrou no banco?; por que ela esteve em lojas de empréstimos?; aquele vídeo que mostra a retirada dele de um carro de aplicativo, foi quando?; como o banco poderia ter o contrato de empréstimo pronto para ele assinar? Até então havia mais perguntas, mas parece que foi abandonada a classificação dela como estelionatária. E, a certa altura, a advogada apresenta comprovação de que ela estava em tratamento psiquiátrico; mas, qual é o diagnóstico?; que tipo diagnóstico permitiria que ela cuidasse da filha com “necessidades especiais” (que necessidades seriam?).  Dependendo desse diagnóstico, pode ser que ela não tivesse consciência da situação real do tio. Talvez por esta dúvida ela tenha sido solta para responder ao inquérito em liberdade. Enfim, ainda há mais pontos de interrogações à espera de respostas, que, espero, serão respondidas no inquérito.  Qual a minha conclusão? Temos uma tendência de julgar as pessoas sem conhecer toda verdade sobre elas. É preciso aprendermos a ver todos os fatos antes de julgar alguém. E prestar atenção nas notícias veiculadas na imprensa, que emitem notícias sensacionalistas, no afã ocupar o maior espaço na mídia e redes sociais ou, o que é muito pior, em certos casos, transmitir sub-repticiamente, posições ideológicas. Vejamos onde tudo isso vai dar…

Escrito em 03/05/2024

VIAGEM DE TREM

A bordo de um vagão, numa composição de quatro vagões, movido a energia elétrica, eu olhava a paisagem que passava suave e rapidamente a caminho do aeroporto de Guarulhos. E me lembrei da minha primeira viagem de trem. Tinha meus 14 anos, numa época em que as férias escolares se iniciavam em meados de dezembro e terminavam em meados de fevereiro. Era um problema para os pais, o que fazer com todo este tempo ocioso das crianças. Pois naquele ano o problema foi resolvido pelo meu tio Armando, irmão do meu pai. No começo de dezembro ele ligou para meu pai e me convidou para passar as férias em Bauru. Tio Armando e tia Eunice moravam num sítio de 4 alqueires, no município de Bauru, com seu filhos Pedro, de 14 anos, e Lúcia, de 12. O convite foi muito bem recebido pelos meus pais, mas principalmente por mim; meu irmão, Henrique, era temporão e tinha 6 anos, na época, e não era companhia para brincadeiras.

Meu pai escolheu que eu viajasse de trem, pois achou que era mais seguro e confortável. Comprou uma passagem para 2 de janeiro. Minha mãe foi ao Juizado de Menores fazer uma autorização para que eu viajasse sozinho. No dia 1º de janeiro ela fez minha mala. Aquela noite quase não consegui dormir, excitado pela expectativa da viagem. No dia da viagem saímos cedo, logo após o café da manhã, e fomos para a estação de trens. A plataforma de embarque estava bem cheia de gente. Alguns embarcando e outros se despedindo. Era um grande burburinho, com choro de saudade antecipada, votos de boa viagem, mil recomendações, mandando recados para quem fossem encontrar em Bauru. Me despedi da minha mãe e do Henrique. Meu pai me ajudou a levar minha mala e achar meu assento. Despediu-se de mim e desceu do trem, fazendo mil recomendações de última hora. Ele, minha mãe e o Henrique ficaram em frente à janela onde eu estava. Em todas as janelas havia gente se despedindo e burburinho aumento. O trem começou a se movimentar, em meio a grande agito de mãos abanando.

Quando o trem chegou a Bauru, o burburinho se repetiu, talvez um pouco mais alto. A plataforma cheia de gente que acenava e gritava assim que viam os conhecidos à janela. Meu tio Armando subiu no trem para me ajudar com a mala. Me abraçou e falou:

– Que belo mocinho você está!

Quando encontrei a tia Eunice ela falou mais ou menos a mesma coisa. Ao cumprimentar meus primos Pedro e Lucia é que percebi como o tempo tinha passado. Se os encontrasse na rua não os reconheceria, pois só estivera uma vez com eles há mais 6 anos. Meu tio acomodou a mala no porta-malas, eu e os primos nos sentamos no banco de trás e começamos a conversar. Eu, querendo saber sobre o sítio e de Bauru, eles querendo saber da viagem e de São Paulo. E já começamos a planejar o que faríamos nesse tempo de férias. Tia Eunice estabeleceu o que faríamos hoje:

– Hoje o Luiz tem que descansar da viagem. Quando chegarmos em casa vamos desfazer a mala e guardar tudo no armário do quarto do Pedro, onde ficará durante estes dias. Depois vamos jantar e sentar na varanda para conversar até que o sono chegue.

Claro, com a agitação da viagem e da chegada, o sono demorou a chagar, mas afinal chegou. No dia seguinte eu começaria a fazer as coisas no tempo do sítio, o que incluía dormir cedo e acordar cedo.

