OLHOS DE ÁGUIA

Com a claridade, vou abrindo os olhos lentamente. Olho para fora do ninho e vejo um maravilhoso céu azul. Percebo que outras águias que habitam esta mesma montanha também vão acordando. Os filhotes ainda estão quietinhos no calor do ninho. Estico as asas num gostoso espreguiçar e saio voando para aquecer os músculos. Está um pouco frio e enquanto vou planando vejo que no vale, lá bem abaixo, ainda há um pouco de nevoeiro. Este primeiro voo da manhã é muito agradável, mas é hora de ir para a luta. Volto ao ninho e vejo que está tudo bem. Lá vou eu.

Nesse caminho em busca de comida achava que meus olhos já tinham visto de tudo, mas ultimamente tenho visto coisas novas que muitas vezes não entendo. E tenho que percorrer distâncias cada vez maiores para achar comida e levar para casa. Aquele lago lindo, bem perto daqui, que refletia as árvores e o céu, onde eu pescava peixes deliciosos, está praticamente seco. A floresta em torno dele também sumiu e agora só vejo animais comendo a relva que sobrou. Continuo meu caminho, em busca de um coelho, um rato do mato ou qualquer outro pequeno animal que eu possa caçar e transportar para casa. Em vez de mato, vejo grandes montanhas de lixo onde imperam os urubus, com os quais não desejo disputar suas presas. Tenho que ir  mais e mais longe.

Nesse caminho vejo cidades cada vez com menos gente na rua, mesmo assim usando máscaras e com ar de preocupadas. Por outro lado vejo muito movimento em locais que, ao longo da minha vida, aprendi a identificar como hospitais e cemitérios. Mais adiante vislumbro grandes grupos de jovens dançando e bebendo, sem máscaras. Não consigo entender o que está acontecendo. Parece que há dois tipos de gente em cada mesma cidade. Entre nós, águias, é diferente. Ou estamos todas tristes e preocupadas, como na estação da seca. Ou estamos todas alegres, como na estação da primavera, quando a comida é abundante e os filhotes nascem.

Já estou bem mais longe do ninho do que costumo e ainda não achei comida. Baixo um pouco mais a altura e aguço a vista. E me surpreendo. Há uma pessoa deitada numa calçada, mal vestida e com cara de faminta, quando algumas pessoas se aproximam, lhe dão comida e roupas. Mais à frente vejo um homem, uma mulher e um filhote humano parados na frente de uma casa, acenando para dois velhinhos. De um lado e outro da casa todos riem e choram. Vejo grupos que guardam distância entre si e só se cumprimentam com os cotovelos. Vejo muita gente nas janelas, como muita vontade de sair e passear, mas não indo. Então, existe um terceiro tipo de gente em cada cidade? Que bom!! Não sei qual tipo vai prosperar, mas espero que sejam aqueles que respeitam a vida. E assim nós, águias, também sejamos beneficiadas.

Pronto, consegui pegar um bom coelho. Já estou voltando para casa. Devo chegar por volta do pôr de sol. Lá irei alimentar meus filhotes e dividir as sobras com outras águias que não tenham conseguido uma boa caça. É assim nosso costume. No caminho de volta, o céu continua azul, há lindas paisagens e eu estou feliz porque ainda há esperança de dias melhores para todos.

Escrito em 14/03/2021

DIA DA MULHER

Sou muito crítico dessas comemorações. Dia disso, dia daquilo. Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia dos Namorados, Dia das Crianças, etc. etc. Basicamente por duas razões. Primeiro, por que acho essas comemorações criadas com objetivos comerciais. Segundo, por que acho que esses homenageados merecem consideração o ano todo. Tem gente que só lembra dos mortos no Dia de Finados. Aí compra flores, leva ao cemitério e chora lágrimas de crocodilo. Poucos se recordam de seus mortos ao longo do ano. É o que eu digo: dia das mães é todo dia. E assim por diante.

