Com a claridade, vou abrindo os olhos lentamente. Olho para fora do ninho e vejo um maravilhoso céu azul. Percebo que outras águias que habitam esta mesma montanha também vão acordando. Os filhotes ainda estão quietinhos no calor do ninho. Estico as asas num gostoso espreguiçar e saio voando para aquecer os músculos. Está um pouco frio e enquanto vou planando vejo que no vale, lá bem abaixo, ainda há um pouco de nevoeiro. Este primeiro voo da manhã é muito agradável, mas é hora de ir para a luta. Volto ao ninho e vejo que está tudo bem. Lá vou eu.
Nesse caminho em busca de comida achava que meus olhos já tinham visto de tudo, mas ultimamente tenho visto coisas novas que muitas vezes não entendo. E tenho que percorrer distâncias cada vez maiores para achar comida e levar para casa. Aquele lago lindo, bem perto daqui, que refletia as árvores e o céu, onde eu pescava peixes deliciosos, está praticamente seco. A floresta em torno dele também sumiu e agora só vejo animais comendo a relva que sobrou. Continuo meu caminho, em busca de um coelho, um rato do mato ou qualquer outro pequeno animal que eu possa caçar e transportar para casa. Em vez de mato, vejo grandes montanhas de lixo onde imperam os urubus, com os quais não desejo disputar suas presas. Tenho que ir mais e mais longe.
Nesse caminho vejo cidades cada vez com menos gente na rua, mesmo assim usando máscaras e com ar de preocupadas. Por outro lado vejo muito movimento em locais que, ao longo da minha vida, aprendi a identificar como hospitais e cemitérios. Mais adiante vislumbro grandes grupos de jovens dançando e bebendo, sem máscaras. Não consigo entender o que está acontecendo. Parece que há dois tipos de gente em cada mesma cidade. Entre nós, águias, é diferente. Ou estamos todas tristes e preocupadas, como na estação da seca. Ou estamos todas alegres, como na estação da primavera, quando a comida é abundante e os filhotes nascem.
Já estou bem mais longe do ninho do que costumo e ainda não achei comida. Baixo um pouco mais a altura e aguço a vista. E me surpreendo. Há uma pessoa deitada numa calçada, mal vestida e com cara de faminta, quando algumas pessoas se aproximam, lhe dão comida e roupas. Mais à frente vejo um homem, uma mulher e um filhote humano parados na frente de uma casa, acenando para dois velhinhos. De um lado e outro da casa todos riem e choram. Vejo grupos que guardam distância entre si e só se cumprimentam com os cotovelos. Vejo muita gente nas janelas, como muita vontade de sair e passear, mas não indo. Então, existe um terceiro tipo de gente em cada cidade? Que bom!! Não sei qual tipo vai prosperar, mas espero que sejam aqueles que respeitam a vida. E assim nós, águias, também sejamos beneficiadas.
Pronto, consegui pegar um bom coelho. Já estou voltando para casa. Devo chegar por volta do pôr de sol. Lá irei alimentar meus filhotes e dividir as sobras com outras águias que não tenham conseguido uma boa caça. É assim nosso costume. No caminho de volta, o céu continua azul, há lindas paisagens e eu estou feliz porque ainda há esperança de dias melhores para todos.
Escrito em 14/03/2021