No dia seguinte a tia Eunice nos chamou às 7 horas, mas eu já estava acordado, ansioso para conhecer o sítio. O tio Armando falou o programa do dia:

– Vamos dar uma volta por todo o sítio, para o Luiz conhecer tudo que tem por aqui. Depois os três ficarão livres para fazer o que quiserem, apenas respeitando o horário das refeições.

A primeira parada foi na área próxima à casa. A uma pequena distância havia duas casas. Meu tio explicou que ali moravam duas famílias que trabalham no sítio. No terreno, mais ou menos entre as duas casas havia uma área que meu tio explicou que era onde havia plantações para consumo dos moradores. Um pomar, uma horta, um galinheiro, um curral com 6 vacas e um touro. Apenas o leite das vacas era explorado comercialmente; depois de tirados alguns litros para consumo próprio, o excedente era vendido para uma cooperativa da cidade. Ao lado da casa havia um galpão com churrasqueira, forno a lenha e uma mesa de ping-pong. Depois saímos andando em direção à plantação, que era de onde provinha boa parte do sustento de todos os moradores. O cultivo variava conforme a época e os preços do mercado. Neste mês era época do milho. Colhida a safra iriam plantar mandioca e batata doce. No limite do sítio corria um riacho de onde era tirada a água para consumo das casas. Para irrigação recebiam água da rede pública.

– Bem – falou meu tio – já está quase na hora do almoço. Vamos chegando que logo, logo a Eunice vai tocar o sino avisando que a comida está pronta.

De fato, assim que chegamos ao pomar, a tia Eunice tocou a sineta, ao lado da cozinha. Nas outras casas também se ouviu o som das respectivas sinetas. Depois do almoço meus primos sugeriram irmos ao pomar, para comer a sobremesa. Fiquei curioso sobre que sobremesa seria. Lá chegando o Pedro e a Lucia foram me mostrando as árvores frutíferas. Havia mangueira, abacateiro, goiabeira, laranjeira, jabuticabeira, limoeiro, pé de mexerica e uma grade com maracujá. Fiquei espantado, pois só tinha visto essas frutas nas feiras e nas quitandas. Pedro pediu para eu escolher uma fruta. Escolhi minha preferida de todas elas: manga! A árvore estava carregada de mangas, muitas maduras no ponto de colher. Lucia pediu para eu escolher uma e apanhou a que eu indiquei. Com uma bela e enorme manga na mão eu não sabia o que fazer. Pedro ria muito e falou:

– Aposto que você nunca descascou uma manga, certo?

– Com certeza! Minha mãe já põe os pedaços no prato.

– Primeiro devo dizer que sempre é bom trazer uma faquinha ou canivete quando viermos apanhar frutas. Mas, de propósito, não trouxe para te ensinar como descascar manga sem faca.

Então ele mordeu a manga numa das pontas, segurou a casca com os dentes e puxou. A casca se desprendeu de alto a baixo e ele arrancou. Depois mordeu outro pedaço da casca e puxou, da mesma forma. E assim ele descascou a manga toda. Pegou outra e me deu para descascar. Meio desajeitado fui mordendo e puxando. Depois de um tempo tinha conseguido descascar a manga e me lambuzar todo. Mas foi a melhor manga que eu já havia comido. Ao final, nós três havíamos comido nossas mangas e nos lambuzarmos todos. Então Pedro falou:

– Agora vamos lavar as mãos e o rosto no tanque. Mas levamos as cascas e os caroços para colocar num caixote que tem ao lado tanque, onde se transformarão em adubo orgânico.

Voltamos para o pomar. A goiabeira tinha dois galhos quase horizontais, onde estavam pendurados dois balanços onde começamos a nos balançar. Fizemos até uma certa competição de quem balançava mais alto. Mas eu perdi feio, pois era a primeira vez que me balançava desse jeito. Ouvimos o som da sineta e eu estranhei. Já era hora do jantar!!?? Não, era hora do lanche. Na grande mesa da cozinha havia um bolo de milho, suco de laranja e leite. Adorei esse costume. Passamos o resto da tarde conversando na varanda, até a hora do banho e do jantar. Meu tio chegou, tomou banho e jantamos. Ficamos conversando na sala e fomos dormir cedo, porque no dia seguinte íamos nos levantar muito cedo para uma atividade muito especial.