Mas o Dia das Mulheres é diferente. Não vejo apelo para presentear as mulheres, a não ser, eventualmente, um buquê de flores ou um texto de homenagem. A outra coisa diferente é que continuo achando que não deveria haver Dia da Mulher. Mas reconheço sua necessidade, até que um dia não seja mais necessário. As mulheres, desde sempre, têm que lutar bravamente por seus direitos. Têm que conquistar, diariamente, o lugar que merecem no mundo. Têm que passar por violência física ou moral, só porque são mulheres. São assassinadas Um pouco menos a cada dia, mas têm fazer jornada dupla de trabalho: no ganha pão e no lar. E muitas vezes têm que suprir a ausência do pai.

Enfim, as mulheres devem lutar até que, um dia, esta comemoração na seja mais necessária. Eu, que me criei, cresci e vivi no meio de muitas mulheres quero aqui agradecer a todas vocês. Mãe, filha, avós, irmãs, tias, primas, sobrinhas, amigas, colegas e conhecidas. Obrigado por tudo e tenham muita força para continuar sua luta.

Escrito em 08/03/2021

NEANDERTAL

Dias atrás ouvi o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, dizer que os governadores dos estados que tinham determinado o fim da obrigatoriedade do uso de máscaras, do lockdown e do isolamento social, como sendo de um comportamento Neandertal em plena pandemia. Para minha surpresa, foi a primeira vez que ouvi uma pessoa pública expressar tal opinião. Isto porque já falei, inúmeras vezes, talvez até para você que me lê agora, que o Homem evoluiu muito em conhecimento e tecnologia mas, em seu comportamento, continua sendo o Homem das cavernas, ou seja, um Neandertal. Vejamos como é meu raciocínio.

Em milhares de anos o gênero humano evoluiu. Aprendeu a fazer utensílios e ferramentas, a cultivar, a domesticar os animais, a usar o fogo. Quando evoluiu para Adão e Eva e recebeu uma inteligência superior, essa evolução foi acelerada. O Homem foi aprendendo a construir seu próprio abrigo, a fazer embarcações que o podiam levar para longe, descobriu a roda e pode passar a transportar coisas impossíveis sem esse recurso. Assim, começou a conquistar novas terras e novos povos. Depois da Idade Média seu progresso em termos de Arte e Cultura, Ciência e Tecnologia, etc. foi acelerando cada vez mais. Até que chegamos ao que temos hoje. Medicina, ciência, comunicação, computadores e tantas outras coisas que se criam com velocidade cada vez maior, enquanto escrevo este texto ou você o lê.

Mas, infelizmente, esse progresso todo, na grande maioria das vezes, tem por objetivo a dominação do Homem pelo Homem. Comprovando tristemente a Teoria de Charles Darwin. Talvez um dos primeiros artefatos usados pelo Homem das cavernas fosse o tacape. Que servia para caçar a comida da semana mas também servia para defendê-la dos outros homens, e até para tomar a caça dos outros. Depois veio Caim que matou Abel, primeiro fato relatado de uma disputa pelo poder. As conquistas de novas terras tiveram objetivos puramente econômicos e desencadearam a barbárie da escravidão. E assim vamos observando o uso do progresso por alguns em detrimento de muitos. Os veículos automotores que representam comodidade mas também podem ser armas de guerra. Os aviões, que nos permitem ir cada vez mais longe e mais rápido. Mas também permitem levar bombas, igualmente mais longe e mais rapidamente. Os remédios, além de seus efeitos sobre a saúde, também servem como a criação de um mercado muito rentável e massa de manobra política, por políticos que só pensam em seus próprios interesses , pouco se preocupando com as necessidades da sociedade. Essa é a minha teoria: O Homem evoluiu em tecnologia e conhecimento, mas em termos de comportamento, continua sendo o mesmo homem das cavernas. Um Neandertal.

Desculpe-me leitor, leitora, a amargura deste texto. Mas hoje as notícias são muito ruins, incluindo, pela primeira vez, a perda de pessoa mais próxima para a COVID-19. Mas nem tudo está perdido. Há ilhas de exceção, graças a Deus. Que todos que temos a visão piedosa e solidária dos nossos semelhantes permaneçamos firmes em nossas convicções.