Tio Armando nos acordou às 5 horas da manhã. Colocamos um agasalho porque ainda estava bem fresquinho. Ele deu a cada um uma caneca grande, com açúcar e saímos. Fomos em direção ao estábulo. Lá chegando encontramos um dos funcionários ordenhando uma vaca. Ele pegou cada caneca e esguichou o leite dentro. Formou uma espuma grossa e quente. Meu tio falou para bebermos. Fiquei um pouco receoso, mas tomei. Uma verdadeira delícia! Muito diferente do leite que eu estava acostumado. Mais grosso, mais saboroso. O funcionário encheu um vasilhame de 5 litros, que aprendi se chamar tarro, para consumo dos moradores do sítio. Iam ser enchidos outros 4 tarros de 25 litros cada, que seriam entregues à cooperativa de laticínios. Enquanto voltávamos para casa, saboreando o leite, meu tio explicou que a cooperativa ia extrair uma boa parte da gordura, para fazer laticínios, como manteiga, e uma parte do leite seria usada para fazer queijo e outros laticínios. Mais da metade do leite, já com a gordura diminuída, seria embalado para uso dos consumidores. Meu tio acrescentou:

– Como você não está acostumado com este leite gorduroso, pode ser que tenha um pouco de desinteria. Não se preocupe, é normal.

Depois do café decidimos voltar ao pomar, apanhar alguma fruta e balançar na goiabeira. Tia Eunice falou:

– Levem uma cesta e quando vierem para o almoço passem no galinheiro e colham os ovos.

Comemos algumas jabuticabas, nos revezamos no uso dos balanços durante algum tempo e fomos para o galinheiro. Esta era outra coisa que eu não conhecia. Havia um puleiro onde meus primos explicaram que as galinhas ficavam durante a noite. Embaixo do puleiro havia uma camada de fezes das galinhas, que eram aproveitadas como adubo. Uma série de caixotes da madeira, forrados com palha, formavam um ninho onde as galinhas botavam os ovos. Mas, de vez em quando, alguns ovos eram botados em outros locais do terreiro. Então era preciso procurar. Nesse dia mesmo achamos dois ovos fora dos ninhos. Notei que havia uma galinha que continuava no ninho. Meus primos me explicaram que estava choca e ficava ali, em cima dos ovos, até que os pintinhos nascessem. Quanta coisa eu estava aprendendo!

Após o almoço, descansamos um pouco, esperando o sol baixar um pouco e meus primos foram me apresentar a horta. Eram vários canteiros onde havia plantação de verduras, legumes e temperos. Alguns pés estavam prontos para serem colhidos, outros estavam ainda crescendo e outros ainda não tinham ainda sido germinados e havia uma plaquinha indicando oi que estava plantado. Nos canteiros de verduras havia alface, almeirão, couve, couve-flor, repolho, acelga e rúcula. Nos canteiros de legumes via-se, ou podia-se ver a plaquinha indicativa, que havia tomate, cenoura, beterraba, abobrinha, beringela e pimentão. No setor de temperos: salsinha, cebolinha, orégano, coentro, tomilho, manjericão, pimenta de dedo de moça, salsão, erva doce. Quase todo dia minha tia Eunice pegava alguma coisa na horta, ou nos mandava pegar.

Conhecidos os principais pontos do sítio, passamos a gastar nosso tempo em visitar esses pontos, brincar, jogar jogos de tabuleiro, ler e conversar. Mas ainda havia algo a descobrir. No sábado, depois do café da manhã, meu tio falou:

– Vão se trocar e ponham roupa de banho. O Luiz pega um maiô emprestado do Pedro. Vamos fazer um piquenique na beira do rio.

Enquanto nós nos vestíamos os tios encheram duas sacolas com comidas e bebidas. Chegamos ao rio, nos instalamos ao lado do rio, num local em que havia uma espécie de praia. Ali nos acomodamos e passamos a manhã brincando e, de vez em quando, entrando na água. No fim da manhã nos sentamos para o almoço, que era vários tipos de sanduiche, frutas e suco de laranja. Limpamos praia e voltamos para casa. Meu tio falou que poderíamos vir até o rio quando quiséssemos, mas só entrar na água se tivesse um adulto junto.

Com tantas coisas para fazer, passaram-se voando os 40 dias de férias e era hora de voltar para casa e me preparar para início das aulas. Minha tia arrumou a mala e fomos para a estação. Ali se repetiu a cena de São Paulo. Um burburinho na plataforma, das pessoas se despedindo e depois acenando pelas janelas. Abracei meus tios e meus primos, já sentindo saudade desses dias maravilhosos. Ficou combinado que nas próximas férias o Pedro e Lucia iriam para São Paulo.

O trem apitou e começou a viagem de volta. Chegando a São Paulo, repetiu-se a cena das pessoas se abraçando, perguntando quais eram as novidades. Quando abracei meus pais, eles falaram que estava com ótima aparência e até havia engordado um pouco.

Enquanto eu relembrava aquelas férias maravilhosas o trem chegou ao aeroporto. Tudo muito quieto. A maioria das pessoas estavam viajando a trabalho. Então quase não havia despedidas. E acabaram quando os passageiros se dirigiram-se para a área de embarque. Lá chegando, a grande maioria dos viajantes se isolou do ambiente, voltados para seus celulares e notebooks. Um ou outro lendo. Ninguém conversando.

Senti saudade de Bauru…

Escrito em fevereiro/2024