Escrito em 06/03/2021

FORMIGA-RAINHA

Numa pequena cidade do Vale do Ribeira havia um sitiozinho habitado por uma única família. No começo a família começou a criar galinhas, para sua subsistência. Aos poucos foram sendo adicionados outros animais. Dois patos, um peru, três coelhos, uma cabra, uma vaca e um burrinho. E, é claro, onde tem vida tem formiga. Logo se formou um grande formigueiro. Na medida em que a população foi crescendo começaram a aparecer problemas de convivência. Quem tinha preferência para comer, para beber água e até desfrutar da sombra de uma rara árvore. Então os animais se reuniram e decidiram eleger um deles para comandar o espaço. Fizeram uma eleição e ganhou uma galinha. Afinal, as galinhas eram maioria e os outros animais demonstraram pouco interesse em assumir essa responsabilidade pelos próximos dois anos. E assim o tempo foi passando e a cada eleição ganhava uma galinha.

Depois de um tempo, os outros animais começaram a ficar incomodados com os privilégios das galinhas que, como já se disse, eram maioria. Mas um dia os outros animais começaram a discutir entre si como poderiam tirar o poder das galinhas. As discussões eram intermináveis. Numa delas, como ninguém se dispunha a enfrentar, criou-se um impasse. Qual animal iria enfrentar as galinhas? Nesse momento uma formiga saiu do formigueiro para buscar comida. Foi quando o burrinho teve a ideia. Por que não a formiga? Afinal ela era bem organizada, trabalhadora e esperta. Imediatamente a convidaram para concorrer ao cargo. A formiga, toda cheia de si, só colocou uma condição. Queria, como as abelhas, ser chamada de Formiga- Rainha. Todos concordaram e lançaram a candidatura da formiga.

Quando as galinhas souberam ficaram cacarejando e rindo. Como uma formiga poderia desafiá-las? Mas estavam redondamente enganadas! Todos os outros animais se uniram e, para grande surpresa das galinhas, a formiga foi eleita. Prometeu mundos e fundos, na expectativa de se reeleger várias veze para ser a Formiga-Rainha. Mas, então aconteceu o inesperado. Uma rigorosa seca se abateu sobre a região. Os animais pediram à formiga para ajudá-los a achar comida e bebida e sombra. Mas a formiga só coseguia fazer isso para si mesma. Jamais nas quantidades necessárias. Então começou a caçoar: “Vocês estão se queixando por nada. Eu me satisfaço com a água do orvalho nas folhas que corto e levo para dentro do formigueiro. E me alimento muito bem com um ou outro vermezinho que encontro. Estou muito bem. Vocês é que são fracotes.”

Então os animais se deram conta da bobagem que tinham feito ao não pensar sobre a proposta do burrinho. E resolveram, por unanimidade, cassar a Formiga-Rainha e mandar sua insignificância de volta para dentro do formigueiro, de onde nunca deveria ter saído. Elegeram a vaca e assumiram o compromisso de nunca mais aceitar megalômanos como a formiga.

MORAL: Nunca confie seu destino a quem nunca saiu da toca.

Escrito em 02/03/2021

CACÓFATO

Aquele garoto miudinho estava sentado no primeiro degrau da escada, na saída da cozinha. Gostava de ver, como estava fazendo, a lua cheia, enorme, pintando de prata a roupa no varal, as folhas de couve, cenoura, alface, rabanete na horta e o terreiro vazio porque as galinhas estavam empoleiradas no galinheiro fechado, para onde tinham sido tocadas no final da tarde. Ouviu um ruído, vindo do galinheiro, que não lhe chamou a atenção.

Na próxima lua cheia lá estava ele outra vez observando os raios da lua se derramando pelo quintal. E novamente ouviu o mesmo ruído da lua anterior. Agora sua curiosidade foi despertada. Ficou pensando o que poderia ser aquilo. Resolveu aguardar a próxima lua cheia para ver se o ruído se repetiria. E não é que se repetiu? Ele achou que era uma coincidência mas, como só ouvia esse ruído na lua cheia, resolveu investigar mas de perto quando ela voltasse.

No dia em que a lua ia se levantar em sua plenitude, ele desceu até o muro entre a horta e o galinheiro. Quando ouviu aquele mesmo barulho, levantou-se devagar, olhou para o puleiro e estranhou ao ver que algumas galinhas, mesmo no escuro, estavam dentro da caixa de madeira onde punham os ovos durante o dia. Voltou para dentro de casa disposto a investigar melhor no dia seguinte. De manhã, entrou no galinheiro, abriu a porta para que as galinhas saíssem para comer. Olhou nas caixas de ovos e, para sua imensa surpresa, achou pelo menos dois ovos em cada caixa. Ele sempre achou que todos os ovos eram botados durante o dia. Ao fim do dia, contou os ovos e encontrou três dúzias. No fim do próximo dia contou duas dúzias e meia, como era normal. No mês seguinte a coisa se repetiu. Uma luzinha amarela brotou em seu cérebro: teria a lua cheia algo a ver com tudo isso?

Resolveu ir a fundo no assunto. Procurava uma explicação, mas não conseguia. Resolveu buscar conhecimento onde seria mais provável de encontrar: a Universidade. Rachou noites a fio e conseguiu ser aprovado na Faculdade de Agronomia. Dedicava-se de corpo e alma à sua pesquisa. Formou-se com distinção, como seria de se esperar. Seus colegas foram se casando e constituindo família. Mas ele casou-se com sua pesquisa. Para facilitar seu estudo, empregou-se numa enorme granja. Até que, passados quase quarenta anos daquela primeira lua cheia, chegou à conclusão dos seus estudos. Já era tarde da noite, ele estava cansado e resolveu deixar a última pincelada na sua tese antes de enviá-la para publicação.

Enquanto tomava café da manhã e ouvia o noticiário, uma verdadeira bomba atômica entrou pelos seus ouvidos. Como não é raro acontecer no ambiente de pesquisa, um agrônomo uruguaio publicou um trabalho, comprovando a influência da lua cheia na produtividade das galinhas. Isso ia possibilitar a melhoria da alimentação para bilhões de esfomeados. E ele era candidato ao Prêmio Nobel. Aquele garoto, agora entrado em anos, ficou vários minutos petrificado. Esse outro cientista chegou à sua frente “por una cabeza”. Primeiro ele fez várias referências desairosas sobre “La madrecita” do uruguaio. Depois ficou pensando o que faltou para chegar pelo menos junto com o desconhecido competidor. Mas o que lhe faltou era POR NO GRÁFICO.

Escrito em 25/02/2021

PAIXÃO

Sim, leitor, leitora. Esta é a história de uma paixão. Paixão antiga. Cheguei a uma idade em que não temos receio de confessar nossas paixões, especialmente as antigas. Como quase todas as paixões, esta não começou já como paixão.

Inicialmente, quando estávamos no mesmo ambiente, nem sequer a notava. Depois, quando já sabia quem era, ficava indiferente a ela. Em seguida criei uma certa rejeição. Se pudesse, eu tentava não estar no mesmo ambiente. Na verdade, quando comecei a conhecê-la melhor, não gostava dela. Passei muito tempo com essa sensação, gratuita, de não gostar.

Depois, de tanto a ver, comecei a notar nela alguns pontos positivos. Seu aroma, o tempo que gastava para se preparar, sua presença destacada quando se apresentava em público. Aos poucos comecei a gostar de estar com ela. Em seguida passei a procurá-la sempre que podia. E aprendi a gostar dela, cada vez mais. Sua morenice afrodescendente, suas carnes. Macias onde tinham que ser macias, firmes onde tinham que ser firmes, as gorduras nos lugares certos. Quando entendi esse seu modo de ser começou minha paixão. Que cada vez aumenta mais.

Agora, ao contrário do início, eu a procuro sempre que posso. E hoje é um desses dias. Sei que ela me espera ao lado. Irei buscá-la logo mais. Para vê-la apetitosa como sempre. Vestida de branco, verde e amarelo. A trarei para casa e me debruçarei sobre ela com sofreguidão. Minha querida, minha desejada, minha gostosa… feijoada!!

Escrito hoje 20/02/2012, sábado.

LENTES NOVAS

Amanhã vou fazer cirurgia da catarata. Significa que as minhas lentes de fábrica se desgastaram com o tempo e precisam ser trocadas para não me atrapalhar a visão Quanta coisa elas viram ao longo da minha vida… Algumas lembro com saudade, outras gostaria de esquecer. A lente será nova, mas impressões serão para sempre. Coisas que elas viram:

… o quintal da casa da minha mãe, com as galinhas e a horta; eventualmente um peru, patos e coelhos.

… as mães sentadas na porta das casas, vendo as crianças brincando de amarelinha, pega-pega, esconde-esconde, barra manteiga e tantas outras.

… os tipos da rua, como homem que comprava roupa velha e vinha gritando, com forte sotaque “Roba velha, roba velha” e eu ficava com medo que ele levasse minha mãe…. E o homem das cabras, que eu ficava esperando sentadinho na porta de casa para tomar um copo de leite de cabra tirado na hora.

… o futebol na rua, onde passavam poucos carros.

… no caminho da escola, a saída dos operários da Ramenzoni indo almoçar em casa, todos de chapéu.

… o ônibus para voltar para casa, vindo do Colégio do Carmo e esperando o embarque das meninas do Colégio São José.

… meu nome na lista de aprovados na FEI e na Mauá.

… meu nome no convite de formatura e, logo depois, no convite de casamento.

… o registro de nascimento do Mauro, da Camila e do Edgar.

… o corpo do Mauro no caixão, morto aos 17 anos num acidente de carro em São José do Rio Preto.

… os nomes da Camila e do Edgar nos convites de formatura; ela em Odontologia e ele em Direito.

… a imagem da primeira neta, Sophia.

… a imagem dos primeiros tempos, difíceis, do neto Pietro.

… o teto da UTI em três das minhas cirurgias.

… o velório da Viviane.

Tantas lembranças…! Vão-se as lentes, mas ficam as recordações. Graças a Deus são mais das boas do que das tristes. Mas todas fazem parte da minha vida. Paro por aqui, para não encher volumes e mais volumes. De vez em quando, se alguma surgir mais forte, faço um texto para ela.

Escrito em 16/02/2021

CHUVA MIÚDA

Hoje cai uma chuva miúda. Mas tem chovido forte, causando alagamentos, enchentes e mortes. Como tudo na vida, a chuva pode ser vista de duas maneiras. Hoje esta chuvinha me traz nostalgia e gostosas lembranças.

Lembro do barulho da chuva escorrendo do telhado pela calha e fazendo um ruído agradável, para mim, na meninice, e com gosto por estar quietinho dentro de casa ou na cama. Ainda na casa da minha mãe, essa chuva miúda era bem recebida para molhar a horta cm delicadeza. Ela usava uma palavra para designar esse tipo de chuva – palavra essa que não consigo lembrar – como “chuva boa para a plantação”. É a chuva que os agricultores amam, pois facilita a plantação e favorece uma boa colheita. Durante o tempo que vivi com a Viviane ouvi muitas vezes o som da chuva caindo do telhado e me sentia feliz.

Tomei chuva na praia, que era bem recebida para atenuar o calor. Adorava sentir aqueles pingos batendo no meu rosto. Tomei muita chuva na rua, muitas vezes de terno e gravata. Se eu estava indo para algum lugar de mais cerimônia, simplesmente não ia e me justificava depois. Uma vez estava indo para um exame de imagem inadiável quando tomei uma dessas chuvas. Relaxei e caminhei despreocupadamente até o laboratório. Cheguei lá pingando feito um frango molhado. Fiz o exame e vesti a roupa molhada e cheguei em casa com a roupa ainda úmida.

Já tomei chuva jogando futebol. E também já tive que parar de jogar por causa da chuva. Já fiquei com o carro atolado por causa da chuva. Já vi arco-íris maravilhosos, por causa de chuva. Já tomei chuva no corso de Carnaval, em Santos. Já tive voos atrasados por causa da chuva.

Enfim, já tive bons e maus momentos com chuva. Mas encaro a chuva pelo que ela é para mim a cada momento. Vejo a chuva de hoje em sua essência: chuva é água. Chuva é indispensável à vida. Lembro do livro “Eu, robô” quando o personagem central e narrador descobre que, na verdade, era humano e não seus patrões, ao perceber que gostava de chuva e os verdadeiros robôs, não.

Chuva é água. Água é vida. A chuva miúda de hoje me traz doces lembranças e paz no coração.

Escrito em 13/02/2021

UM PRATO DE COMIDA

Flavio Terracini (nome fictício para um personagem real, de uma história real um pouco fictícia) acordou com o sol batendo em seu rosto. Espreguiçou longamente enquanto lembrava quantas vezes acordou assim e por que.

Flavio estava no 3º ano do Colegial/ Clássico do Colégio N.S. do Carmo, pois seu sonho era estudar jornalismo. Tinha muitos  amigos na escola por ser muito comunicativo. Um dos melhores era o Paulo Celso. Tinha uma vida muito confortável, pois seu pai era dono de uma famosa fábrica de sapatos. Depois da conclusão do Colegial cada qual seguiu seu caminho. Alguns anos mais tarde Paulo estava estudando quando soou a campainha da casa. Ele foi ver quem tocava e era o Flavio na calçada. Mas ele tinha um aspecto estranho, mal vestido e barba por fazer. Paulo o convidou para entrar e sentaram-se nas poltronas que havia na varandinha da casa. Flavio pediu um copo de água e Paulo trouxe. Paulo começou:

– Quanto tempo não Flavio? O que você anda fazendo?

Flavio olhou bem para Paulo e começou a falar:

– Pois é Paulo. Pouco tempo após concluirmos o colegial a minha vida começou a virar de ponta cabeça. A fábrica do meu pai quase foi à falência e foi fechada. Ainda conseguimos sobreviver por um tempo, com a venda dos estoques e o contas a receber, mas até isso acabou. Meu pai não aguentou e cometeu o suicídio. Eu, totalmente desnorteado, saí de casa e fui morar na rua. Claro, não tinha a mínima noção do que era ficar ao relento, pedir esmola e não saber o que teria para comer. Um dia, morto de fome, entrei num supermercado e peguei pão e algumas bolachas. Enfiei em baixo da camisa e fui saindo quando um segurança, alertado pelas câmeras de vigilância, pegou com força no meu braço e disse:

– Seu ladrãozinho de merda. Onde pensa que vai com essas coisas?

– Levou-me para uma sala e chamou a polícia. Fui preso e autuado em flagrante por furto. Fui condenado a dois de prisão. Faz pouco tempo que fui solto. Mas não consigo emprego, pois só Colegial não é suficiente, além de que não ter um endereço te exclui de participar de qualquer processo der seleção. Então voltei a morar na rua, passar fome, dormir ao relento e acordar todo dia com o sol batendo no meu rosto.

Paulo ouviu tudo isso estarrecido. Convidou Flavio para entrar e sentar-se na sala de jantar. Sua mãe preparou um prato de comida, com arroz, feijão e frango ensopado com batatas. Flavio comeu com sofreguidão e pediu para repetir. Quando terminou, ficou em silêncio, olhando para a mesa. Um olhar de desespero.

– Paulo, não consigo aguentar mais esta vida. Entendo meu pai. Estou pensando em seguir o mesmo caminho que ele.

Paulo ficou com preocupado e com pena dele.

– Flavio, não pense em bobagem. Você ainda tem condições de se levantar e construir uma vida melhor. Só precisa de ajuda. Perto daqui tem um albergue, no Glicério. Eles podem te acolher, com cama, banho e comida. Durante o dia você sai e vai à luta. E lá também tem Assistentes Sociais que podem lhe orientar.

Paulo fez um sanduiche e lhe deu para mais tarde. Flavio saiu e se dirigiu na direção do Albergue. Paulo nunca mais soube do Flavio. Até que um dia, ouvindo um jogo de futebol pela radio CBN, o que quase nunca fazia, pois preferia a Bandeirantes, ouviu o anúncio da equipe de transmissão:

– E, nos comentários, Flavio Terracini.

Paulo mal acreditou em seus ouvidos. Ficou muito feliz pelo amigo! O tempo avançou mais um pouco. Um dia Paulo foi ao estádio para ver uma partida de futebol. Já estava sentado quando Flavio apareceu ao seu lado. Abraçaram-se longamente. Flavio falou:

– Eu te vi lá da cabine de radio e fiz questão de vir até aqui.

– Flavio, como estou feliz em saber que você conseguiu dar a volta por cima!

E Flavio, com os olhos marejados de lágrimas:

– Paulo, aquele abençoado prato de comida me salvou.

Escrito em 11/02/2021

INSPIRAÇÕES

Dizem que atingir um objetivo requer transpiração e inspiração. Domingo eu estava disposto a transpirar, mas a inspiração não vinha. Ontem as inspirações vieram, mas eu já não estava muito a fim de transpirar. Só hoje as duas coisas se juntaram e cá estou. Curiosamente as duas inspirações giram em torno da minha mãe. Uma se refere a Ópera e outra a Frango Ensopado. Estranho, mas é real…

No domingo eu estava procurando algo para assistir no Youtube e me deparei com uma gravação da ópera Carmen, de Georges Bizet. Eu gosto de varias árias dessa ópera, mas nunca tinha visto a ópera toda. São 2h50, gravadas no teatro da Ópera de Paris. Decidi assistir inteira. Uma maravilha de encenação para quem gosta do gênero. Figurino bonito, vozes maravilhosas. Mas o que tem isso a ver com a minha mãe? Explico. Reza a lenda que o pai da minha avó materna, Carmen, era um maestro chamado Carlos Felice. O fato é que ele pôs nos filhos nomes de personagens da ópera. Assim, além da minha avó Carmen, os nomes das irmãs eram Ofélia, Lucia, Laura, Desdemona (não sei se me esqueço de alguma) e o único homem chamava-se Ameleto (Hamlet em italiano). E, na peça, várias vezes a personagem central é chamada de Carmencita. Acredito que, por isso, minha avó era conhecida por Carminha. Quando minha mãe nasceu, foi batizada de Carmen (falta de imaginação…) e recebeu o apelido de Carminhdinha. Eu achava muito estranho ouvir os primos e tios chamá-la por esse apelido. Mas finalmente entendo.

E vamos à segunda inspiração. No domingo, minha vizinha Erenilda me mandou três pedaços de frango ensopado, que estavam uma delícia. Então me lembrei que por um longo tempo eu evitava comer frango ensopado. E aqui vai a razão. A casa onde nasci e vivi até casar não era muito grande, mas tinha um quintal imenso. Parecia uma chácara incrustada naquele cantinho do Cambuci. E minha mãe, nascida em São José dos Campos, manteve a alma interiorana. Tinha horta e terreiro. E eu, que também herdei dela esse gosto caipira, adorava ajudá-la a cuidar desse terreno. Um pedaço desse espaço foi quadra de vôlei, campo de futebol e milharal. Nesse mesmo terreiro minha mãe criava galinhas poedeiras e vendia ovos na vizinhança para ajudar na subsistência da família. Eram talvez umas trinta galinhas e alguns frangos. Eu tenho uma infinidade de lembranças dessa época, mas vou ficar só na questão do frango ensopado. Minha mãe sempre pesquisava como aprimorar o desempenho das galinhas. Com o tempo passou a alimentá-las com uma ração que aumentava a produção de ovos. Tornou-se quase uma verdadeira granjeira. A ração era entregue em casa, em grandes sacos que eram estocados no nosso porão. Jamais esquecerei que esse produto se chamava Avevita. Eram pelotinhas do tamanho de um grão de milho e rescendiam fortemente a farinha e outros aditivos, que certamente continham. Vez por outra, quando as coisas apertavam em casa, o que não era raro, ela matava um frango e o preparava ensopado. Para mim, o frango tinha gosto e cheiro de avevita. Eu comia porque não tinha opção. Por isso, por décadas, eu evitei frango ensopado. Mas, com o tempo, perdi essa cisma e hoje a forma que mais gosto de frango é ensopado.

Escrito em 09/02/2021